Psicanálise e poética do espaço

Keli Boop

“Lar doce lar”, diz o dito. Não é por acaso que, após uma exaustiva jornada de trabalho, as pessoas queiram voltar para o aconchego de suas residências. É na casa que está o “germe da felicidade central, seguro e imediato”, escreveu Gaston Bachelard, em 1957, em A Poética do Espaço. Mas muito antes do anticonvencional filósofo francês, autor de A Filosofia do Não, um vienense já havia se interessado pelo simbolismo da casa. “Em 1900, em A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud percebeu que a casa remetia à representação do organismo, do corpo, da sexualidade e suas diferenças”, lembra a psicanalista Denize Martinez Souza, diretora-científica do Grupo de Estudos Avançados (GEA), que organizou em maio o I Congresso Internacional de Psicanálise e Arquitetura .

Sobre a relação de interdependência entre o indivíduo e seu meio, a psicanalista lembra que a paisagem de uma cidade “é uma marca referencial na identidade dos indivíduos que a habitam. Faz parte da memória e da historicidade de cada sujeito. A paisagem, o lugar e o espaço habitado são registros dentro do psiquismo individual e marcam também registros no psiquismo transubjetivo – caracterizados pelos registros comuns que definem também o sentimento de pertencer – pertinência a um núcleo, lugar, cidade, estado e país”.

Segundo ela, o ambiente participa do processo de elaboração da consciência que o homem tem de si mesmo. “Milan Kundera, em seu livro A arte da Novela, cria uma metáfora que expressa bem essa idéia: O homem não se relaciona com o mundo como o sujeito com o objeto, como o olho com o quadro; nem sequer como o ator que decorou uma cena. O homem e o mundo estão ligados como caracol e sua concha: o mundo forma parte do homem, é sua dimensão e, à medida que muda o mundo, a existência também muda. Eu diria mais, a psicanálise reconhece a importância do ambiente também como estruturante da mente inconsciente. O espaço que se abre como possibilidade é pensar o quanto o inconsciente, que se manifesta no “entre-dois” e “no entre-muitos”, influencia na construção do mundo e na materialização dos espaços construídos”, completa.


Essa matéria continua:

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