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A
indústria é o lobo da indústria
Fotos:
René Cabrales
João
Luiz Wördenbag ficou famoso nacionalmente por seu apelido,
Lobão, e por uma grande porção de canções
que viraram sucessos populares nas vozes e memórias de
representantes de pelo menos duas gerações desde
que Lobão começou a gravar, na primeira metade dos
anos 80. Não foi apenas a música que projetou Lobão
no cenário nacional, no entanto. Desde sempre, ele tem
sido conhecido por apresentar um dos discursos mais bem articulados
entre os artistas populares no Brasil. Suas brigas com as gravadoras,
que lhe renderam a pecha de encrenqueiro (por parte das gravadoras,
claro), acabaram também sendo o caminho para a independência
total como artista. Mas, se as gravadoras achavam que estavam
livres de Lobão com o cantor compositor seguindo o caminho
da música alternativa, se enganaram. Lobão estava
apenas começando sua cruzada em defesa dos direitos dos
artistas que culminou este ano em uma mobilização
de todas as áreas culturais em favor da aprovação
imediata de um projeto de lei que exige a numeração
das obras culturais editadas no Brasil, garantindo aos que criam
um controle maior sobre suas obras. Demiti a gravadora,
diz, entre outras coisas, o autoconfiante, independente e bem-falante
Lobão nessa conversa exclusiva com o Extra Classe.
Jimi Joe
O Extra
Classe Fale um pouco dessa questão da numeração
das obras como livros, CDs, publicações científicas
ou literárias, editadas no Brasil. A indústria cultural
rouba os artistas?
Lobão Seria a numeração de toda
a produção de conhecimentos. Seriam livros, discos
e obras científicas. Quer dizer: obras de ciências
sociais, de juristas, inclusive. O próprio ministro (da
Justiça, Miguel Reali Jr.) acabou de lançar uma
obra científica sobre legislação e será
beneficiado com essa lei... Então, o que aconteceu? Para
começar eu recebi um telefonema da deputada federal Tânia
Soares, de Sergipe. Ela tinha lido uma entrevista de Zeca Baleiro
na revista Caros Amigos em que se falava da questão dos
direitos dos artistas sobre as obras gravadas e sobre a dificuldade
de controle das quantidades editadas, da falta de numeração
e tal. Daí ela falou que queria levar um projeto para a
Câmara Federal sobre o assunto. Eu, a princípio,
fiquei meio cético em relação a isso, mas
falei que era legal, que tinha mesmo que numerar as obras. Daí
passou-se um ano e meio, esse projeto ficou meio na surdina e
agora, algumas semanas atrás, voltou à tona já
em caráter de aprovação final no Congresso,
quando ela me ligou novamente. Foi quando eu conversei com outras
pessoas interessadas no assunto, acabei conversando com Beth Carvalho
no Rio de Janeiro, e nós dois fomos à Brasília
pedir a aprovação imediata desse projeto apesar
das contestações das gravadoras de que não
existiria um sistema ideal para a numeração em série
de CDs , embora a gente saiba que há possibilidade, tanto
que o meu CD, que é vendido em bancas de jornais do Brasil
inteiro, é numerado. Daí surgiu a história
de que a numeração encareceria ainda mais o produto
final, o que também não é verdade, pois seria
um custo de no máximo 1 centavo a mais por disco, ou seja,
zero vírgula zero um real. Não é nada.
EC Mas como ficou a história da lei?
Lobão Bom, a deputada me ligou novamente há
algumas semanas, justamente quando eu estava saindo em excursão
pelo Nordeste, para me dizer que a inclusão da lei, ou
melhor, do artigo, pois na verdade não é uma lei,
mas um artigo, o artigo 28 que vai ser incorporado à Lei
dos Direitos Autorais, promulgada em 1998, havia sido aprovada
por unanimidade na Câmara dos Deputados. Mas ironia desse
lance é que esse artigo foi votado numa brecha causada
pelo próprio lobby da indústia fonográfica
que procurava uma maneira de criminalizar a pirataria.
EC Mas a pirataria também é uma realidade
no Brasil. Está por toda a parte, no meio da rua.
Lobão Sem dúvida, mas existe uma coisa
que eu considero pior que é a pirataria oficial, feita
pela própria gravadora com o artista. Eu viajo pelo Brasil
inteiro e vejo nos meus shows milhares e milhares de pessoas com
meus discos nas mãos e na maioria das vezes são
discos oficiais. Daí a gravadora vem me dizer que o disco
tal vendeu 40 mil cópias, mas eu vejo muito mais discos
nas ruas, nas mãos das pessoas do que o número que
me é apresentado. Então eu fico com razão
para desconfiar de alguma coisa. E tem coisas piores como essas
coletâneas que são lançadas a três por
quatro, sem qualquer critério de seleção
sem respeitar cronologias, fases do artista. Ou seja, o artista
não tem direito nenhum sobre sua obra depois que ela passa
a pertencer a uma gravadora. Já vi coletâneas minhas
com músicas de épocas passadas e a capa apresenta
uma foto mais atual, tipo tentando mostrar que é um disco
novo quando não é.
EC Mas você deveria ganhar dinheiro com isso.
Se a gente comparar, nos Estados Unidos, um artista que emplaca
um único sucesso em sua vida, às vezes vive dos
direitos dessa música por muito tempo. Você, por
exemplo, também tem mais de um sucesso nacional, já
tendo sido gravado até pelo João Gilberto. Dá
para viver de disco?
Lobão Mas é aí que a coisa pega:
o artista não ganha dinheiro com disco no Brasil. Eu nunca
na minha vida ganhei dinheiro com disco. Criou-se um mito no Brasil
de que o artista só ganha dinheiro com shows. No exterior
é o contrário, o cara faz shows para divulgar o
disco. Aqui o cara faz shows para poder viver. Nos últimos
dez anos, recebi uma quantia ridícula relativa a direitos
autorais nos pagamentos que são feitos trimenstralmente.
No entanto, nesse mesmo período foram editadas várias
coletâneas com gravações minhas que devem
ter vendido bastante.
EC Você conseguiu vender mais de 100 mil cópias
com o esquema independente de vendas em bancas de jornais no Brasil
inteiro do disco A Vida é Doce e agora parece
seguir o mesmo caminho com Uma Odisséia no Universo Paralelo.
Isso pode significar o surgimento de um novo nicho de mercado,
diferente do mercado fonográfico habitual?
Lobão Se a gente for fazer uma análise
dessa questão das grandes empresas do mercado fonográfico
e a produção independente de CDs, você vai
ver que lá no começo do século 20, quando
surgiram os gramofones, os grandes editores de partituras achavam
que estavam sendo passados para trás, que estavam sendo
pirateados. Mas era somente uma nova tecnologia surgindo. Agora,
com a aprovação desse artigo da Lei dos Direitos
Autorais, que exige a numeração das obras, a indústria
fonográfica está num beco sem saída porque
não vai mais poder dissimular os números.
EC Como é essa relação com rádio?
A maioria dos artistas considera importante ver suas músicas
rodando no rádio como forma de divulgação.
Como é isso na prática?
Lobão Eu não toco no rádio porque
não tenho dinheiro. Não pago jabá(gíria
para definir os valores que as gravadoras pagam às emissoras
de rádio e TV para veicularem seus artistas). Tenho nome,
mas não tenho dinheiro. Já se disse que o jabá
não pode ser penalizado por não ser um crime previsto
em lei, que é mais uma questão de suborno branco,
uma coisa disfarçada que nenhum dos lados confirma nem
desmente explicitamente. Mas é uma coisa que poderia ser
enquadrada como falsidade ideológica. Afinal o cara vai
lá no microfone e anuncia tal música como a segunda
colocada e o disco mal saiu, quase ninguém conhece. A gente
tem de desconfiar dessas coisas. Todo ano tem um cartel que decide
qual a estética musical vai predominar, quais os nomes
que vão estourar. É tudo vergonhoso. Quando você
pede a alguém para confirmar o jabá, ninguém
confirma, mas existe. E daí o meu disco não toca
porque eu não pago. Aí no Rio Grande do Sul mesmo,
já ouvi um sujeito de rádio me dizer que gostava
do meu disco, tinha em casa e tal, mas não rodava na rádio
porque a rádio não recebia para isso. Daí
a solução é tocar em rádios comunitárias.
Eu não sou a favor de rádios piratas, sou a favor
de rádios livres. Mas é preciso ficar atento, também
não dá para confiar em rádios ditas comunitárias
que na realidade são dominadas por pastores religiosos,
por exemplo.
...no
Rio Grande do Sul mesmo, já ouvi um sujeito de
rádio me dizer que gostava do meu disco, mas
não rodava porque
a emissora não recebia para isso |
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EC
Você costuma dizer que não é roqueiro até
porque essa expressão carrega uma forte carga de preconceito.
Como você se enquadraria na cena atual da música
popular brasileira, então?
Lobão A mídia usa a palavra roqueiro
como forma de desdém. Quando Cássia Eller estava
viva, ela era a cantora Cássia Eller; quando ela morreu
as notícias falavam da morte da roqueira Cássia
Eller. Eu sou rock, não faço rock necessariamente.
EC Falando em CDs independentes, você se filiou
à Agadisc, Associação Gaúcha de Discos
Independentes. Por que essa aproximação com o Sul?
Lobão Eu acho que Porto Alegre e o Rio Grande
do Sul atingiram um nível de qualidade de vida muito bom
nos últimos anos. Isso abarca uma produção
cultural muito grande independente do centro do Brasil. Na área
da música, muita gente está produzindo aqui, gravando
discos, sem precisar se apoiar nas grandes gravadoras. Porto Alegre
conseguiu uma visibilidade muito positiva com eventos como o Fórum
Social Mundial.
EC Você pretende lançar artistas daqui pelo
seu selo, além de lançar seus próprios discos?
Lobão Creio que há possibilidade disso.
Tenho planos para lançar uma série de discos de
outros artistas, sempre seguindo esse esquema das vendas em bancas.
Vou começar com alguns nomes do Rio de Janeiro, onde conheço
melhor o mercado por ser de lá embora confesse que o Rio
me atrai cada vez menos como cidade. Em Samba da Caixa Preta,
que está no disco novo ao vivo, eu nego tudo o que está
se construindo no Rio. Sou carioca, mas não suporto mais
o Rio folclorizado. Além disso o Rio virou uma coisa baianizada.
E tem toda essa barra da violência urbana que está
tornando a cidade simplesmente ingovernável. A canção
tem um pouco de humor, mas a barra é pesada. Agora, tem
muita gente boa fazendo música no Rio, como Maurício
Negão, que eu pretendo lançar pela Univeso Paralelo.
Afinal, até mesmo as gandes gravadoras entraram na minha
jogada das vendas em bancas. O disco do Supla, que dizem ter vendido
600 mil cópias, só decolou quando a gravadora decidiu
me imitar e jogar o disco nas bancas a um preço bem mais
acessível.
EC Você fala muito em número de vendagem.
Essa é sua preocupação básica? Como
é que fica a obra, a música?
Lobão Quando eu falo que quero vender 350 mil
cópias desse novo disco, é uma coisa de confrontação
com a indústria. Vai ser importante politicamente que as
pessoas saibam o que é vender essa quantidade de discos
no país todo mesmo sendo ignorado pela maioria das rádios
que não toca o meu disco. Além disso é um
disco com 75% de músicas desconhecidas do grande público.
Ou seja, eu estou passando informação. E quanto
mais pessoas se interessarem e tiverem acesso à essa informação,
tanto melhor.
EC E é bom para o bolso também, ou não
é?
Lobão Mas isso é uma conseqüência
de todo esse meu trabalho. Você vê que vendendo CD
em banca, numerado, tudo direitinho, por um preço de R$
11,90, quando o CD mais barato das grandes gravadoras não
baixa de R$ 19,90, eu ganho ainda três vezes mais do que
ganhava nas gravadoras. Espero que essa atitude de lançar
discos em bancas e de questionar o tipo de relação
que existe até hoje entre gravadoras e artistas se espalhe
mais entre os músicos.
EC
Por que você acha que resolveram aprovar esse artigo
sobre a numeração das obras culturais? Não
foi só por pressão da classe artística, certamente.
Lobão Não, mas é bom deixar claro
que uma quantidade muito grande de artistas assinaram a moção
de apoio que a gente espalhou pelo país, via Internet.
A gente conseguiu a adesão de centenas de artistas. E o
mais irônico nisso é que assinaram a favor artistas
que estão há anos em grandes gravadoras como Caetano
Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Marisa Monte, Titãs,
Zeca Pagodinho, Zezé de Camargo & Luciano... Enfim,
a maioria quer a numeração dos discos e dos livros
e de todas as obras culturais editadas no país. Desde a
revolução industrial, do começo da fabricação
em série, a numeração das peças é
uma realidade. A indústria automobilística numera
todos os seus carros. É, inclusive, uma maneira de se ter
um controle de qualidade, de poder avaliar lotes com defeitos.
Mas não creio que esse artigo sobre a numeração
esteja sendo aprovado somente por isso ou porque o Congresso se
preocupa com o bem-estar dos artistas, que aliás é
sempre a desculpa usada pela indústria fonográfica
em Brasília para conseguir novas vantagens. Acho que a
aprovação se deve mais ao fato de estarmos em um
ano eleitoral e os artistas estão em voga, a gente sempre
tem a atenção da mídia. Então acho
que basicamente por isso está sendo aprovado, embora as
gravadoras já estejam chiando.
EC O que você espera do próximo presidente?
Lobão Na verdade o que tenho é a expectativa
de um presidente da República que restitua a identidade
do país nesse contexto de globalização que
a gente está vivendo há muito tempo. Eu espero um
presidente que seja capaz de dar um rumo ao país em vários
sentidos, não apenas politicamente. Eu sou um cara que
faz música, que vive dentro de uma realidade cultural.
Então tenho expectativas quanto a isso. Mas também
me preocupo com educação, saneamento e agricultura.
Nós precisamos de um governo que saiba impor nossa identidade
como país dentro da comunidade mundial. Eu insisto nessa
coisa da identidade porque nós vivemos uma grande crise.
Nós não temos mais referenciais próprios.
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