Protecionismo por todos os lados

Paulo César Teixeira

A desilusão ideológica pode conduzir a conclusões equivocadas. A idéia de que Bush baixou medidas protecionistas para tirar proveito nas negociações da ALCA – a tese do bode na sala – não é isenta de contradições. A primeira delas é que o protecionismo é uma tendência histórica dos republicanos, assim como dos conservadores britânicos, que dificultaram ao máximo a União Européia, na era de Margareth Thatcher. A segunda, e a mais importante, é que Bush não reforçou as muralhas apenas para barrar os produtos latino-americanos. A represália tem como alvo prioritário a Comunidade Econômica Européia e o Japão. Os subsídios agrícolas na Europa chegam a US$ 62 bilhões/ano e no Japão, US$ 31 bilhões/ano. Em média, os japoneses praticam tarifa alfandegária de 59% para a agricultura, enquanto a CEE impõe 30% – apesar da Farm Bill, os Estados Unidos ficam em 12%.

Reuters
Mão fechada: Bush empurrou o debate para o final de sua gestão

Pelo menos 36 países manifestaram interesse de entrar com representação contra os EUA na Organização Mundial do Comércio. A Rússia aboliu a importação do frango norte-americano. A CEE ameaça retaliar taxando, por exemplo, as motocicletas Harley-Davidson, montadas na Pensilvânia. O fato é que a negociação da ALCA ficou mais complicada – não é mais bilateral, e sim triangular. É difícil crer que, até 2005, a CEE venha a abrir mão dos subsídios agrícolas – numa projeção otimista, poderia no máximo reduzi-los –, para facilitar a retirada das barreiras dos EUA, condição aparentemente indispensável para a criação da ALCA. Uma opção é rezar para que as donas de casa e os consumidores de automóveis norte-americanos pressionem Bush a afrouxar o cinto. “Eles pagam o pato com o aumento dos preços no mercado interno. Há que considerar também que, para cada emprego das siderúrgicas, existem 57 postos de trabalho na indústria transformadora do aço dos EUA, que será afetada”, diz Hafers.

Ganhando e perdendo com a Alca
ESTADOS UNIDOS – Ganha com a queda de barreiras para vender produtos de manufatura e alta tecnologia; empresas norte-americanas podem se instalar na AL e produzir com custo menor – RISCO: perde na agricultura e em setores específicos, como siderurgia, o que gera desemprego.

CANADÁ – Ganha ao ampliar o mercado para artigos sofisticados, que não sofrem concorrência da AL – RISCO: perde no setor agrícola e segmentos pontuais, como aeronáutica.

MÉXICO – Ganha devido à proximidade geográfica e por estar em estágio mais avançado de integração com o mercado dos EUA – RISCO: terá que dividir os investimentos do vizinho rico com a AL.

MERCOSUL – Em tese, ganha principalmente com a agricultura – RISCO: aniquilamento da indústria com a concorrência dos EUA.

PAÍSES ANDINOS e CHILE – Indefinidos: estão com um pé no Mercosul e outro no Nafta, esperando para ver em qual terão mais vantagens.




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