Os EUA
e o "murro na mesa" de negociações
Paulo
César Teixeira
Se o Brasil questiona a ALCA, ela também tem resistências
nos EUA. A começar por boa parte dos sindicatos de trabalhadores
ligados a setores vulneráveis da indústria. Mesmo
áreas sofisticadas, como a informática, podem
sofrer com o desemprego. A Compac tem a opção
de ampliar a fábrica de Campinas (SP), para aproveitar
o menor custo de mão-de-obra e insumos como energia elétrica,
reduzindo o ritmo nas instalações do Texas,
especula o advogado Renato Stetner. O Congresso dos EUA negou
a Bush a TPA Trade Promotion Autority , que permite
ao presidente negociar com autonomia e submeter aos parlamentares
o acordo comercial, cabendo a eles apenas aprová-lo ou
rejeitá-lo. Sem o salvo-conduto, Bush terá que
aceitar emendas aos termos do tratado, o que, na prática,
paralisa a ALCA. Não existe negociação
em que o principal negociador não tem a palavra final
para decidir, afirma Stetner.
Conclusão: o quadro está enrolado. É muito
problema para ser resolvido em curto espaço de tempo.
Ninguém diz claramente que o prazo de 2005 é inviável.
Os EUA não o fazem para não dar um trunfo
aos latino-americanos. Estes não dão a mão
à palmatória por temer a cara feia dos norte-americanos.
Por insegurança colonial, queremos ser simpáticos.
Mas o comércio internacional não é um baile
de debutantes. É uma guerra feroz, afirma o produtor
rural Hafers. Só existe uma alternativa e é
a pior de todas para o cumprimento do prazo de 2005.
Se as conversações se arrastarem, sem solução
à vista, os norte-americanos poderão adotar a
política do murro na mesa, adverte o professor Peixoto,
da UERJ.
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"Sou
conservador mas não sou burro", diz Hafers
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Para isso,
poderão valer-se da fragilidade das economias sul-americanas.
A Argentina quebrou e arrastou o Uruguai para o abismo.
A Venezuela enfrenta instabilidade política. Na Colômbia,
há um Estado fragmentado. Chile era exceção,
mas o crescimento baixou para 2% ao ano e o desemprego subiu
para 8%, diz Peixoto. Quanto ao Brasil, a necessidade
de despejar dezenas de bilhões de dólares para
fechar o balanço de transações correntes
e a explosão da dívida interna comprovam que agarrar-se
à estabilidade, sem crescimento econômico, foi
um erro trágico.
Em 2004, haverá eleição presidencial nos
EUA. Se for reeleito, Bush poderá estufar o peito como
um cowboy que adentra o saloon e põe o revólver
sobre o balcão: Acabou a conversa fiada. A ALCA
sai de qualquer jeito.
Empurrado goela abaixo, sem as devidas cautelas, o acordo comercial
poderá ser a pá de cal na soberania nacional.
O efeito será o de uma chicotada de tontear,
avisa o professor da UERJ. Se não houver força
de reação, aos brasileiros restará parodiar
o ditador mexicano Porfírio Diaz, com a máxima
pronunciada há mais de 100 anos: Pobre Brasil,
tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos.
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