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EC
- Isto pode significar algum tipo de isolamento do país no
cenário dessa economia globalizada?
PS
-
Eu acho que o isolamento seria ruim para o Brasil. Mas fechar
- ou limitar - o mercado para o capital financeiro não significa
fechar o comércio com o mundo. São coisas bem distintas. Está
aí a China, por exemplo, que não está nem um pouco isolada, muito
pelo contrário: está crescendo.
EC - Que tipo de perigo o Brasil corre hoje se não mudar o
modelo econômico?
PS
-
Estaríamos prolongando esta tragédia social em que vivemos, de
empobrecimento, desemprego e exclusão em grandes proporções. A
tudo isso, se não houver uma reação política, a resposta pode
ser individual e desorganizada. A previsão pode ser de uma guerra
civil maluca sem fins políticos, causada pelo puro desespero de
uma população sem qualquer possibilidade legítima de sobrevivência.
Um pouco disso já pode ser presenciado nas ruas hoje.
EC
- Como ficam, nesse contexto, as posições de economistas como
o senhor, identificados com a esquerda?
PS
- A
esquerda socialista, marxista, ou, como se preferir chamar, deve
e já está fazendo uma autocrítica profunda. A grande conclusão
que alguns chegam em conseqüência deste debate, e eu sou uma dessas
pessoas, é que permanece a reivindicação por uma sociedade livre,
democrática e igualitária. Uma sociedade com maior descentralização
nas decisões, tanto econômicas como políticas.
EC
- O senhor costuma mencionar saídas capitalistas e não-capitalistas
para as eternas crises do Brasil. Como isto se dá?
PS
-
As saídas capitalistas são aquelas compatíveis com os conceitos
de propriedade privada e tudo o mais. É, de certa forma, o que
vinha sendo feito até os anos 80. Por outro lado, poderíamos ter
um governo mais comprometido com os trabalhadores, tendendo a
ultrapassar os limites do capitalismo, mas não necessariamente
rompê-los.
EC
- Em seu livro Globalização e Desemprego o senhor aponta a exclusão
social sob duas óticas, a do individualismo e a do estruturalismo.
O senhor poderia explicar estes conceitos?
PS -
Esta é uma questão fundamental. Para os liberais o desemprego
não é um problema social, é uma opção individual e voluntária.
Para eles, produzir soluções para o desemprego que está acima
do nível considerado de equilíbrio gera inflação. Cria-se uma
situação em que os empregadores pagam os salários e jogam isso
nos preços, criando uma ilusão. No final, o trabalhador, na hora
de comprar o que produz, descobre que está cada vez ganhando menos.
Aoutra visão - do estruturalismo - é de que o problema é social,
e que os trabalhadores aceitariam trabalhar pelo que é pago para
a sua atividade profissional e até por menos. Ou seja, são duas
visões completamente opostas. A pergunta que deveria ser feita
é a seguinte: quanto de capital externo o Brasil precisa para
financiar esse modelo? Mas a resposta não existe, simplesmente
porque para a visão neoliberal não exis-te esta entidade chamada
Brasil. O que existe aqui - na visão deles - são pessoas que moram,
vivem e trabalham desta ou daquela forma gerando ou não um mercado.
EC
- O senhor praticamente anteviu a recente crise de fuga de capitais
que assolou os mercados. Quais os riscos que ainda corremos e
como o senhor analisa a atuação de Armínio Fraga (presidente do
Banco Central) no momento atual?
PS
-
Ele está agindo como um jogador de pôquer, habilidoso, mas que
não muda o jogo em si. A única mudança foi a desvalorização da
moeda, que em tese permite o aumento das exportações. Fora isso,
permanecemos sempre à mercê de uma nova fuga, como já estivemos
em maio último, por motivos desligados da situação brasileira
(dessa vez, o susto veio com uma possível desvalorização do peso
argentino). O capital vai e volta para o Brasil sempre por motivos
misteriosos e inexplicáveis. Embora tenha diminuído a recessão
dos últimos meses, permanecemos na corda bamba.
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