Home Sinpro-RS

 


 

Os fantasmas do preconceito

Uma vila que abrigou mais de 800 pessoas era na verdade um campo de concentração para doentes de lepra, discriminados pelo preconceito de uma sociedade desinformada. Abandonado em função dos avanços da ciência, o leprosário ainda abriga 75 doentes que tiveram sua vida transtornada pela discriminação

Dóris Fialcoff

Hospital Colônia Itapuã, 60 quilômetros ao sul de Porto Alegre, margens da Lagoa dos Patos. É difícil, ao conhecê-lo, não ter a sensação de estar entrando em uma das histórias fantásticas de Gabriel Garcia Márquez, com suas histórias absurdas e distantes da realidade. O antes chamado Hospital de Emergência para Leprosos, que fez história como O Leprosário, foi construído pelo estado no final dos anos 30 nos moldes de uma cidade autônoma, com regras de convívio próprias. As pessoas que adoecessem da praga temida até biblicamente seriam obrigadas a viver lá, trancadas.

Pavilhões de internações, algumas casas geminadas, uma igreja católica, outra luterana, teatro, padaria, escola, cadeia, lavanderia, refeitório, tudo foi feito para dar a idéia de que a prisão era um lugarejo, quando a verdade era inversa: o lugarejo é que era prisão, isolada e segregada do mundo real. A comida e os remédios eram subsidiados pelo estado. Tudo ficaria a cargo dos próprios doentes se não fosse a abnegação de algumas freiras franciscanas da Penitência e Caridade Cristã que, apesar da possibilidade de contágio propagado pelo pânico que acometia a sociedade, ultrapassavam as cercas que isolavam a colônia para ajudar as quase mil pessoas que viviam lá.

Em 1943, quando existiam 859 casos de hanseníase - designação médica para lepra - notificados no Rio Grande do Sul, “eles”, como diz a diretora do Hospital Colônia Itapuã (HCI) Sônia Maria Homem , “eram arrancados dos seus lares. Houve casos de pessoas que vieram no berço”. Como nos anos 50, foram descobertos medicamentos capazes de vencer a invasão corrosiva da doença , o HCI teve direito aos primeiros funcionários. A internação compulsória foi legalmente abolida em 1954 e isso fez diminuir o número de moradores - menos de 350 em 1960. Mesmo assim, a lei não teve capacidade de devolver dignidade às pessoas que foram desumanizadas pela sociedade.

Segundo a direção do HCI, número de habitantes da vila não teve muitas alterações até 1974, quando a Secretaria da Saúde passou a adotar o tratamento ambulatorial como nova estratégia para a redução do número de internos. Liberdade? Não, ironia. A maioria dos doentes depositada foi totalmente esquecida pelas famílias. “O problema, então, passou a ser social”, analisa Sônia. “Muitas dessas pessoas, em função do que passaram, têm transtornos mentais graves e necessitam de cuidados constantes”, diz a diretora do Hospital. Irmã Cleonice, uma das voluntárias, é mais explícita: “Eles eram perseguidos como animais. Tentavam se esconder no mato, mas eram encontrados pela polícia”, lembra.

Uma vez moradoras incondicionais daquele lugar, as pessoas acabavam constituindo família. Quando os filhos nasciam, a tristeza aumentava. Os bebês eram afastados dos pais para não se contaminarem e encaminhadas à instituição Amparo Santa Cruz, também chamada de “preventório”.

Irmã Cleonice conta que as crianças vinham duas vezes por ano para vê-los, mas só de longe. No portal de entrada do leprosário, que exibe em letras já meio apagadas a frase “Não caminhamos sós”, pais ficavam do lado de dentro e filhos do lado de fora. “Eles não podiam se abraçar”, lamenta a religiosa. Cleonice confessa que não sabe o tipo de sentimento que havia entre eles “Eles nunca conviviam. Na verdade, nem se conheciam”, descreve. Irmã Cleonice conta que quando a Ordem solicitou oito voluntárias para trabalhar e morar no hospital - no início sem ter nem a possibilidade de sair de lá - apresentaram-se cem freiras. As únicas pessoas a se aproximar do leprosário tinham a ajuda dos próprios doentes, que também administravam o local. Eram eles que escolhiam as autoridades, assim como o prefeito e o delegado de polícia.

A instituição, que completou 59 anos em maio, hoje ficou restrita à característica de asilo financiada pelo governo estadual. Por enquanto, o hospital que nem mais hospital é continua sendo a casa de 75 hansenianos, que dividem o espaço daquela cidade fantasma de igrejas, cadeia e pavilhão de diversões fechados com 113 pacientes do Hospital São Pedro. Na área existe apenas uma unidade ambulatorial para a comunidade que, segundo a Secretaria Estadual da Saúde, atende cerca de 80 pacientes por dia.

Fale com o Extra Classe