|

Governo
e Congresso articulam o fim da Justiça Trabalhista
Reforma
mais ampla do sistema jurídico do país pretende
vincular poder judiciário ao controle do Executivo. Juízes
e servidores da Justiça reclamam da centralização
e denunciam que o fim do Tribunal Superior Superior do Trabalho
representará um golpe contra conquistas trabalhistas que
já somam muitas décadas de luta sindical
Da Redação
A
Câmara dos Deputados está pronta para votar o fim da Justiça do
Trabalho. Resta apenas saber a data em que os parlamentares decretarão
o fim de um dos instrumentos mais utilizados pelos trabalhadores
para reivindicar seus direitos frente à parte mais forte da cadeia
econômica, os patrões. O que há por trás das inovações planejadas
pelo governo, com o amparo da base governista no parlamento? “O
projeto em curso está atropelando a discussão sobre o fim da Justiça
do Trabalho, que nem sequer estava em pauta para votação”, argumenta
o vice-presidente da Amatra (Associação dos Magistrados do Trabalho),
Paulo Schmidt.
O jurista
diz que o substitutivo do relator Aloysio Nunes Ferreira teve
o seu cronograma alterado em razão da CPI promovida pelo Senado
para investigar supostas irregularidades no Judiciário. Os primeiros
alvos da reforma eram o artigo 7 da Constituição Federal e a Consolidação
das Leis Trabalhistas (CLT). “Somente depois disso se discutiria
a Justiça Trabalhista”, explica. Segundo ele, há muitas injunções
políticas influenciando a reforma. “E isso vai acabar estourando
no trabalhador, no assalariado”, alerta.
Mas a julgar
pelo comportamento dos governistas, capitaneados pelo poderoso
ACM, não haverá discussão nenhuma, sendo praticamente decretado
o fim da Justiça do Trabalho. “É uma reforma de gabinete, encomendada
por quem se aproveitaria das alterações”, denuncia Schmidt, que
ainda questiona: “Que economia representará? Nenhuma, pois não
há razão plausível para preservar a Justiça Militar e extinguir
a Justiça do Trabalho. É que esta última incomoda ao projeto em
curso, enquanto as decisões da primeira não têm reflexo no campo
econômico”.
O magistrado
revela, ainda,que a propaganda oficial justificando a reforma
está embasada em três raciocínios principais: falta de celeridade
e dificuldade de acesso do cidadão à Justiça; necessidade de economia
de recursos públicos; e falta de transparência e controle administrativo,
principalmente nos tribunais, o que se traduz em nepotismo, corrupção
e impunidade. “Mas o que poderia ser uma inovação para proporcionar
facilidade de acesso do cidadão à Justiça é, na verdade, um obstáculo
aos que buscam por ela, pois impõe uma condição para ação a partir
de instância privada de composição de conflitos sabe-se lá em
que parâmetros. Quanto ao juizado especial, recentemente uma comissão
da Câmara aprovou projeto nesse sentido, o que demonstra a falta
de necessidade de reforma constitucional para isso”. Representantes
de sindicatos do judiciário federal em 21 estados reuniram-se
em Brasília no início de junho e aprovaram um indicativo de paralisação
no dia em que a reforma do judiciário for votada. O protesto,
informam as lideranças sindicais, servirá para chamar a atenção
da sociedade para o caráter antidemocrático da reforma e pressionar
os deputados a votarem contra o projeto. Os servidores concluíram
que a reforma não atende a nenhuma reivindicação popular e torna
o judiciário ainda menos democrático; repudiaram a forma como
ela está sendo encaminhada, sem discussão com a sociedade. Os
líderes querem mobilizar a categoria e, para tanto, estão desenvolvendo
uma campanha em defesa da Justiça do Trabalho. “A reforma centraliza
a Justiça no poder Executivo e, por isso,
acaba comprometendo a democracia”, afirma o diretor do Sindicato
do Judiciário Federal, Paulo Leandro Schleder.
Para ele,
um exemplo dessa distorção é a criação do efeito vinculante. Por
esse instrumento, um juiz de primeira instância não pode mais
julgar em desacordo com decisões já tomadas por instâncias superiores.
“Como as esferas mais altas da Justiça sãoem geral indicadas pelo
Executivo, nos preocupa a evidente falta de autonomia que há na
medida”, acrescenta. “A extinção da Justiça do Trabalho significa
o fim do direito do trabalhador”, observa o juiz Grijalbo Fernandes
Tourinho, secretário executivo da Anamatra (Associação Nacional
dos Magistrados da Justiça do Trabalho).Para ele, a manutenção
do TST (Tribunal Superior do Trabalho) é necessária “especialmente
nesse momento”. Ele afirma que um dos problemas desse tribunal,
o mecanismo de nomeação dos ministros pode ser solucionado. “Se
existe problema na nomeação, que se mude o critério”.
|