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Sabotagem

Nei Lisboa*

Nada como a comunicação no mundo globalizado. Nada mais sedutor que a praticidade de um e-mail, ou de pagar uma conta e encomendar um livro em minutos sem sair da frente do micro. Em breve, anunciam, estaremos nos conectando através de isqueiros multimídia, óculos para teleconferência e skates com computador a bordo. Tudo parece indicar um complô tecnológico, uma organização secreta de bondosos cientistas trabalhando a favor do descanso geral, dos meios mais simples diretos de comunicação. Tudo, não. Quase tudo.

O bom e velho ato de telefonar, ao contrário, parece estar sendo sabotado e vai se tornando uma impossibilidade para alguns. Ou, me digam, quem pode ter criado essa charada de códigos das telefônicas brasileiras privatizadas, senão os próprios três pestinhas aqueles do DDD? Talvez o Chico Anísio. Ou o matemático Oswald de Souza. Porque, pobre da vovozinha, míope e desmemoriada, tentando discar (discar, em um telefone de dial) o número dos parentes de Pelotas.

- Zero, cinco, um, cinco, três, dois, dois, sete, quatro, nove, meia, oit… Não, não, é três em vez de oito. Vamos de novo. Zero, cinco, um…

Claro, com o tempo, vá lá, gente se acostuma. Mas com tempo, também, os telefones de Canguçu terão nove dígitos, os de São Paulo terão quatorze e os de Nova Iorque serão uma equação vetorial. Com tempo, no tempo real do admirável milênio novo, você convidará seu amigo astronauta do Tadjiquistão para umas cervejas virtuais em um bar holográfico, onde terminará se apaixonando por uma publicitária da província de Buzinga, na Uganda, cujos códigos de país e de área somam - pode conferir no guia - sete dígitos.

– Preciso te ver outra vez…

– Liga pra mim. É vinte-e-dois- três-cinco-cinco-quatro-nove- sete-meia. Mais os códigos.

– Sei. Aqui do Brasil fica zero-zero- vinte-e-um-dois-cinco-meia-quatro- um-oito-quatro-vinte-e-dois- três-cinco-cinco-quatro-nove- sete-meia.

– Isso. Tem também o do escritório, zero-zero-vinte-e-um-dois-cinco- meia-quatro-um-oito-quatro- vinte-e-dois-três-meia-oito-quatro- um-oito-meia.

– Peraí, peraí. Zero-zero-vinte- e-um-dois-cinco-meia-quatro-um- oito-quatro-vinte-e-dois-três-meia- oito-quatro-um-meia-oito?

– Não. Zero-zero-vinte-e-um-dois- cinco-meia-quatro-um-oito-quatro- vinte-e-dois-três-meia-oi-to- quatro-um-oito-meia. Se ligar a cobrar, usa o código do cartão de crédito que é mais barato. Aí fica noventa-nove-nove-nove-meia-se-te- três-sete-cinco-quatro-vinte-e-um- dois-cinco-meia-quatro-um-oito- quatro-vinte-e-dois-três-meia- oito-quatro-um-oit…

– Olha… A gente se encontra por aí, ok? Pobre da vovozinha.

Di-zem que suspira, com olhar melancólico, sempre que passa por uma agência dos Correios.

* * * * *

Foi a mais curta carreira já vista de um cronista esportivo, a coluna do mês passado com previsões otimistas sobre o Guga e o Internacional. Por sugestão do editor, que mencionou também o crescimento do desemprego, prometo não voltar ao assunto neste século. Mas não pensem que abandonei o mané, para mim um predestinado número um do mundo, ainda que em formação. Quanto ao Inter, bem, às vezes o editor está coberto de razão.

* Nei Lisboa é cantor e compositor

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