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Contato
direto com os cidadãos
Ângelo
Dalcin*
OVivemos
numa sociedade onde a tomada de decisões historicamente ocorre
num grupo de indivíduos muito restrito. Já herdamos da família
patriarcal o comando exercido pelo chefe da família. No sistema
produtivo thaylorista e fordista era possível produzir em série
através de um comando externo, onde os trabalhadores apenas executavam
as tarefas, não sendo necessários aprimoramentos intelectuais
ou tecnológicos para a produção em grande escala deslanchar. Por
meio do sistema educacional, sempre reproduzimos a hierarquia
de quem sabe e quem executa. O professor é o sabe- tudo, e ficamos
sobre um pedestal até bem pouco tempo. Ao aluno restava submeter-se
e na maioria das vezes decorar os conteúdos transmitidos pelo
mestre. Nas comunidades interioranas e mesmo nas regiões urbanizadas
havia os coronéis, os párocos, os professores e os comerciantes
que representavam o pensamento ali dominante. Geralmente eram
machos- machistas, brancos e bem situados que ditavam as normas.
A
representação política, embora tenha abandonado o voto censitário,
continua sendo exercida por alguns “iluminados” do bairro ou da
região. Os políticos liberais encastelam-se no poder e através
do clientelismo buscam a reeleição de quatro em quatro anos. As
obras executadas nas região são sempre atribuídas aos representantes
eleitos, embora com os recursos públicos, portanto, oriundos
de todos os contribuintes.
Quando
alguém, seja através do Orçamento Participativo ou de outras
formas, se atreve a buscar um contato direto com os cidadãos para
definir suas metas de investimentos na região ou cidade, é acusado
de usurpador da legalidade instituída. É verdade que o OP carece
de maior participação, porém é inadmissível imaginar que depois
de séculos de domesticação os excluídos do processo decisório
venham imediatamente a assumir plenamente sua cidadania. Derrubar
esse muro da vergonha de alguns decidir pelos demais é tarefa
de democratas que acreditam na capacidade de todos os seres humanos
se autodeterminarem e tomarem decisões que lhes dizem respeito,de
forma coletiva, e não apenas sofrerem a ação dos políticos, geralmente
viciados na consecução de seus objetivos mediante o domínio de
uma minoria sobre a maioria.
Entre
os vários exemplos de obras executadas por decisão das plenárias
do OP podemos citar o saneamento básico em Porto Alegre. A prefeitura
ficou enterrando canos, obras não-visíveis, durante mais de três
anos (de 1993 a 1996) investindo R$ 9 milhões nessa tarefa. Não
fosse o contato direto com os cidadãos, provavelmente estas obras
não seriam executadas, pois geralmente os políticos preferem
obras que apareçam. O desenvolvimento e aperfeiçoamento do OP
já conseguiu e fará com que cada vez mais certos deputados e vereadores
passem a discutir com suas bases eleitorais durante todos os dias
de seus mandatos e não apenas de quatro em quatro anos, por ocasião
das eleições. Superar esta castradora divisão social entre o
ser pensante e o executor é o pano de fundo do OP. Os conservadores
que se preparem: seus privilégios têm os dias contados.
*
Ângelo Dalcin é professor da Unisinos e diretor
do Sinpro/RS.
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