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Por que "Bundas"

Todo humorista brasileiro já ouviu a pergunta mais de uma vez, de uma forma ou de outra: como é possível fazer humor num país como este, numa hora como esta? Às vezes a pergunta tem o tom de elogio - só vocês mesmo, para nos fazer rir desta situação - e às vezes tem o tom irado de uma cobrança: vocês não se dão conta de onde estão, não? Assim, o humorista tem que escolher entre várias caras para usar: a de um herói do distanciamento que consegue manter a razão e a graça apesar de tudo, a do bobo necessário, a do inconsciente flagrado dando uma gargalhada no velório.

De certa maneira, as três caras servem. O humorista é um herói da resistência, como demonstrou durante o nosso recente regime de generais. Mesmo quando não podia ser abertamente crítico, o humor brasileiro (principalmente o gráfico) manteve viva uma idéia de irreverência que nos ajudou na travessia. Não se podia dizer que o general estava nu, mas se podia fazer “fiu fiu” quando ele passava e fingir que tinha sido o vizinho . Não por acaso, a grande revelação do cartunismo brasileiro desta época foi o Henfil, no “Pasquim”. Ele fazia uma coisa paradoxal, humor fino de criança malcriada, que diz “pum” na frente das visitas. Foi o melhor exemplo do humor como travessura que manteve o regime militar, senão alerta ao seu próprio ridículo, pelo menos desconfiado. Com a abertura e a permissão para dizer tudo, o desafio para o cartunista passou a ser o senso de medida. Mas esta deve ser uma preocupação menor, tanto para o chargista quanto para os seus alvos. Entre o exagero e a omissão, o humorista deve sempre escolher o exagero, mesmo com o risco de magoar. O homem público existe para o chargista como metáfora, como símbolo pronto. E, como o Itamar não demorou em descobrir, quem sai no vento é para se escabelar. Collor não caiu pelo ridículo, caiu pelo caráter, mas é bom lembrar que quando boa parte da imprensa ainda ajudava na construção do mito do messias de jetski, os chargistas já tinham começado a resisti-lo. Talvez seja essa a grande função do humorista numa sociedade como a nossa, tão dada a picaretagens e entusiasmos fáceis: a de detector de empulhações. Quando elas chegam a um certo ponto, eles disparam o alarme. Eles são o alarme.

E são bobos necessários, também, por que não? O humor inconseqüente pode exisitir sem que o humorista seja chamado de “alienado”, se é que alguém ainda use o termo. Principalmente porque num país como o Brasil o humor nunca é completamente apolítico, mesmo que ele tente. A comédia de costumes será sempre um retrato de costumes marcados pela desigualdade e pelo anseio social e até a deliberação de não ser político acaba sendo uma opção política. E, se o humor pode existir apenas para divertir ou atrair pela sua engenhosidade ou inteligência, ninguém deve deixar de fazêlo só para não parecer que está sendo cúmplice de uma desconversa. A única inconseqüência inadmissível num humorista é não provocar o riso.

Finalmente, antes que todos se virem para quem deu a gargalhada no velório e peçam comedimento e respeito, é bom saber que tipo de gargalhada foi. Certas situações são tão dramáticas e tristes que só rindo. Certamente a saúde no Brasil - para não falar de todo o resto, da dependência total no capital aventureiro, no estado de pré-guerra civil do campo, da progressiva doação do país com privatizações financiadas com dinheiro público, etc. - chegou a uma situação que permite apenas dois tipos de comentário: o palavrão ou o riso. As duas reações comportam graduações que vão da mobilização indignada ao desespero terminal, de um lado, e da sutil ironia à gargalhada de cair da cadeira, do outro. A gargalhada não é sinal de desrespeito, insensibilidade, bebedeira ou loucura, é apenas o choro com outra trilha sonora. Rimos e choramos com os mesmos músculos; o riso, no caso, só parece uma forma mais socialmente aproveitável de indignação. O riso provoca, enquanto o choro pede piedade. E, afinal, a gente não pode viver aos soluços.

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