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Minha panela
de pressão
Elisa
Lucinda
O
bairro, os padrinhos, os primos tudo parece ter escapado pela
janela. Não sei o nome da vizinha em frente. Sei que é gorda e
tem três cachorros e ainda um maldito molho de chaves que me atormenta
porque me engana. Balança o molho, chacoalha meu coração e ascende
a luz do corredor. Penso logo que é amor chegando. Tenho andado
tensa. Cansada como se eu tivesse feito uma panelada de feijão
para o mundo inteiro. Fui eu. Fui eu que cortei 250 milhões de
maços de temperinhos verdes; que soquei 300 milhões de cabeças
de alho e piquei cebolas infinitamente, e é por isso que parece
que estou chorando.
Sinto uma
saudade fininha parecendo uma dor, saudade dos dias de minha infância
boa com pés de cana no quintal e nenhuma noção da geografia real
das coisas. Tenho arrependimento de ser mulher, o bicho mulher,
essa doadora universal, aquela que se dá tanto que não consegue
parar de dar, Bicho fêmea, o generoso.
Eu estou é
nervosa. Minha máquina de escrever está me distraindo e me estranhando.
Minha literatura está dura. Parece que estou em guerra. Pareço
a Amazônia queimada, cortada a machados. Dói-me o tronco e eu
tenho medo de virar lápis pau brasil falsificado. Meu fígado,
que é templo do humor, parece agora um churrasco de galinha numa
tarde de quinta feriado num programa de intelectuais naturalistas
em Casimiro de Abreu. De breu é feita essa minha lua cheia sem
vergonha nenhuma na cara. Passo a mão na cabeça cem vezes por
minuto e me orgulho dos meus cabelos. Continuam firmes. Não caem.
Ouço som de
chaves no corredor. Era mentira que o amor chegaria em meia hora.
Há um interfone que não toca dentro do meu útero, e a cada vez
que não, meu coração dá de puir como se fosse velho demais. Estou
é muito chateada comigo. Enjoada de mim. Quero mudar, não quero
mais ser eu dessa maneira. Quero ter dentes grandes lindos e ser
misteriosa. Chega de feijão, minha panela; depressão.
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