Transformações
Tamanho Família
As
constantes transformações econômicas, culturais
e sociais que resultaram, através dos tempos, em profundas
modificações na estrutura familiar fizeram com
que sempre, em algum momento da história, se pensasse
a família. A primeira vez em que foi utilizado, por volta
de 1337, o termo, derivado do latim famulus, serviu para designar,
na Roma Antiga, escravos que viviam sob o mesmo teto. Séculos
depois, Engels afirmava que a propriedade privada convertia
o homem em proprietário da mulher. Claude Levy Strauss
definiu a família como um grupo social com origem
no casamento, constituído pelo marido, esposa e filhos.
Já Simone de Beauvoir vislumbrava o matrimônio
baseado na liberdade, com a emancipação da mulher,
sem que essa tivesse o casamento como única carreira
e a justificação exclusiva de sua existência.
Ana Esteves e Fabiana Mendonça
oje,
como nunca, o interesse em abordar as várias nuances
relativas à família se multiplica. A partir de
2004 estará funcionando, em Caxias do Sul, a primeira
Universidade da Família (Unifam), enquanto outra universidade,
a Católica de Salvador (UCSal), criou um curso de mestrado
específico sobre o tema. As pesquisas também se
avolumam: em Porto Alegre, uma psicóloga se dedica à
compreensão dos novos arranjos familiares, ao mesmo tempo
que uma psicanalista paulista avalia de que forma fenômenos
sociais, como o desemprego, interferem nas relações
familiares. As leis referentes à família também
têm sido questionadas, principalmente no que se refere
às uniões homossexuais. As próprias famílias
têm repensado suas relações e comparecem
cada vez mais aos terapeutas.
O sociólogo e diretor do Pontifício Instituto
João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família,
João Carlos Petrini, diz que as mudanças ocorrem
em toda a sociedade e refletem diretamente na família.
O Brasil dos últimos 40 anos passou de um modelo
agrícola para industrial, do meio rural para o urbano.
Houve interferência religiosa, com o crescimento de seitas,
que interferiram no cotidiano das famílias, argumenta.
A família rural tradicional, que chegava na cidade grande,
sofria, segundo ele, os efeitos dos meios de comunicação,
da escola. Era outra realidade. O comportamento entrava
em flutuação, afirma.
Para ele, a emancipação da mulher e o diálogo
cada vez mais recorrente entre pais e filhos também fazem
parte das mudanças. Hoje não tem mais a
imagem do homem que bate o punho na mesa e toma todas as decisões.
A elevação do grau de igualdade entre homens e
mulheres também colaborou. Se verifica maior respeito
pelos filhos.
O sociólogo Marco Antônio Fetter, idealizador da
Universidade da Família, acredita que a necessidade de
pensar a instituição surge em função
de um momento de crise. Se fala que a família está
passando por uma crise, mas quem está em crise é
o homem. Segundo ele, os pais não estão
sabendo desempenhar suas funções. Talvez
seja emoção demais e razão de menos. Parece
que nós não estamos sendo aptos para termos projetos
conjuntos de vida. Na década de 70, se ouvia na França
uma história, que hoje se repete: eu e tu, mas você
sozinho; tu e eu, mas eu sozinho; nós dois juntos, mas
cada um por si, relembra Fetter.
João Carlos Petrini acredita que o individualismo de
deve a mudanças culturais, como a exaltação
da liberdade individual em detrimento do comunitário.
A mentalidade se tornou dominante com o welfare state
(estado de bem-estar social), que elegia o indivíduo
como portador de direitos e centro das políticas sociais,
e não mais sujeitos coletivos.
Segundo
ele, isso é resultado do sistema econômico que
conduz à colonização do mercado. O
mercado coloniza nossos valores, e nossos modelos de comportamento
são regidos por ele. Hoje se fala: investi tanto na relação,
ou investi nos filhos. Quanto maior o mercado, menor a gratuidade
das relações. É muito difícil se
pensar em sacrifícios pessoais para o bem do outro, mesmo
dentro das famílias, avalia.
Mas, segundo o professor de Teologia Moral e Comunicação
da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana
(Estef), Frei Hildo Conte, o panorama não é tão
negativo assim. Pela primeira vez na história,
a civilização criou uma consciência que
permite o amor de fato. A mulher se tomou nas mãos e
deixou de ser propriedade do homem. Antes predominavam os chefes
de família, estabelecendo uma relação de
poder, não de amor.
Essa matéria
continua:
- Sociólogo
cria a Universidade da Família
- Uma caixa de ressonâncias
- Homoafetivos buscam
seus direitos
- A tradição
- A diferença