Brasil: cúmplice de um genocídio

O brasileiro Eric Nepumoceno preferiu uma dose a mais de ficção. Lembrou de um tio-bisavô, que foi barão durante a Guerra do Paraguai, e criou o personagem Barão de Ramalho, suposto descendente de um dos conjurados do Quilombo do Gran Chaco. O livro, lançado ano passado nos países de língua espanhola, foi o mais vendido no Paraguai e provocou discussões na Argentina, Uruguai e Espanha. Tanto que Nepumoceno chega a comparar a rotina dos escritores nos debates e lançamentos como a de “estrelas do rock”.

Segundo o escritor brasileiro, são quatro visões pessoais, que têm pontos muito próximos, apesar de terem trabalhado de forma completamente individual, mas mantendo uma unidade permitida pela literatura. “Acho que a literatura pode ajudar a que se veja a história sob outros prismas, partindo de outros ângulos, especialmente no caso da América Latina, onde a realidade é muito mais imaginativa, inusitada e surpreendente que a mais fértil das imaginações. Buscar outras formas de entendê-la, através da recriação artística, sempre será uma contribuição”. Nepumoceno diz que se refere não apenas à literatura de ficção, mas à música, à poesia, ao cinema, ao teatro, às artes visuais. “O que atrapalha na hora de ver a história são as manipulações intencionais, as sabotagens de informação. No caso do nosso livro, nada disso ocorreu: está claro, desde o início, que é uma obra de ficção cujo ponto de partida é a simples menção de um fato que ninguém sabe ao certo se ocorreu ou não, dentro da Guerra do Paraguai”, fala. A partir daí, cada um traçou seu próprio vôo.

Divulgação
Nepomuceno optou pelo caminho da ficção

No texto de Eric, há um dado curioso: a questão do surgimento do foto-jornalismo no Brasil durante a guerra. Houve quem o cumprimentasse pela sua imaginação, ao inventar um dado de aparente verossimilhança que arredonda o texto. Mas ele jura que não inventou nada: é a mais pura verdade. “Caxias foi, sim, um colecionador de fotos, além de todo o resto... Há personagens reais que servem de trampolim para que personagens fictícios saltem ao texto, e mergulhem entre verdade e mentira... Assim, acho que, mesmo sem querer, aos poucos, o trabalho do escritor contribui para que melhor se entenda o trabalho (ou as falhas) do historiador. Bem disse meu parceiro de livro, Alejandro Maciel: a literatura é uma mentira que ajuda a ver e compreender a realidade”.

Sobre o quilombo a que o livro se refere, Nepumoceno diz não existir a menor prova nem mesmo um único indício consistente de que tenha existido. Portanto, segundo ele, é impossível dizer também quais as razões de seu fracasso. “A única menção existente é do historiador britânico e espião de Sua Majestade, sir Richard Burton, que numa correspondência se refere, de passagem, a um grande acampamento reunindo oficiais e soldados das quatro nações envolvidas no conflito”. Mas Nepumoceno chama atenção para um fato lingüístico importante. No Brasil, o termo ‘‘quilombo’’ se refere às comunidades, verdadeiros Estados com leis próprias, formadas por escravos fugitivos. “Na Argentina, ‘quilombo’ é bordel. Como a referência de sir Richard Burton não mencionava a existência de um local onde raparigas extremamente liberais oferecessem serviços corporais a troco de benefícios monetários, podemos deduzir que fosse mesmo um ‘quilombo’ de homens libertos”.

Oficialmente, o Brasil foi um dos vencedores da guerra, ao lado de Uruguai e Argentina, e portanto teria desempenhado o bom papel. Só que as relações entre o que é oficial e o que é a realidade costumam ser péssimas e distantes, conforme Nepumoceno. Para ele, na verdade, o papel do Brasil pode ser resumido em poucas palavras: foi cúmplice de um genocídio. Ali, afirma, começava a esboçar-se de maneira renovada a velha disputa entre o país e seus vizinhos da Bacia do Prata, uma espécie de divisão territorial do que seria, décadas depois, a existência de dois subimperialismos. “Mandamos para uma carnificina tropas mal-ajambradas, freqüentemente formadas por ‘voluntários’ caçados a laço pelo país afora, comandados por militares prepotentes e freqüentemente corrompidos. E, em última instância, predominou ali o velho vício das elites brasileiras, que é o de servir aos interesses de fora para poder servir-se internamente de tudo que é de seu interesse. A guerra poderia ter sido evitada ou, na pior das hipóteses, abreviada. Houve excesso de tudo, mas principalmente de sangue, de selvageria, de corrupção e de mentira”.

Do ponto de vista de Eric, os fatores que fizeram o Brasil entrar na guerra foram interesses internos aliados a interesses externos, concretamente o comércio com Argentina e Uruguai por um lado, e com o Império britânico por outro; interesses internos em disputa, mais especificamente na Corte de D. Pedro II, “um imperador esclarecido e até certo ponto bastante progressista para a época, mas fraco de poder e confuso na hora de decidir (vivia, à sua maneira, em cima do muro da época); interesses internos que indicavam que não se deveria deixar a iniciativa de uma ação daquele porte nas mãos apenas da Argentina; e, finalmente, ignorância”.


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