O mito
do Quilombo del Gran Chaco
A
intenção dos relatos é estética.
Por isso, o instrumento usado não é a pesquisa,
pura e simples, mas a ficção. Resulta disso um
livro que, segundo Roa Bastos, não é um relato
de guerra, mas um livro sobre a paz. E houve paz no meio da
guerra. Um lugar quase mítico, um hiato entre a violência:
um quilombo em pleno palco das batalhas. Esse é o mote
do livro, que nos países de língua espanhola foi
publicado com o nome de Los Conjurados del Quilombo del
Gran Chaco. A editora brasileira optou por um título
mais direto, mas que acabou tirando um pouco da mira o alvo
que os autores pretendiam: falar dos conjurados.
A ficção talvez comece antes do livro, numa frágil
evidência histórica apontada por um conjunto de
cartas do inglês sir Richard Francis Burton, cônsul
itinerante do Império Britânico, no Paraguai. Ele
as teria escrito em suas andanças pela guerra
grande em meados do século XIX. Espécie de enviado
especial para a cobertura de guerra, os textos de Burton seriam,
segundo se conta, destinados à rainha da Inglaterra -
publicações dos relatos circulam, principalmente
entre quem fala espanhol.
Pois em
uma dessas cartas, Burton narra a existência de um esconderijo
em que brasileiros, argentinos, paraguaios e uruguaios viviam
em harmonia, em plena guerra. Era o auge das batalhas, enquanto
aquele grupo esquecia as eventuais diferenças e se unia
numa comunidade. Os conjurados do quilombo del Gran Chaco eram
soldados, civis e oficiais que desertaram tanto do exército
paraguaio de Solano López, quanto das forças de
Brasil, Argentina e Uruguai.
Roa Bastos, que já conhecia os relatos, foi surpreendido
pelo interesse de um outro escritor, durante uma viagem de avião,
da Espanha para o Paraguai. O argentino Alejandro Maciel, seu
discípulo que vive em Assunción, comentou com
o mestre que havia lido os relatos. Veio a idéia: escrever
sobre aquele tempo de paz, remontando uma espécie de
quilombo entre quatro amigos das quatro diferentes nacionalidades,
cujos governos se enfiaram numa guerra que, há 130 anos
dizimou com 76% da população paraguaia e 96% dos
homens do país. Roa Bastos, autor nascido em 1917, que
passou boa parte de sua vida exilado do Paraguai, foi o primeiro
a escrever. Passou para Maciel, que produziu a sua parte e a
enviou para Prego Gadea. O uruguaio terminou sua história
e a remeteu a Nepomuceno. Mesmo paraguaio, Roa Bastos preferiu
escrever sobre a frente argentina. Ao argentino Maciel coube
o relato ficcional do quilombo paraguaio.
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