"Paraguai
era um exemplo de desenvolvimento autônomo"
Para Alejandro Maciel, a participação argentina
na guerra não poderia ter sido mais desastrosa. O presidente
Mitre (que era ilustrado, traduziu a Divina Comédia para
o espanhol) fez o jogo dos interesses europeus que disputavam
o comércio do Rio da Prata. O Paraguai era o exemplo
do desenvolvimento autônomo no Cone Sul e tinha que ser
destruído antes que as demais nações abrissem
os olhos. Argentina ou Mitre foram a espada sem cabeça¸
que a Grã-Bretanha esgrimou para acabar com o inimigo
do meio. O marechal Lopez, do Paraguai, também entrou
no jogo, talvez sem querer, crendo defender um ideal.
A Argentina entra na guerra quando as tropas do Paraguai
cruzam o território argentino para ir ao Uruguai, que
havia sido invadido pelo Brasil. Uruguai e Paraguai tinham firmado
um acordo de mútua defesa em caso de invasão estrangeira.
Justamente seu país, a Argentina, nada tinha que fazer
nesta confusão, já que seus próprios problemas
internos estavam na ordem do dia. Mais ou menos como agora,
que já nem sabemos quem governa a Argentina, fala.
Para Maciel, há distintos modos de se acercar a uma verdade
que está além do alcance total da realidade. A
história documental tem o risco do erro de
interpretar unicamente dados oficiais, movimentos de tropas,
decisões políticas de uma minoria governante,
mas o conjunto fica fora de seu interesse geral. Por seu lado,
a literatura tem outra forma de recriar a realidade, muito
mais participante para o leitor que deve rearmar
ou recompor um quebra-cabeças com as peças soltas
que um relato oferece, menos atento aos dados estatísticos
que ao sofrimento de criaturas ou personagens em toda sua grandeza
e sua miséria, em toda a dimensão de sua humanidade,
em todo caso.
Maciel é argentino, vive no Paraguai e seu próximo
livro trata de um episódio da história no Brasil.
Um estranho caso de quem, sozinho, tenta dar alguma concretude
ao Mercosul. Estou apaixonadamente trabalhando nessa ficção
que se chamará La casa de la memória e
é uma espécie de memorial mital histórico
e metade fraudulento da viagem que fez, em 1807, o rei João
VI de Portugal, fugindo da invasão napoleônica,
para vir fundar um reino ultramarino com sua mãe louca
(a rainha Maria I) a bordo, crendo-se a reencarnação
de Inês de Castro, descreve. Na história,
João VI discute os princípios da Ilustração
e a Revolução Francesa com os grotescos personagens
de sua Corte. Imagine tudo o que trabalhei para conseguir
dados da história de Portugal que aqui são escassos.
Para dar conta, conseguiu que um catedrático de história
da Academia de Lisboa enviasse a ele material que o permitiu
dar um fim à história fantástica da Casa
de Bragança cruzando o mar para vir fundar um reino (o
primeiro na América) no Brasil. A história
de vocês parece um conto de fadas entremeado por pesadelos.
Mas é fascinante. A partir daquele episódio, as
visões de espanhóis e lusitanos se distanciam.
Os espanhóis nunca pensaram nos latino-americanos
senão como colônias. Os portugueses se instalam
no território e essa vocação de ser sede
atrasará a independência, mas acelerará
o Império. São duas políticas totalmente
distintas que começam com essa viagem de João
VI. Para ele, a partir daquele momento, nunca a história
de ambos os lugares seria a mesma.
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