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Para entender
a truculência
José Luis Fiori *
riso
rolou solto nos salões, corredores e gabinetes do poder
mundial, quando o presidente George W. Bush anunciou ao povo norte-americano
durante o bombardeio do Afeganistão que havia
se engasgado e caído da cama, porque desobedecera a sua
mãe, engolindo uma bolacha sem mastigar. Mas este foi o
único momento divertido destes últimos sete meses
em que a incerteza e o medo tomaram conta das relações
internacionais, acompanhando uma mudança radical do posicionamento
norte-americano, dentro do Sistema Mundial. Os primeiros sinais
da mudança, vieram logo depois da posse de Bush, em janeiro
de 2001, mas não há dúvida que os atentados
do 11 de setembro aceleraram as decisões responsáveis
pelo desenho da nova política externa americana que já
extrapolou o campo estrito do combate ao terrorismo. Nesse sentido,
não há dúvida que o 11 de setembro já
se transformou num desses terremotos históricos que clarificam
e precipitam acontecimentos e decisões, provocando uma
ruptura de tal ordem que, hoje, a era Clinton já
parece um passado longínquo, uma verdadeira época
de ilusionismo coletivo, embalada pela utopia da globalização
e da paz universal dos mercados. É por isto que a Sra.
Condoleezza Rice, assessora especial para assuntos de segurança
da presidência norte-americana fala num momento
transformativo, quando se refere a estes últimos
sete meses, e afirma que os Estados Unidos e o mundo estão
vivendo uma época análoga à de 1945-1947,
entre o ataque nuclear americano ao Japão e o início
da Guerra Fria.
Para
onde estarão apontando estas mudanças, a longo prazo?
Qual o seu significado e a sua lógica expansiva? E como
entender a aparente perplexidade e paralisia dos demais governantes
do mundo frente à truculência americana na Ásia
Central e no Oriente Médio?
Henry Kissinger sugere uma resposta, no seu livro Diplomacia,
ao sustentar a tese de que o establishment norte-americano sempre
esteve dividido e oscilando, desde o final do século XIX,
entre duas grandes concepções sobre o que deveria
ser a política externa dos Estados Unidos. A primeira
inaugurada pelo presidente Theodore Roosevelt ( 1901-1908)
partidária de uma presença ativa dentro do jogo
político mundial, orientada pelo interesse de estado americano
e pela concepção européia do equilíbrio
de poder. E a segunda fortemente identificada com o presidente
Woodrow Wilson ( 1913-1921) partidária de uma liderança
global dos Estados Unidos, mas baseada na superioridade das virtudes
e na defesa dos valores fundamentais da sociedade e do sistema
político americano. A primeira, mais conservadora sempre
viu os Estados Unidos colocado na posição de farol
do mundo, e por isso, na prática, tendeu ao isolacionismo.
A segunda, entretanto, apesar de liberal, acabou patrocinando
várias intervenções salvacionistas, através
do mundo. Segundo Kissinger, essas duas posições
se alternaram no poder, durante o século XX, na forma de
um movimento pendular, que ora deu a vitória ao realismo
de Nixon, Reagan e Bush, ora ao idealismo de Kennedy,
Carter e Clinton. O que o modelo de Kissinger não consegue
explicar, entretanto, é a própria variação
no movimento pendular ou a passagem de um para o outro tipo de
política externa. Além disso, se a sua descrição
cabe como uma luva na política democrata dos anos 90, o
mesmo não se pode dizer com relação à
nova política republicana, depois do 11 de setembro de
2001. Ninguém duvida de que a era Clinton foi
rigorosamente idealista e messiânica, na sua defesa universal
do liberalismo econômico e político; dos mercados
e da democracia; dos direitos humanos e das intervenções
humanitárias; dos regimes e dos sistemas colegiados
de governança global. E foi rigorosamente liberal na sua
aposta, depois do fim da Guerra Fria, na utopia da globalização
e num sistema mundial de segurança coletiva, sob hegemonia
americana. E não há duvida que logo depois da sua
posse, em janeiro de 2001, os primeiros passos externos da Administração
Bush pareciam apontar para um novo período de isolacionismo
arrogante e exemplar. Depois do 11 de setembro, entretanto, a
Doutrina Bush de combate ao terrorismo transformou o interesse
nacional americano no princípio legitimador de um
novo tipo de intervencionismo político-militar, que se
propõe ser permanente, preventivo e global.
Já não teria sido assim durante o período
Reagan? Não, seguramente não, apesar de que Ronald
Reagan também tenha defendido o combate messiânico
ao império do mal. Mas naquele caso tratava-se
de um inimigo perfeitamente identificável, e que seguia
sendo o mesmo desde 1947: o comunismo em geral, e a União
Soviética em particular. O que Reagan se propôs e
fez de maneira vitoriosa, na década de 1980, foi trocar
uma estratégia defensiva e reativa de contenção,
por uma escalada aos extremos, visando à destruição
definitiva do inimigo, como preconizava a teoria da guerra de
Von Clausewitz. Junto com Reagan, Bush também propõe
uma bipolarização do mundo entre o bem e o mal,
mas sua guerra é contra um inimigo invisível e que
não se identifica com nenhum estado em particular. Apesar
disso, ela também se propõe levar aos extremos o
enfrentamento supondo que o inimigo invisível e universal
possa ser destruído, como no caso das guerras absolutas.
Este paradoxo é que explica o fato de que estejamos frente
a uma guerra que não pode ter fim e que será cada
vez mais extensa: basta ver que no início se tratava de
destruir a rede do Al-Qaeda e o regime Talibã do Afeganistão,
mas hoje as tropas americanas já estão presentes
em nome da mesma guerra na Argélia, Somália,
Yêmen, Afeganistão, Filipinas, Indonésia e
Colômbia. A própria definição do inimigo
já foi modificada três vezes nos últimos meses:
primeiro foram as redes terroristas; depois, o eixo
do mal, constituído pelo Iraque, Irã e Coréia
do Norte; e agora, os estados produtores de armas de destruição
de massa, categoria que inclui - neste momento quase
todos os aliados americanos na guerra do Afeganistão. Na
nova doutrina, o adversário não é uma religião,
ideologia, nacionalidade, civilização ou um estado,
e pode ser redefinido a cada momento, sendo portanto infinitamente
elástico. Por trás desta elasticidade, entretanto,
ao que se está assistindo é um deslizamento do objetivo
central da Doutrina na direção de uma estratégia
de contenção universal, como já
vem sendo preconizada desde 1989, pelos mesmos homens que hoje
dirigem o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
Logo após a queda do muro de Berlim, o atual vice-presidente
dos Estados Unidos, Dick Cheney, então secretário
de defesa do primeiro Bush, criou uma força-tarefa para
pensar a nova posição dos Estados Unidos no mundo,
depois do fim Guerra Fria. Incluía Paul Wolfowitz e vários
outros membros do atual governo, como Lewis Libby, Eric Edelman
e Donald Rumsfeld o atual secretário de defesa,
associado a Cheney há mais de trinta anos além
de Colin Powell, o mais moderado entre eles, desde aquela época.
Foi com base no relatório desse grupo de trabalho que o
presidente Bush o pai formulou seu discurso sobre
a nova política externa americana, no dia 2 de agosto de
1990, o mesmo dia da invasão do Kuwait, pelo Iraque. Por
isso, naquele momento, sua proposta ficou num segundo plano e,
mais tarde, foi engavetada pela surpreendente vitória eleitoral
dos democratas de Bill Clinton. Depois do 11 de setembro, entretanto,
ela foi desengavetada pela mesma equipe que a havia formulado
dez anos antes. E é ali que se esconde o verdadeiro segredo
da nova estratégia e de sua lógica expansiva e truculenta.
Basta prestar atenção no seu objetivo central que
está definido desde então: impedir o aparecimento,
em qualquer ponto do mundo, e por um tempo indefinido, de qualquer
outra nação ou aliança de nações
que possa se transformar numa grande potência, capaz de
rivalizar com os Estados Unidos. Como se vê, também
se trata de uma estratégia de contenção,
como a que foi proposta por George Kennan com relação
à União Soviética e adotada pelos
Estados Unidos, depois de 1947. Agora, contudo, o que os republicanos
estão propondo não é mais a contenção
de uma ideologia ou de um estado nacional em particular, é
o bloqueio ou destruição preventiva de qualquer
tipo de poder que se proponha competir globalmente com os Estados
Unidos. É isto que explica o fato de que a Doutrina Bush
tenha ido deslocando seu foco na direção de um inimigo
que, ao fim e ao cabo, pode ser qualquer estado - mesmo que seja
um aliado - que demonstre intenções expansivas.
E aqui de novo, como no caso dos terroristas, quem determina a
existência ou não de alguma vontade competidora
a ser contida ou destruída, são os próprios
Estados Unidos. É por isto que eles não assinaram
o Tratado de Não-Proliferação de Armamento
Nuclear, abandonaram o Tratado Antimísseis
Balísticos, e decidiram construir um Escudo
Antimísseis. Em todos os casos, foram decisões
destinadas a enviar uma mensagem muito clara ao sistema político
mundial. A de que estão dispostos e vão manter uma
dianteira tecnológica e militar inquestionável com
relação a todos os demais estados do sistema. Uma
distância que dará aos Estados Unidos, por um tempo
indeterminado, o poder de arbitrar isoladamente a hora e o lugar
em que seus adversários reais, potenciais ou imaginários
devam ser contidos, através da mudança
de regimes e governos ou através da ação
militar direta. Como é óbvio, nesse contexto, soberania
e democracia são dois valores que ficam em suspenso por
um tempo indeterminado, mas ao mesmo tempo, várias ações
e situações através do mundo, que parecem
a primeira vista uma mera truculência, de repente adquirem
lógica, e passam a ser racionais, lamentavelmente.
*Cientista
Político
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