Um tamborim de família

Elisa Lucinda

Elisa, o que é?
Respondi perguntando a entrevistadora: você conhece coisa mais chique do que um tamborim?
Ela concordava desconcertada por essa aparente inversão usual do conceito de chique. Mas é a partir desse, que amo, penso e vejo o Leblon.

Desde 1989 até agora só me exilei daqui por três (infinitos) anos. E chega! O Leblon é bairro, preserva sua lira de bairro e é chique: tem vizinho, tem lua visível, tem bom dia, o Maciel e o Zé do Flor do Leblon, no qual tanto escrevo e onde tem João Ubaldo ao vivo bebendo guaraná todo sábado a partir das onze, o Paiva alegre do Jobi, o Jorge da papelaria onde temos conta, o Marcelo da farmácia onde se troca cheque, o seu Zé do primeiro salão de beleza do bairro cujas promoções ele ainda escreve em cartolina, o sapateiro, o caldo de cana do qual sou dependente, a padaria Rio-Lisboa, o Zona Sul aberto a noite inteira e o mar abraçando tudo. É bucólico, o danado! Gosto de andar nele de bicicleta, sentir suas tardes caindo belas em mim, ver a chuva chegando por trás dos montes, deitar na rede na varanda e curtir o sol a ler comigo os jornais pelas manhãs.

Tem um pé de Ficus que mora na calçada do outro lado da rua e tem a gentileza de atravessá-la pelo céu e vir beijar minha janela; a árvore, já que centenária, cutuca-me deferências nesse gesto, me autoriza Leblon, me dá dinastia retroativa, me oferece seus bondes antepassados e eu a atualizo por corresponder sem pudor ao seu cotidiano beijo. As pessoas podem ser elegantes e simples; muitas delas ricas e coisa e tal, mas não exibem aquela máscara postural insuportável, decadente; aquela caricatura besta e antipática que mancha a vida dos lugares e dá má fama a eles. Não, aqui não. Cruza-se o Leblon a pé, pode-se ser humano nele. É um poema pequeno e belo, uma jóia. Tem livraria com café dentro, que se chama Severino e confirma a anti-bestice da qual lhes digo. Outro dia, me deu uma alegria grande ao chupar uma manga apetitosa que comprei aqui na nossa linda feira e não agüentei esperar até chegar a casa. Laricamente, fui sorvendo aquele tesão de fruta, deixando que escorresse seu suco pelos cotovelos: eu ali na minha quadra, no meu direito, só gastando aquele IPTU. O Mauro Rasi tem razão: "é preciso merecer o Leblon". Rima, sabe? Combina. E tem mais, como moram muitos artistas por metro quadrado, é natural que pensem que há aqui muitos doidões, libertos, vanguardistas, revolucionários, contemporâneos, etc...
É verdade, mas o Leblon é fundamentalmente um bairro de família. Digo isso porque eu, no subúrbio lá em Vitória do Espírito Santo só saía com meus irmãos. Pois aqui, acreditem, ninguém caminha sozinho; nem meu filho que é filho único. Ele tem sempre em sua companhia, ao fundo ou ao lado algum parente por perto. Tem, quando nada, no mínimo Dois Irmãos.

elisalucinda@radnet.com.br

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