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Valeu, Roberto
Nei
Lisboa
Vida
de artista é fogo. Estou chegando de Pelotas, ótimo
show no belo Sete de Abril, de lotação esgotada.
Mas ao sair do hotel para o teatro, ontem à tarde, um pé
já fora da porta, deparei com dezenas de pré-adolescentes
avançando aos gritos em minha direção, declarando
que eu era lindo e gostoso e com ares de que iriam me despir ali
mesmo na calçada. Foi o que me pareceu, até que
resolvi olhar pra trás e aí, bom, aí descobri
que a Globo está gravando uma minissérie na cidade.
Porque o motivo da tal histeria era um desses atores novinhos
em folha da emissora, que vi saindo do elevador para o saguão.
Foi, aliás, a última coisa que vi. Atropelado pela
horda borbulhante de ninfentas, só voltei a mim quando
uma senhora, presumivelmente a zelosa mãe da última
a me pisotear, apresentou-me a chave do seu carro para que eu
o manobrasse até a garagem do hotel.
Não dou a mínima atenção à
televisão, sou um ouvinte eventual do rádio e um
leitor voraz de qualquer coisa impressa que me caia nas mãos,
de jornais e revistas a cardápios de telepizza. Por isso
sempre renovo a surpresa com o poder que essa mídia alcançou
no Brasil, desde há muito tempo. Toneladas de matérias
escritas sobre qualquer assunto não repercutem mais do
que trinta segundos de aparição no horário
nobre da TV. Personagens das novelas e seriados fazem parte da
vida de telecidadãos tanto quanto seus familiares e vizinhos,
e duvide-se de quais seriam menos reais ou imaginários.
Quem, como eu, não assistiu um único capítulo
de Esperança, pode então perdê-la de vez,
se pensa que vai conseguir se integrar aos assuntos do dia-a-dia
da população.
É claro que nem tudo é filtrado ali, o mundo é
bem maior do que o espaço que o plim-plim pode nos oferecer
entre comerciais. Seria inocência crer que tudo em nossas
vidas possa ser manipulado em ilhas de edição, por
gente do mal, com chifrinhos e rabos pontudos. A televisão,
no mais das vezes, apenas reflete e representa desejos alimentados
pela população em suas vidas de carne e osso. Mas,
se não pode enganar a todos o tempo todo, o alcance dessa
representação permite que se manipule a opinião
pública em instâncias pontuais com certa facilidade.
Uma pequena distorção ou meia-verdade pode produzir
danos irreversíveis antes que a realidade dos fatos venha
à tona.
Por isso quero aqui fazer um agradecimento cordial, mesmo ciente
de que ele jamais irá recebê-lo, já que essa
coluna não é retransmitida em cadeia televisiva:
obrigado, Roberto Marinho. Obrigado por manter-se razoavelmente
eqüidistante nessas eleições, que é
o que me dizem que aconteceu, e o que posso também intuir
pela estupenda votação que o Lula há de receber
escrevo antes do último debate, mas duvido que algum
fato novo invalide esse agradecimento. Obrigado por não
ceder à tentação que deve ter sentido de
levar ao ar uma história qualquer sobre um operário
comunista despreparado, instigado por sanguinários invasores
de terra que conduziriam o país à ruína.
Obrigado, inclusive, pela Esperança, que esta já
está eleita. Agora, mal posso esperar pela próxima
novela.
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