BLOWBLACK
Blowback é um termo que foi inventado pelos oficiais
da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos,
para referir-se às conseqüências indesejadas
ou não-buscadas das políticas e ações
militares norte-americanas, através do mundo.
Chalmers
Johnson, Blowback, 2001, pg 8
José
Luis Fiori *
m
dos problemas mais difíceis da Guerra é prever
e controlar suas conseqüências inesperadas. É
isto que faz uma boa parte do establishment norte-americano
e dos governantes do mundo titubearem frente à hipótese
de uma 2º Guerra do Iraque. Sabem que ela terá conseqüências
incontroláveis, no Golfo Pérsico, no Oriente Médio,
no mundo árabe e islâmico e na Ásia Central.
Uma cadeia de efeitos que irá muito além da região
e deverá atingir o próprio coração
do sistema, afetando as relações entre as Grandes
Potências. A 1º Guerra do Iraque, em 1991, foi feita
em nome da soberania nacional do Kuwait, por uma aliança
de 27 países; e as intervenções humanitárias
da década de 1990, na Somália, Bósnia e
Kosovo, foram feitas em nome de valores universais
e de um sistema de segurança global, apoiado pelas Nações
Unidas. A nova guerra tem uma natureza completamente diferente:
é unilateral, preventiva e se propõe mudar um
governo nacional. Se for feita, significará uma revolução
no campo internacional, com o reconhecimento do direito anglo-saxônico
ao imperium, e a aceitação pelos demais países
de que os impérios não operam dentro de
um sistema internacional, se propondo ser o próprio sistema
internacional, como diz Henry Kissinger. O mais provável,
entretanto, é que a comunidade internacional não
aceite esta proposta e, nesse caso, a iniciativa anglo-saxônica
pode produzir um efeito não-buscado absolutamente
paradoxal, ou seja, o renascimento e a vitória de um
velho pesadelo geopolítico dos ingleses e norte-americanos.
Em 1904, o pai da geopolítica inglesa, Sir Halford Mackinder,
formulou, de maneira sintética e contundente, o princípio
organizador de toda a política externa inglesa, no século
XIX, e da doutrina estratégica norte-americana, no século
XX: Quem controla a Europa oriental controla a terra central,
quem controla a terra central domina a ilha mundial ( a Eurásia)
e quem domina a ilha mundial dominará o mundo,
concluindo que um império mundial estará
em vias de se concretizar, no dia em que a Alemanha se alie
à Rússia, de forma duradoura. Essa foi a
obsessão do almirante Alfred Mahan, chamado pelos norte-americanos
de Clausewitz do mar, que se propôs elaborar
uma estratégia global para os Estados Unidos, já
na segunda metade do século XIX: Jamais permitir
que o coração do mundo, a Europa, seja dominada
por uma das grandes potências do Continente. Tese
que foi reafirmada por Nicholas Spykman, ao defender - antes
do fim da II Guerra Mundial - que o mais importante para os
Estados Unidos era impedir a unificação
do espaço euro-asiático, sob uma só autoridade,
independente de ideologias, regimes políticos ou sistemas
econômicos. Muitas décadas mais tarde, depois do
fim da Guerra Fria, Henry Kissinger voltaria a bater na mesma
tecla: A dominação por um simples poder,
de uma das duas principais esferas da Eurásia
Europa e Ásia , permanece uma boa definição
do principal perigo estratégico para a América,
com ou sem Guerra Fria. Trata-se de uma ampla coincidência
em torno a um objetivo fundamental: impedir qualquer tipo de
hegemonia ou de aliança estratégica, entre a Alemanha
e a Rússia, dentro do espaço europeu, e entre
a Rússia e a China, dentro do espaço asiático.
Esse foi o objetivo que levou a Inglaterra a enfrentar e derrotar
a França de Bonaparte, e manter-se eqüidistante
dos países da Santa Aliança, depois do Congresso
de Viena, em 1815. O mesmo objetivo que levou Inglaterra, França
e Estados Unidos às duas Guerras Mundiais contra Alemanha,
e que se manteve vigente na estratégica de contenção
universal da União Soviética, durante a Guerra
Fria. Não se pode esquecer ainda a iniciativa Nixon-Kissinger
de aproximação da China, em 1970, para impedir
uma aliança e hegemonia comunista, na Ásia.
Depois de 200 anos de sucesso, entretanto, a nova guerra, preparada
por George Bush e Tony Blair, poderá romper com esta
tradição estratégica, responsável
pelo poder mundial dos países anglo-saxões. Alemanha,
Rússia, França e China são os principais
países que se opõem a uma 2º Guerra do Iraque.
Mas é provável que a França acabe voltando
à sua posição de costume, de participação
reticente ao lado dos Estados Unidos e da Inglaterra. Enquanto
isso a Rússia e a China devem se manter numa posição
menos ativa acompanhando à uma certa distância,
o desenvolvimento dos acontecimentos. Mas este não é
o caso da Alemanha, que já deu um passo à frente
e declarou que não participará de uma ação
militar nem apoiará a guerra, mesmo no caso em que seja
autorizada pelo Conselho de Segurança das Nações
Unidas. O Chanceler alemão, Gerhard Schroeder, foi além
e chegou ao ponto de declarar que os Estados Unidos estão
cometendo um erro terrível.
Desde a Guerra do Kosovo, está cada vez mais visível
a impotência militar e a inoperância da política
externa comum dos europeus, e é cada vez mais frágil
a posição intra-européia dos franceses,
divididos entre sua aliança com a Alemanha, na União
Européia e seu tradicional alinhamento militar com os
anglo-saxões. É nesse contexto que vem crescendo
a autonomia e a importância da política externa
da Alemanha, nestes últimos anos. Uma nova Guerra do
Golfo deverá dividir e fragilizar ainda mais a União
Européia, e promovendo a volta da Alemanha a uma posição
de liderança, dentro da Europa e no jogo político
internacional. O grande fantasma está de volta, e, neste
momento, duas versões de uma mesma história vêm
à cabeça de todos que especulam sobre o futuro
da Alemanha como dona do seu próprio destino e potência
mundial.
A primeira versão começa em 1862, no momento em
que o príncipe Otto von Bismarck - chanceler e principal
artífice da unificação alemã de
1871- declara que as grandes questões da atualidade
serão decididas não por discursos ou maioria de
votos, mas pelo sangue e pelo ferro. Antecipou assim o
caminho que levou ao nascimento da Alemanha, através
de três guerras sucessivas da Prússia, contra a
Dinamarca em 1864, contra a Áustria em 1866, e contra
a França em 1871. É verdade que, depois disto
e até 1890, Bismarck conduziu uma política externa
pacifista, de tranqüilização e consolidação
do papel da Alemanha entre as grandes potências européias.
Mas foi neste mesmo período que a Alemanha conseguiu
se industrializar rapidamente, orientada por uma projeto econômico
nacionalista e voltado para o fortalecimento do poder do estado
e a construção do império alemão.
Como resultado, no início do século XX, a Alemanha
já era a segunda potência industrial do mundo,
superada apenas pelos Estados Unidos. Logo depois, a Alemanha
propunha pela primeira vez a criação
de uma união européia e se lançava
em suas duas tentativas de hegemonização continental,
bloqueadas e derrotadas nas duas Guerras Mundiais.
Porém existe uma outra versão da mesma história,
menos lembrada pelos governantes do Atlântico Norte. Seu
primeiro capítulo foi escrito pela Reforma de Lutero,
no século XVI, a primeira grande contestação,
com raízes populares, do poder ideológico de Roma,
e do poder político de Carlos V e do seu Sacro Império
Romano Germânico. O segundo capítulo foi escrito,
no século XVII, pela Guerra dos Trinta Anos (1618-48),
que envolveu todas as potências européias, mas
que foi travada quase só no território alemão.
Em 1648, a paz assinada em Westphalia consagrou o direito à
soberania nacional dos estados europeus, mas transformou o território
germânico num mosaico de 350 principados independentes,
separados e sob a tutela das grandes potências. No início
do século XIX, Bonaparte dissolveu o que restava do antigo
Império Germânico, mas, depois da sua derrota,
o Congresso de Viena redividiu o território e criou uma
Confederação Germânica, que ficou sob a
tutela da Áustria e da Prússia, até 1866.
Em síntese, o que esta outra história nos conta
é que a Alemanha foi um estado bloqueado e impedido de
nascer até o século XIX, pela ação
militar e diplomática da Áustria, Prússia,
França e Rússia, mas também da Inglaterra,
Espanha e Holanda, as Grandes Potências da época.
Foi isso que atrasou o nascimento do estado alemão,
e é por isso que ele nasceu da guerra e viveu sempre
tão marcado pela sua origem e pela necessidade constante
de garantir e expandir seu espaço vital.
Mas depois da II Guerra Mundial, a Alemanha Ocidental voltou
à sua condição inicial, transformada numa
obra política e econômica artificial da Guerra
Fria, um verdadeiro protetorado militar e econômico dos
seus velhos adversários. A própria união
européia que havia sido pensada pelos alemães,
nos anos 20/30, acabou se transformando numa maneira de domesticar
a ovelha negra, oferecendo-lhe a preoeminência
econômica, mas submetendo-a à liderança
politica francesa e ao policiamento militar da Otan. Por fim,
não há dúvida de que o Muro de Berlim foi
construído pelo governo comunista da Alemanha Oriental,
mas a verdade é que ele também realizou um sonho
antigo de muitos europeus ocidentais: separar os
dois lados da alma alemã, sua civilidade
liberal e ocidental, do seu lado autoritário e prussiano.
Henry Kissinger afirma na conclusão do seu livro Diplomacy,
that it is in no countrys interest that Germany
and Russia should fixate on each other as either principal partner
or principal adversary. If they become too close, they raise
fears of condominium; if they quarrel, they involve Europe in
escalating crises. Hoje, os alemães já são
o principal sócio e investidor no processo de reconstrução
econômica da Rússia, e não é provável
que voltem a cometer os erros do passado. Pelo contrário,
devem tentar seguir os caminhos do poder traçados pelos
mercados e pelos capitais. Mas não é improvável
que uma guerra anglo-saxônica contra o Iraque (sobretudo
se contar com a adesão final da França), acabe
criando e aprofundando laços de natureza político-estratégica
entre a Alemanha e a Rússia. Ao longo prazo, portanto,
o segundo grande blowback de uma Guerra do Iraque,
poderá ser o nascimento de uma poderosa coalizão
de poder no centro da Europa. Exatamente aquilo que Sir Halford
Mackinder ensinou aos ingleses na sua magnífica
conferência sobre O Pivô Geográfico
da História, na Royal Geographic Society, no dia
25 de janeiro de 1904 que jamais deveriam deixar que
acontecesse.
* Cientista
Político