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Por que
vou votar no Tarso
Luis
Fernando Verissimo
Não
sei quais são os planos do Tarso Genro, mas, se ele concorrer
de novo a governador do Estado, tem o meu voto. Acho que havia
muita coisa no governo Olívio a ser continuada e muita
coisa a ser corrigida, por isso votei no Tarso, e votarei outra
vez. Isto não é um prejulgamento do Rigotto, um
homem decente que pode fazer um governo decente.
É apenas coerência. Cada um tire a sua lição
dos quatro anos do Olívio e do episódio eleitoral
que passou. Para mim, fica mais um exemplo da incapacidade da
esquerda gaúcha de entender o momento e entender a si mesma.
Parece
mentira, né? Lula presidente. Para quem, como eu, votou
nele desde a primeira tentativa, é um pouco como dar adeus
a um velho hábito. Já estávamos acostumados
à decepção, a perder de quatro em quatro
anos só para concluir de novo que o Brasil não tinha
jeito mesmo, que alguém como ele jamais seria eleito, que
a maioria oprimida jamais teria vez, porque as elites, porque
o capital internacional, porque os americanos... E não
é que o homem me ganha? Mas o ceticismo entranhado custa
a morrer. Depois dos festejos, vem a desconfiança. O que
deu errado desta vez? Ou, mais intrigante: o que deu certo?
A primeira tentação é a de invocar o filósofo
Marx, Groucho Marx, e alertar o Lula sobre o risco de entrar num
clube que aceita sócios como ele assim tão facilmente.
O segundo pensamento é mais especulativo, e otimista: e
se o clube mudou? E se o Lula ganhou o apoio de gente que antes
assustava não apenas porque a barba preta ficou grisalha
e o discurso abrandou mas porque há um sentimento generalizado
de que algo está desmoronando, algo está chegando
ao fim, e que é preciso colocar outra coisa pelo menos
organizada no seu lugar, antes que a pura raiva antitudo tome
conta? O anti-Lula desta vez não se criou porque o sistema
desanimou cedo. O Serra foi um produto do desânimo do sistema.
Fala-se muito que o governo Lula terá pouco espaço
de manobra para fazer o que pretende, com os compromissos que
herdará. Mas o sistema internacional também está
em crise, também há luta dentro do clube deles sobre
o que é conveniente e o que é negociável
para que o sistema sobreviva à sua própria irracionalidade,
e talvez também haja interesse em facilitar a vida do novo
sócio. Que, afinal, já declarou que não vai
limpar os sapatos com o guardanapo, só quer mais consideração
e justiça.
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