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Em duas
metades
Barbosa
Lessa
Dentre
as imagens de nosso passado histórico, vale relem-brar aquela
vez, por volta de 1880, em que a Metade-Norte da Província de
São Pedro co-meçou se queixando de aban-dono governamental, ergueu
protestos na Câmara de Cruz Alta e terminou enviando à Corte o
deputado Antônio Go-mes Pinheiro Machado para que tentasse obter
junto a D. Pedro II a mercê de se tornar uma província autônoma.
Pois agora começa a repetir-se o episódio, por conta da Metade-Sul.
Não tenho tido tempo pa-ra acompanhar tal questão, mas, caso ela
venha a ser encami-nhada pelos devidos trâmites, só imagino a
trabalheira que vai dar. Antes de mais nada, os legisladores terão
de definir claramente a linha divisória entre os dois novos Estados,
o do Norte e o do Sul.
Sei que não
vai haver maior problema na longa reta desde a foz do rio Ibicuí
até alcançar o Médio-Jacuí, mas, na hora de atravessar o Guaíba
e se defron-tar com Porto Alegre... bah! Por onde dobrar? Em ângulo
reto para cima, até o Itaimbezinho e o Mampituba, ou em ângulo
re-to para baixo, até o porto de São José do Norte?
Nada disso!
Seria uma injus-tiça se Porto Alegre - nossa maior e mais rica
cidade - ficasse como uma simples telespectadora, torcendo para
o novo Estado X ou o novo Estado Y. E seria uma tremenda duma
mal-agradecida se abandonasse um ou o outro para se entregar inteirinha
a um só deles. Ela precisa se subdivi-dir claramente, para que
a linha que vem vindo de tão longe possa cruzar firme e seguir
até Viamão e Tramandaí.
Não vim aqui
só para criar problema ao poder público, mas, como humilde cidadão,
an-tevejo uma baita confusão quan-do a população porto-alegrense,
até hoje uma e indissolúvel, ti-ver de optar por X ou Y. Então,
tomo a liberdade de sugerir uma primeira proposta de linha divi-sória,
a partir do momento em que,
vinda desde o Ibicuí, ela mergulha no Guaíba e se de-fronta com
os arranha-céus da bela capital.
Proponho que
a divisa che-gue pelo Hipódromo do Cristal, suba o Morro Santa
Teresa (de onde se descortinará o panora-ma da nova fronteira),
desça a Corrêa Lima e vá pela avenida da Azenha até o fim, daí
toman-do o melhor rumo para Viamão e Tramandaí.
Uma das maiores
vantagens desta proposta é a oportunida-de de separar geo-politicamente
o estádio Beira-Rio e o estádio Olímpico.
Como o Ínter
e o Grêmio an-dam meio desacorçoados, preci-sando de uma força,
fantástico impulso receberiam ao se torna-rem integrantes permanentes
de dois Estados vizinhos que logo se tornariam rivais. O Novo
Sul já nasceria como um gigante de duas cabeças.
Aparentemente
tão simples, esta medida teria o mérito su-plementar de solucionar
vários problemas incontornáveis quan-do chegasse a hora de lançar
bo-nitinhas as duas novas unida-des federativas. Senão, vejamos:
Quais os dois
hinos que subs-tituiriam o velho “Como a aurora precursora” do
antigo Rio Gran-de do Sul? Mas já estão prontos! E prontas também
as bandeiras!
Se algum cidadão
não qui-sesse continuar morando deste lado, era só se mudar para
um apartamento mais adiante, no meio da sua torcida. Com tal fim,
até a pé nós iremos...
Ou, então,
o melhor é deixar assim mesmo como está, sem mexer no nosso velho
e querido Estado do Rio Grande do Sul.
* Luiz Carlos
Barbosa Lessa é jornalista, historiador, folclorista e escritor.
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