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O jardim
de Ione
Com a morte
de um cânone de
João Cabral, elite paulistana apressa-se em apontar sucessor para
a vaga de maior poeta brasileiro
Dóris
Fialcoff
Puxa
vida! É isso que dá vontade de dizer quando a gente ouve Ione
Terezinha Nichele. Ela é esposa, mãe de três filhos, professora
e daquele tipo de pessoa que agarra os ideais com unhas e dentes.
Cresceu tendo como exemplo a avó, que não parava quieta enquanto
podia ajudar alguém. Aos 14 anos, ela própria começou a fazer
o mesmo participando de atividades na comunidade, sempre no intuito
de orientar, esclarecer e ajudar organizar um modo de vida mais
humano, em todos os sentidos. Não é a toa que escolheu como profissão
o magistério.
Há 25 anos,
Ione mora com a família no bairro Jardim Itu, em Porto Alegre.
Quando chegou lá, encontrou uma vizinhança que, com olhar crítico
e postura participativa, como ela mesma diz, já havia começado
a se articular. Logo procurou o pessoal da Associação dos Moradores
do Bairro Jardim Itu, que, na época, ainda nem tinha uma sede.
Hoje, já são
várias as conquistas, entre elas um posto de saúde, instalado
em 1993; a retirada de dois depósitos de lixo; a aprovação de
uma emenda no plano diretor da cidade determinando que projetos
de mudança que venham a atingir a partir de dez casas devem passar
por avaliação da Câmara de Vereadores; uma sede para a Associação
de Moradores; interromper o processo de um projeto de construção
de uma avenida no bairro que exigiria a retirada de muitas casas
e o prazo de um ano para que a prefeitura apresente para a comunidade
um novo projeto, sujeito a aprovação; e mais uma série de coisas.
Nesse percurso,
Ione foi presidente da Associação por duas gestões, foi eleita
para coordenar um dos onze distritos de saúde do município, depois
para ser conselheira municipal de saúde. E ainda, apesar de estar
aposentada no magistério estadual, continua com 20 horas em uma
escola municipal. Além da relevância de toda essa dedicação,
o referencial de Ione é que faz mesmo a diferença. Para ela “é
o vínculo, a integração que faz a coisa acontecer”.
Tanto isso
é verdade que, apesar de já realizando um trabalho pela cidadania
em outras instâncias, garante que nunca vai deixar o trabalho
de base, ou seja, a sua comunidade, a Associação de Moradores
do Jardim Itu. Basta ouvi-la para entender. Ela vibra, se emociona
quando conta que durante esses anos vem assistindo as pessoas
começarem a enxergar as próprias possibilidades, a saber os direitos
como cidadãos, sendo que “algumas, mal sabiam assinar o nome”,
reforça. Isso sem falar nos frutos que os esforços somados da
prefeitura, da Associação e do posto de saúde estão permitindo
colher, entre eles, pessoas com mais de 60 anos que começaram
a estudar. “Eu ouvi de algumas pessoas que depois que começaram
a participar das atividades da Associação, não precisaram mais
tomar remédio para dormir”. Para quem não conhece o bairro, vale
um passeio pelo Jardim Itu. Sem exageros, parece uma outra cidade,
daquelas que só se vê no interior. É um lugar tranqüilo.
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