|
A túnica
inconsútil de um canône
Com a morte
de um cânone de
João Cabral, elite paulistana apressa-se em apontar sucessor para
a vaga de maior poeta brasileiro
Dois
Santos dos Santos*
Em algum lugar,
Octavio Paz escreveu que 80% do que se chama poesia não passa
de prosa. A referência introdutória pretende comentar João Cabral
de Melo Neto, morto em outubro, que, na companhia de Carlos Drummond
de Andrade, é o maior poeta brasileiro do século. Dele muita
coisa se disse agora, nem sempre conveniente. Análises variegadas,
de jornalistas a professores universitários, visaram situar
a importância de João Cabral na cultura brasileira.
Enquête paulistana,
seletiva e elitista, apressou-se em apontar o substituto para
a vaga de maior poeta vivo do Brasil, e os nomes lembrados,
além de Ferreira Gullar, foram dos concretistas (Campos & Pignatari),
de Sebastião Uchoa Leite e Francisco Alvim. Fora Gullar, que tem
um percurso com altos e baixos, mas de importância nacional,
o resto, sem negar-lhes mérito, é reconhecido apenas em suas
paróquias, ou por restritos grupos de neófitos do experimentalismo
e da vanguarda.
Rigor e concisão,
dois termos destacados pelos que lhe dedicaram apreciação póstuma;
e que dizem nada, porque incorporados desde o início aos cânones
de sua poesia, feito projeto estético-existencial. Rigor e concisão
movimentos do gênero poesia-práxis - cultivados no círculo estreito
dos súditos incondicionais - ostentavam, qual porta-bandeiras,
com resultados bastante duvidosos. Nem é marca qualitativa.
João Cabral era da raça dos “inventores de linguagem”, exigentíssimo.
Há uma anedota, provavelmente verdadeira. Quando publicada “Morte
e vida severina”, Vinícius de Moraes elogiou muito; e ele, constrangido,
alertou o amigo: “Vinícius, “Morte e vida severina” eu fiz para
os outros; para você eu fiz “O cão sem plumas”. Poema que considerava
formalmente rigoroso, na expectativa de seus padrões. Cálculo
é palavra acrescentável àquele binômio. O poeta se considerava
o engenheiro do verso, e sua maior influência vinha da arquitetura,
através de Le Corbusier. Um construtor de poemas, que detestava
a inspiração, a espontaneidade e o improviso. Um profissional
contra o amadorismo, o excesso e a enxúndia na poesia.
Interessante
as idiossincrasias dele, talvez - permitam a audácia - contestáveis.
Não gostava de Fernando Pessoa porque confessional, subjetivo
e intimista, portanto, alguém que faz a poesia adoecer; a mesma
opinião relativa aos surrealistas, presos à escrita automática,
viciados pela subjetividade. No fundo, João Cabral temia tudo
que se refere ao Eu, essa entidade vaga, ambígua e incerta; tinha
medo de perder o controle sobre a máquina do poema, onde objetividade,
rigor, cálculo, precisão e clareza possuem sentido. Para consegui-lo
foi necessário um exercício implacável de lucidez e vigília.
Apesar de
ele depreciar o surrealismo e o confessional, parte da melhor
poesia de todos os tempos é subjetiva e surreal, desde os filósofos
pré-socráticos aos profetas do velho testamento, dos cânticos
de Salomão ao Sermão da Montanha, cruzando o Apocalipse de São
João Evangelista -que é puro delírio - até contaminar vários
poetas modernos e contemporâneos. Quando Ungaretti diz, no poema
“Mattina”: “M´illumino d´immenso”, intraduzível traduzido, é
subjetivo, profundo e maravilhoso; se Juan Gelman escreve “Há
muerto un hombre y están juntando su sangre en cucharitas,/
querido Juan, has muerto finalmente./ De nada te valieron tus
pedazos/ mojados en ternura”, é impossível ser mais confessional
e lírico; Cecília Meirelles em “Motivo”, Drummond em “Confidência
do itabirano”, Adélia Prado em “As mortes sucessivas”, Joaquim
Cardozo em “O filho pródigo”, para citar alguns. A lista é infindável.
Em dois filmes
dos anos noventa o tema aflora, transparente. Num deles, “Sociedade
dos poetas mortos”, há um adolescente tímido e reprimido, que
se recusa a escrever um poema como trabalho escolar. Numa das
aulas o professor cobre seus olhos com as mãos e ele se descontrola,
vomitando frases desconexas. Aí o mestre exclama: “Isto é poesia!”;
em “O carteiro e o poeta”, recheado por belas citações de Neruda:
“Acontece que às vezes me canso de ser homem”, ou “o cheiro das
barbearias me faz chorar aos gritos”. Na hora em que o poeta,
à beira mar, solicita ao carteiro um adjetivo e ele diz “triste”,
“as redes tristes de meu pai”, que era pescador, compreende- se
a diferença entre o realismo (racionalismo) de João Cabral e
o desequilíbrio da razão.
Voltemos a
Octavio Paz. Se 80% da poesia que circula prosa, onde ela andará?
Encontra- se em tudo que João Cabral refuga. Ele poderia inverter
a proposição de Octavio Paz, com a mesma validade. Porque 80%
ou mais da “poesia poética” é absolutamente ruim, frouxa e inferior.
O esforço de João Cabral para expurgar de sua obra qualquer
impureza, a busca da poesia substantiva, objetizada, coisificada
(ele chamou de antipoesia), teve êxito porque seu talento ficava
à altura de suas exigências. Em mãos erradas, “transmutar o prosaico
em poético” seria tão desastroso quanto a “poesia poética” que
ele rejeita. Seu rigor estava a serviço do real, não era essa
experiência meramente estetizante que tantos continuam fazendo.
Ave, João Cabral de Melo Neto, altíssimo poeta.
*Dois Santos
dos Santos é poeta, autor de Sobre Corpos e Ganas (1995)
|