|
Eu educo,
tu educas...
Projeto
das cidades educadoras ganha o Brasil e quer transformar cada
cidadão em professor
Dóris
Fialcoff
Educação.
Quão abrangente é, na verdade, esse conceito? Seja lá o que você
pensou, não há risco em afirmar que é bem mais do que isso.
Apesar do
consenso de que a família e a escola são os pontos de partida
na formação dos indivíduos, o comum é que à medida em que a criança
vai crescendo a grande responsável por sua educação acabe mesmo
sendo alguma instituição de ensino formal. Mas, se depender de
um grupo que está se espalhando pelo mundo desde o início desta
década, isso vai mudar. É o movimento Cidades Educadoras, surgido
em 1990, na Espanha.
A idéia já
chegou por aqui e a rede brasileira de cidades educadoras terá
sede em Porto Alegre. Por isso, no início de outubro, cerca
de 300 pessoas de várias regiões do Brasil e de outros países
estiveram reunidos no 1º Encontro Brasileiro de Cidades Educadoras.
Na reunião falou-se sobre democratização social, planejamento
sócio-econômico das cidades, promoção dos direitos humanos, educação
permanente na escola e nos espaços urbanos, desenvolvimento
sustentável e ações culturais que atendam à população.
Pilar Figueras,
coordenadora da Associação Internacional de Cidades Educadoras
(AICE), informa que para integrar a entidade - e, portanto, receber
o título de cidade educadora - as prefeituras devem assinar a
Carta das Cidades Educadoras, se comprometendo com os 20 princípios
básicos contidos no documento (veja quadro abaixo).
Jaume Colomer,
professor da Universidade de Barcelona e assessor da AICE, não
tem dúvidas que as cidades do futuro serão, necessariamente e
por vocação, “cidades educadoras”. Para ele, a negação disso as
converteria em cidades suicidas, condenadas à atrofia.
Colomer explica
sua tese dizendo que as sociedades estão diante de um novo Renascimento
urbano, a exemplo do movimento europeu que marcou a transição
do período medieval. “Isso não é uma idéia irrealizável, mas um
desafio para desenvolver um novo comunitarismo e novas formas
solidárias de vida comum em oposição ao individualismo”, diz.
O professor
lembra que as cidades livres do Renascimento surgiram como rebelião
contra o modelo unitário de sociedade. “A cidade são as pessoas
físicas que compartilham um território e uma cultura urbana,
as construções e demais elementos da paisagem urbana, as idéias
e conceitos, os valores e símbolos, a memória e o projeto de futuro
que estamos construindo”, teoriza.
A prova de
que não fazemos idéia da complexidade e abrangência do conceito
educação é que quase não pensamos no potencial educativo dos
municípios. Colomer chama a atenção para o fato de que esse potencial
- a que denomina educatividade - não depende só de sua configuração
estrutural (tamanho, organização espacial, sistemas de comunicação
etc), mas também da disposição dos cidadãos à interação. Portanto,
o primeiro passo é que os municípios invistam nos principais
agentes da sua educação, que não são ninguém mais que a sua própria
gente.
|
Síntese
da carta das cidades educadoras
- Todos
os habitantes têm o direito de gozar, em condições de liberdade
e igualdade, dos meios e oportunidades de formação, lazer
e desenvolvimento pessoal que a própria cidade oferece;
- a
municipalidade deverá estimular a inovação, mantendo-se
informada sobre o desenvolvimento em educação nos centros
educacionais oficiais, assim como das iniciativas de educação
nãoformal;
- a
municipalidade avaliará o impacto das propostas culturais,
recreativas, informativas, publicitárias ou de outro tipo
que crianças e jovens recebem sem qualquer mediação;
- a
cidade providenciará que os pais recebam formação que lhes
permita ajudar os filhos a crescer e fazer uso da cidade
em um espírito de mútuo respeito. Neste mesmo sentido desenvolverá
projetos para educadores em geral e forças de defesa e proteção
civil que dependem diretamente do município;
- a
transformação e o crescimento de uma cidade deverão estar
determinados pela harmonia entre as novas necessidades
e a preservação de construções e símbolos de seu passado;
- todos
os habitantes têm o direito de participar na elaboração
de programas educativos. Serão oferecidos os instrumentos
necessários para descobrir um projeto educacional na estrutura
e administração da cidade, nas festas que organize e nas
campanhas que planeje.
|
|