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Não
haverá outros cabralinos poemas
O poeta
sem herdeiros deixa um vazio material na literatura brasileira
e cria uma orfandade do que está por vir
Susana
Vernieri*
Parte
João Cabral de Melo Neto e o que parece restar é a angústia do
silêncio. Nesta hora calada vem a certeza de que nunca mais haverá
versos inéditos, nenhuma metáfora inaudita, qualquer nova imagem.
A dor aparece e invade mesmo aqueles que já sabiam com todas as
letras de seu abandono definitivo da poesia nos últimos anos de
vida por causa da cegueira. O poeta visual, da claridade, do equilíbrio,
da construção, agora não tem mais voz. Não haverá outros cabralinos
poemas. A palavra está muda. O vazio torna-se material, concreto
e assume ainda maior volume quando pensa-se na confissão feita
há poucos anos por este pernambucano reconhecido como um dos maiores
autores em língua portuguesa: “Não creio ter forjado herdeiros”.
Sem nomear seguidores, o poeta de certo modo aponta para que se
acredite que a língua e a literatura do país ficam órfãs não só
de quem parte, mas de quem viria em seu lugar.
Neste instante,
sem guias poéticos a mostrar caminhos, um tanto perdidos, os leitores
de seus versos parecem receber como único e triste legado o sentimento
de um luto profundo. A escuridão dos anos finais de Cabral transfere-se
para o imaginário lírico de seu público. Ficamos cegos de uma
poesia de lúcida contundência e no calor da primeira hora da
partida torna-se impossível não lembrar o tema da morte, de modo
tão profundo presente nos versos do autor de Morte e Vida Severina.
Talvez tocando o mistério final tocado em vida pelo poeta morto
o enigma de sua partida possa começar a ser enfrentado. Afinal,
o que pensava Cabral sobre esta porta sem volta que ele cruzou
antes de nós? Que lição nos ensina?
Uma delas
pode ser a de falar do doloroso tema privilegiando menos os sentimentos,
os adjetivos e mais os substantivos que orbitam ao seu redor.
Urubus, cemitérios, defuntos, covas rasas, covas grandes, coveiros,
caixões são palavras presentes no espectro de seu vocabulário
poético, dando materialidade e objetividade na construção de
uma lírica sem derramamentos. É dessa forma que à Indesejada das
gentes o pernambucano refere-se em diversos momentos de sua obra,
numa sutil obsessão que chega a reconhecer em entrevistas como
sendo uma maneira de exorcizar o próprio medo em relação ao desconhecido.
Nos versos
de Cemitérios Metropolitanos, por exemplo, pode-se ver a angústia
traduzida em perguntas: “Morrer não é valentemente/cruzar um
fio pela frente? (...) Já cansado de falar, penso:/porque medo
desse silêncio?/Porque tanto eu me temeria/que o nãoser não
diga bom-dia,/se me deixa, morto ou desperto,/sem gente falando
por perto?.” É o peso do silêncio que apavora o eu lírico, que
logo a seguir explica-se: “É porque a morte nos sepulta,/ sem
perguntar, à força bruta.”
Ainda sobre
a inexorabilidade do destino humano, Cabral é ainda mais taxativo
nos dois últimos versos de Máscara Mortuária Viva: “da sala da
vida à da morte/é ir entre salas sem saída.” Não parece haver
concessões redentoras, espaços para transcendências apaziguadoras
na poesia cabralina. O poeta também não escamoteia a finitude
que carregamos a cada passo da jornada, e ela faz-se presente
de modo exemplar na inesquecível voz do Severino retirante de
Morte e Vida Severina. “Desde que estou retirando/ só a morte
vejo ativa, /só a morte deparei/e às vezes até festiva;/só morte
tem encontrado/ quem pensava encontrar vida,”.
Apesar de
visualizarmos um certo tom pessimista na abordagem do tema feita
por João Cabral, há outros indícios a mostrar exatamente o contrário.
Ao encarar de frente a crueza da trajetória humana, o poeta está
pondo em cheque o sentido da vida. Está propondo uma questão que
pode também ser lida pela voz de Severino:“Seu José, mestre carpina,/que
diferença faria/se em vez de continuar/tomasse a melhor saída:/a
de saltar, numa noite,/ fora da ponte da vida?” Sem modos de
justificar uma existência sem sentido, permeada de morte, por
que seguir adiante? A resposta para a pergunta será a janela
a iluminar as salas sem saída em que nos deslocamos.
É mestre Carpina,
no encerramento do Auto de Natal Pernambucano, logo depois de
ter tornado-se pai de um menino franzino, Severino, quem responde:
“Severino retirante,/ deixe agora que lhe diga: /eu não sei bem
a resposta/da pergunta que fazia,/se não vale mais saltar/fora
da ponte da vida;/nem conheço essa resposta,/ se quer mesmo que
lhe diga;/é difícil defender,/só com palavras, a vida,/ainda mais
quando ela é/esta que vê, severina;/mas se responder não pude/à
pergunta que fazia,/ ela, a vida, a respondeu/ com sua presença
viva./E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la
desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela
mesma,/ teimosamente, se fabrica,/ vê-la brotar como há pouco/
em nova vida explodida;/ mesmo quando é assim pequena/ a explosão,
como a ocorrida;/mesmo quando é uma explosão/como a de há pouco,
franzina;/mesmo quando é a explosão/ de uma vida severina.”
Além do espetáculo
da vida explicar o que parecia ser inexplicável, há outra lição
de Cabral que merece ser lembrada. É a contida em O Cão Sem Plumas.
No poema pode-se ver a contundência, o peso que carrega aquilo
que tem vida: “O que vive/não entorpece./O que vive fere./O homem,/porque
vive,/ choca com o que vive./ Viver é ir entre o que vive.//O
que vive/incomoda de vida/o silêncio, o sono, o corpo/que sonhou
cortar-se/roupas de nuvens./O que vive choca,/ tem dentes, arestas,
é espesso.” Parece haver nestes versos a tentativa de tornar a
existência palpável, material, corpórea. Mostrá-la em sua forma
concreta e contundente e, de certo modo, incorporada da morte
inevitável. Com esta densidade segue o ensinamento final do poeta:
“Espesso,/porque é mais espessa/a vida que se luta/ cada dia,
o dia que se adquire/ cada dia/(como uma ave/que vai cada segundo/conquistando
seu vôo).”
Parte o poeta
e já não resta mais apenas a angústia deixada por sua mudez. Suas
palavras ensinam que a poesia, que é vida, deve ser conquistada
a cada segundo para que não seja letra morta no papel. Assim,
é preciso ler Cabral pelo compromisso de espantar o silêncio
aterrador ao qual temia. É vital ler Cabral, pois somos todos
seus legítimos herdeiros e o legado de sua voz generosa nos ensina
que “viver é ir entre o que vive”.
*Susana
Vernieri é jornalista, doutoranda em Literatura Brasileira pela
Ufrgs. Autora do livro O Capibaribe de João Cabral em O Cão Sem
Plumas e o Rio: duas águas?(1999)
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