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Nega Cabo
Verde
Na
Cinelândia tudo pode acontecer. Me lembro de pombos sobrevoando
as construções do velho Rio. Meus olhos encantados sobre as pernas
que tinham vindo aparentemente passear. Me lembro delas muito
finas na parte das canelas, dos cambitos, andando ligeiros e ritmados
debaixo do godê da saia. Linda tarde e eu tinha uma satisfação
daquelas que a gente não sabe bem o motivo, mas que dá um gosto
bom na boca.
Uma salivação
de nada que parece ter um profundo sentido, embora calmo. Parecendo
paz. Na contramão da calçada meus olhos avistaram uma imagem como
se fosse cinema: vinha vindo um homem muito velhinho parecendo
ter quase um século de vida; de fraque e um pincenez na mão direita
junto ao rosto lustrando o chão da cansada vista, embaçada visão.
Ao lado esquerdo dele, segurando seu braço para garantir a firmeza
do passo, um rapazola que parecia um damo-de-companhia acompanhando
aquele vulto histórico. Eu estava extasiada com aquela visão.
Fomos ficando cada vez mais próximos e o prazo da calçada entre
nós foi diminuindo, até que Deus, esse incansável cineasta, nos
colocou frente a frente.
A primeira
fala era do velhinho: “Ah, deixa eu pegar, que maravilha, que
raridade.” Falava com voz trêmula, olhos arregalados, apertando
a luneta na borda dos vívidos olhos. Seu olhar era fixado nas
minhas canelas, nos meus tornozelos. Engoli a saliva que era
calma mas que agora mudava para gosto de espanto, medo e curiosidade.
Não conseguia dizer nada. Uma espécie de memória antiga descia
seco pela garganta. “Deixa eu pegar, eu preciso.”
Sem pensar
e sem me importar se os outros reparavam no espetáculo, dei meu
tornozelo na mão dele. O velhinho fechou os olhos como quem goza
e continuou: “Veja, cabe na minha mão! Encostou folgado a ponta
do anelar na do polegar!” A expressão do rapazola era também
de estranhamento; ele sim, parecia não entender nada, mas era
pra ele que o velho falava.
Eu em um pé
só na mão do homem. Que loucura. “Isso é nega Cabo Verde! Isso
limpa casa, isso canta, isso pinta. Tá pensando o quê? Isso não
é pra canavial não. Isso aprende língua, isso brinca com as crianças,
isso tem bom ventre... Ah, meu filho, isso duura...”
Fiquei besta.
Tirei meu pé de papagaia das mãos daquele lôro e vim pensando
nele, coitado. Que saudade que ele tinha da escravidão. Achava
que estava ainda no mercado de gente. Era um morto vivo que já
não podia fazer mal a ninguém.
Quanto a mim,
voltei serenamente à minha salivação de paz, cheia de planos
na cabeça. Gostei em especial daquela parte: “Isso duura...”
* Elisa
Lucinda é atriz e poeta
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