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Energia
limpa versus jogo sujo
AE
Porto
Alegre será a prova dos nove para a causa ecológica.
Entidades ligadas à preservação da vida no
planeta pretendem usar a vitrine do Fórum Social Mundial,
em janeiro de 2003, para denunciar o impasse das negociações
entre as nações envolvendo o meio ambiente. A idéia
é promover a Rio + 11, alusão à fracassada
Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável
(a Rio + 10), realizada em setembro, em Joanesburgo, na África
do Sul. Dez anos após a ECO 92, do Rio de Janeiro, não
há consenso sobre metas e prazos para a redução
do uso de combustíveis fósseis, como petróleo,
carvão e gás natural, que deveriam ser substituídos
por fontes sustentáveis e renováveis.
Paulo César Teixeira
m
Joanesburgo, o Brasil propôs que, até 2010, os países
utilizem
10% de energia limpa solar, eólica ou hidrelétrica
, mas poucos estão dispostos a estabelecer prazos
e, alguns, como os Estados Unidos, não querem nem ouvir
falar no assunto. Hoje, o percentual de energia renovável
é inferior a 1% (no Brasil, 14%). 80% do consumo mundial
está relacionado aos combustíveis fósseis
e o restante é completado por energia nuclear. A iniciativa
brasileira na África do Sul foi rejeitada tanto por países
do G-77 (dos pobres e remediados), que alegaram falta de recursos
para viabilizar a meta, quanto por membros da OPEP (Organização
dos Produtores de Petróleo), por motivos óbvios.
A Europa se mostrou simpática à idéia, que
não contou com o apoio dos Estados Unidos. Curiosamente,
na África do Sul, inimigos de guerra como EUA e Iraque
se aliaram para bombardear a proposta de energia sustentável.
| AE |
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O
Brasil já possui tecnologia para substituir o Diesel
por óleos de origem vegetal não-poluentes
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A
posição do Brasil também é polêmica
entre os que integram o Fórum Brasileiro de ONGs pelo Desenvolvimento
e Meio Ambiente. Houve grande hipocrisia. Fernando Henrique
Cardoso veio com um discurso bonito para posar de progressista.
Na prática, porém, fez o jogo das multinacionais
e das grandes corporações financeiras, ataca
Fidélis Paixão, do grupo Argonautas, de Belém
do Pará. Não se pode negar que houve avanços.
O Brasil incluiu representantes de ONGs em sua comitiva oficial,
o que representa um fato inédito, diz Kathia Monteiro,
do núcleo Amigos da Terra/Brasil. O professor Roberto Schaeffer,
vice-coordenador do Programa de Planejamento Energético
da COPPE-UFRJ, tem posição intermediária:
O Brasil levantou uma bandeira e criou um crédito
para futuras discussões.
Uma coisa é certa: a matriz energética é
o ponto central das negociações. A maior parte dos
prejuízos ambientais decorre do uso de energia não
sustentável, assegura Célio Bermann, professor do
PG em Energia da USP. A queima de combustíveis fósseis
desequilibra o chamado efeito estufa a concentração
de gases na atmosfera que aprisiona 65% da radiação
solar e permite que a temperatura média no Terra seja de
15o C, e não 18o C negativos. Graças ao dióxido
de carbono, emitido especialmente por motores a gasolina e diesel,
o cinturão natural passa a reter quantidade excessiva de
calor. O resultado é o aquecimento global cientistas
advertem que, em 100 anos, poderá haver acréscimo
de 2o C a 6o C da temperatura média do planeta, com aumento
de 30 cm do nível das águas do mar. As previsões
para o clima e a vida das populações que residem
na costa são as piores possíveis. O efeito
estufa já está por trás de catástrofes
climáticas, como enchentes devastadoras na Europa, chuvas
de granizo com pedras de meio quilo no Distrito Federal, além
de ventos de 120 km/h no Rio de Janeiro, afirma Schaeffer,
da COPPE.
O pior que se pode fazer com o combustível fóssil
é queimá-lo. Além de poluente, não
é renovável, atesta Orlando Valverde, de 85
anos, fundador da Associação de Geógrafos
Brasileiros, com meio século de pesquisa de campo. A torneira
tende a secar em 30 ou 40 anos, caso não sejam descobertas
novas reservas, o que é pouco provável. Acredita-se
que o pico do consumo ocorrerá em 2010. Depois, a
produção não vai parar de cair, com risco
de novo choque do petróleo, em função do
desequilíbrio entre oferta e procura, prevê
Schaeffer. Não por acaso, nos últimos 30 anos, a
maioria dos conflitos bélicos está ligada à
questão energética. Hoje, os EUA consomem 25% do
petróleo do mundo e são cada vez mais dependentes
da importação, o que explica, em parte, a impaciência
do presidente George Bush em invadir o Iraque. Ele encontra também
motivos domésticos para puxar o revólver do coldre.
Bush tem raízes familiares atoladas até o pescoço
no óleo negro do Texas, o estado-sede do petróleo
nos EUA. O presidente precisa devolver os favores concedidos
na campanha eleitoral, diz Schaeffer.
Já a boa vontade européia rende frutos. A Alemanha,
por exemplo, fechou acordo para financiar no Brasil incentivos
fiscais no valor de R$ 100 milhões para a produção
de 100 mil carros a álcool, que deverão ser comercializados
a partir de 2003. O Protocolo de Quioto (1997), que Bush não
assinou, prevê que os países ricos financiem a limpeza
da atmosfera no mundo pobre, onde o consumo de gasolina e diesel
não pára de crescer. O Brasil dominou a tecnologia
do álcool na década de 80, quando a maior parte
de sua frota era movida pelo novo combustível. Houve
muita ladroagem no Pró-Álcool, mas essa é
outra questão. O combustível não polui e
é renovável. Abandonamos o projeto por pressão
das companhias de petróleo, sustenta o geógrafo
Valverde, lembrando que o país produz 250 milhões
de toneladas/ano de cana de açúcar. Óleos
vegetais, como de soja e dendê, podem substituir o diesel.
O substituto orgânico é plenamente viável.
Se o carro a álcool larga um odor de cachaça, que
delicia os bêbados, o de dendê deixa um cheirinho
de batata frita no ar, diz Valverde.
| Bons
ventos mal aproveitados |
AE
A
energia elétrica também produz dor de cabeça.
Enquanto a maioria dos países ricos usa preferencialmente
fontes poluentes, como energia nuclear, carvão e gás
natural, o Brasil desfruta de suas bacias hidrográficas.
90% da capacidade instalada de 75 mil megawatts do país
provém de grandes hidrelétricas. O problema
é que elas causam enorme impacto no meio ambiente.
A Comissão Mundial de Barragens, criada pelo Banco
Mundial em 1999, concluiu que, além da agressão
à fauna e à flora, com desvio de rios e destruição
de florestas, elas provocam graves desequilíbrios sociais
com a retirada compulsória de populações
ribeirinhas. Pior: quando a mata não é derrubada,
as árvores apodrecem no fundo dos reservatórios
e emitem gás de efeito estufa.
Uma opção é a energia eólica,
que gera eletricidade a partir da ação dos ventos.
O país tem potencial de 143 mil megawatts (mais que
o dobro da atual capacidade instalada de energia elétrica)
com a fonte alternativa, conforme avaliação
do Ministério das Minas e Energia. Em 1985, Lucy Hack,
geógrafa da PUC/RJ, publicou o Atlas Eólico
do Brasil, indicando as regiões com condições
mais favoráveis para o uso de cata-ventos. Em 1995,
os dados foram atualizados, mas não houve apoio da
Eletrobras para editá-los. Não é
só falta de visão estratégica. Há
interesses políticos e econômicos contrários
à pesquisa, diz Hack. No Rio Grande do Sul, a
Secretaria de Minas e Energia divulgou, em agosto, o mapa
eólico do Estado, apontando o litoral, a região
do pampa e parte da serra e do planalto como regiões
privilegiadas. Os cata-ventos são adequados a áreas
isoladas, onde podem abastecer escolas, postos de saúde
e pequenas indústrias. |
| Energia
solar ainda é cara |
Outra
fonte renovável é a energia solar. Após
o apagão de 2001, aumentaram os investimentos. Só
que, durante largo período, não houve incentivo
algum, destaca o engenheiro César Prieb, do Laboratório
de Energia Solar da UFRGS. Em países como Alemanha
e Espanha, é cada vez mais comum o consumidor virar
produtor, instalando no telhado painéis (chapas de
cobre) que produzem eletricidade a partir da radiação
solar. O consumo doméstico é alternado com a
venda de parte da energia ao sistema coletivo. Com isso, o
relógio de marcação da luz vai e volta.
No Brasil, apesar da abundante luz solar, as experiências
são incipientes. Uma das dificuldades é o alto
custo do equipamento R$ 4 mil , que exige sete
anos para ser pago com a economia feita pelo usuário
na conta mensal. Outro entrave é o custo de geração,
de US$ 9 mil por quilowatt/pico, contra US$ 1 mil (hidrelétrica)
e US$ 500 (termoelétricas e gás natural).
Os produtos orgânicos também se apresentam como
solução para a energia elétrica. O professor
Celso Bermann, da USP, estima que só o bagaço
de cana é capaz de gerar 3 mil megawatts, o que equivale
a ¼ da produção da usina de Itaipu. Em
Uruguaiana (RS), desde 2001, uma pequena usina gera eletricidade
a partir de resíduos do arroz para abastecer indústrias
do alimento. Há ainda a possibilidade de disseminar
pequenas centrais hidrelétricas, com menos de 30 megawatts
de potência, que não agridem o ambiente. Enquanto
2/3 do país ficou sem luz, no apagão de 2001,
algumas regiões do interior paulista não sucumbiram
à escuridão, por contar com usinas de pequeno
porte, que são autônomas e tornam o sistema menos
vulnerável, assinala Bermann.
Como se vê, o potencial de energia renovável
e sustentável do país é imenso. A questão
é saber por que, apesar de o Brasil assumir uma postura
aparentemente de vanguarda no concerto mundial, o incentivo
à pesquisa e às experiências inovadoras
é tão pífio. A discussão será
retomada com todo o fôlego em janeiro de 2003, em Porto
Alegre. Antes, em novembro, o Conselho Internacional do FSM
se reunirá em Florença, na Itália, para
ratificar a proposta da Rio + 11. Se depender de Temístocles
Marcelos, da Comissão de Meio Ambiente da CUT, o FSM
se transformará em pólo de resistência
aos interesses econômicos que sabotam qualquer tentativa
de preservar a sustentabilidade do planeta. O FSM não
tem o papel de amarrar compromissos, como a Cúpula
de Joanesburgo, mas é o palco ideal para discutir alternativas
urgentes à política energética,
reforça Kathia Monteiro, da Amigos da Terra. Afinal,
como diz o decano dos geógrafos brasileiros, Orlando
Valverde: Se os governos não estão interessados
em energia limpa, nós estamos. |
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