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Altino
Berthier Brasil Já estamos com os bárbaros dentro de casa Coronel do Exército na Reserva, administrador de empresas, Altino Berthier Brasil passou mais de dez anos de sua vida estudando e descobrindo a Amazônia. Nesta entrevista, o ex-docente do magistério militar em Porto Alegre fala desta experiência, relata os desastres que presenciou e faz uma avaliação da situação da maior floresta do mundo. |
Valéria Ochôa
Em 1972, o coronel-professor Altino Berthier Brasil recebeu a incumbência de fundar o Colégio Militar de Manaus. Saiu da capital gaúcha com a idéia de retornar o quanto antes e a qualquer custo. Afinal, este paranaense, nascido na cidade de Palmas, estava "enraizado" em Porto Alegre e já no final da carreira militar. Sem falar que, como ele mesmo diz, a "Amazônia era o fim do mundo". Os planos mudaram. Logo apaixonou-se pelo "mundo verde", seus índios e seu povo. Cumprida a tarefa, pediu passagem para a Reserva e passou aos estudos da Amazônia, que lhe renderam vários títulos de reconhecimento. Caso do Diploma de Honra ao Mérito do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia - por sua dedicação ao desenvolvimento científico da área pan-amazônica.Também, sete livros. O pajé da beira da estrada (EST,1986), por exemplo, conta a história de seu contato com os índios Waimiri-Atroari, hoje quase extintos, e Desbravadores do rio Amazonas (Posenato Arte e Cultura, 1996), no qual relata sua experiência de reconstituir a histórica epopéia de Pizarro/Orellana, que redundou com a descoberta do rio Amazonas, em fevereiro de 1542. De volta ao Rio Grande do Sul, dez anos depois, Berthier desdobra-se em palestras, seminários e cursos para contar o que viu e viveu na Amazônia. "Que um dia tive o atrevimento de chamar de fim de mundo", reconsidera. "Ela é uma herança e uma responsabilidade. Ela é um ato de amor. Mais do que projetos, mais do que Ciência, a Amazônia precisa da consciência dos brasileiros", convoca em suas obras.
Extra Classe - Como foi o
seu primeiro contato com a Amazônia?
Altino Berthier Brasil - Até certo modo foi
despreocupado, porque eu não tinha uma noção do que era. Para
mim, a Amazônia era uma realidade como a África, a Índia.
Quando cheguei, constatei que os estrangeiros conheciam tudo
sobre a Amazônia. Estavam estudando, inseridos nas pesquisas, na
exploração. Me achei na obrigação de estudar também, de
captar aquilo que significava a Amazônia para nós. No mesmo
ano, depois de cumprida minha tarefa de organizar o Colégio
Militar de Manaus, pedi passagem para a Reserva e passei a me
debruçar sobre as questões da Amazônia.
EC - O que mais lhe chamou a
atenção?
Brasil - Fiquei emocionado com tudo que encontrei na
Amazônia. Entrei na universidade e também em diversos
institutos que existem lá - que são os melhores do mundo em
matéria de florestas equatoriais, doenças tropicais. Fui
procurando as linhas geográficas, históricas, políticas, mas o
que mais me interessou foi o substrato humano, a alma do cabloco,
do povo, do índio. Era um tema não muito desenvolvido.
EC - O senhor teve auxílio
financeiro para os estudos?
Brasil - Foi iniciativa minha. Tinha minha família em
Porto Alegre, três filhos na universidade. Fiquei ligado à
Amazônia mas todo o mês vinha a Porto Alegre, em ponte aérea.
Cumpria isso apenas com os recursos de minha aposentadoria.
Arquitetei um projeto que me permitisse permanecer por lá.
Comprei uma fábrica de guaraná e uma fazenda, mas logo tive de
me desfazer da fábrica porque não tinha tecnologia sofisticada
para o trabalho e minhas condições financeiras eram modestas.
Eram tantas dificuldades que, entre outras coisas, aceitei o
emprego para dirigir uma empresa de ônibus. Tudo com o objetivo
de ter recursos para poder viajar e estudar.
EC - E sua atuação na
esfera política?
Brasil - Em 1975, fui designado para a Secretaria da
Indústria e Comércio do Estado. A Zona Franca estava
explodindo. Procurei desenvolver a incipiente indústria local
ante a fúria eletroeletrônica que se expandia. O estado da
Amazônia tinha uma indústria muito precária de farinha,
botões, guaraná, sucos. Meu papel foi inserir as indústrias
nativas dentro da Zona Franca. Além disso, tive o privilégio de
criar o primeiro instrumento disciplinador da pesca no Rio
Amazonas.
EC - Em O pajé
da beira da estrada, o senhor relata a experiência com
os índios Waimiri-Atroari. De que forma o homem branco chegou a
esta tribo?
Brasil - Durante a construção da BR 174, que liga
Amazônia a Roraima. A estrada passava por dentro da região dos
Waimiri-Atroari. Era uma grande família indígena ao Norte de
Manaus.
EC - Como foram as
negociações com a tribo?
Brasil - A Funai recebeu o encargo de fazer contato com
os índios. Em vez de seus técnicos recorreu a um padre italiano
chamado Calleri que, com mais oito pessoas começou o trabalho.
Mas o padre não tinha muita habilidade. Chegou lá dando tiros
de espingarda para espantar os índios. Queria manter autoridade
à força.
EC - Como os índios
reagiram?
Brasil - O padre tinha levado uns pratos de alumínio
para distribuir para eles. À noite, os índios foram lá e
pegaram aqueles objetos. Para os indígenas não existe furto. No
dia seguinte, o padre deu uma chamada neles. Os índios não
gostaram e, quando chegou a noite, disimaram o padre e toda a
equipe.
EC - Como foi a
repercussão?
Brasil - Foi um assunto contundente. Jornais como o Times,
de Londres, publicaram matérias chamando os índios de cruéis,
de sanguinários. Era uma época pioneira em que mais valia a
nossa vontade de civilizar do que os interesses humanos dos
índios. Então, foi um massacre.
EC - Como isso foi
resolvido?
Brasil - Foi resolvido meio a ferro. Era uma luta
desigual. O batalhão que estava trabalhando lá não tinha
interesse nenhum de fazer morticínio. Mas levava muitos assaltos
dos índios. Os índios tinham pavor do barulho das máquinas,
atacavam mesmo. Tenho em minha casa flechas que caiam em frente
da casa, do carro. Aqueles índios eram muito aguerridos. Até
diziam que andavam insuflados por cubanos, estrangeiros. Na
verdade, eles estavam muito machucados com aquele negócio da
estrada. Naquela época, a Funai não tinha as preocupações,
digamos, científicas, antropológicas, que tem hoje.
EC - Como foi seu contato
com esta realidade?
Brasil - Na medida em que o batalhão ia liberando os
quilômetros da rodovia, iam vendendo as terras sobre o eixo da
estrada, muito baratas, para quem quisesse montar uma fazenda.
Quando liberaram o quilômetro 200, onde tinha um foco muito
grande de índios, eu comprei uma área de 500 hectares. Era uma
floresta imensa. Parecia uma muralha por volta da estrada. Eu fui
entrando e construi uma casa.
EC - O que restou dos
índios Waimiri-Atroari?
Brasil - A estrada passou e os índios que sobraram foram
embora assustados, apavorados. Num canto de minha fazenda ficou
um índio velhinho. Convivi com ele sem falarmos. Nos
respeitávamos, trocávamos amabilidades. Eu temia que ele fosse
um sanguinário e ele temia também que eu pudesse prejudicá-lo.
Um dia, ele me convidou para ir até lá. Então, me deu lições
fantásticas do que é a sabedoria indígena e eu fiquei
profundamente impressionado com a altivez, os brios, a visão e a
premonição dele.
EC - Mas o governo não
concedeu outra área para os índios?
Brasil - Não. Simplesmente traçou a estrada e deu uma
missão curta para o 6? Batalhão de Engenharia e Construções
(6? BEC), que por sua vez cumpriu a tarefa. Foi no governo do
presidente Médici.
EC - Quais foram os outros
contatos que o senhor teve na Amazônia?
Brasil - Um deles foi com o acadêmico da Academia
Brasileira de Letras, Mário Palmério. Ele era reitor da
Universidade de Uberlândia, em Minas Gerais. Um dia vendeu tudo
que tinha e foi para a Amazônia, construiu um barco e ficou
cui-dando de todos aqueles rios. Era um estudioso. Quando eu
estava no governo da Amazônia, inúmeras vezes era designado
para ficar de anfitrião de pessoas nobres que chegavam: o
príncipe Akihito, o príncipe Charles, muitos indianos, Jacques
Costeau.
EC - Qual era o interesse
destas pessoas na Amazônia?
Brasil - A princípio, uma busca do homem supercivilizado
pelas páginas anteriores da natureza humana. Vêem na Amazônica
a última floresta virgem do mundo, um recanto ainda com uma
certa salubridade, famosa por suas riquezas, originalidades
equatoriais.
EC - Como a princípio?
Brasil - Sempre têm aqueles com outras intenções:
interesse mineralógico, econômico, político, religioso
também. Eles não tiram os olhos do Norte da Amazônia. É uma
região muito estratégica e o interesse da Europa é enorme.
Isso sem falar dos Estados Unidos, que consideram a Amazônia
dentro da sua própria zona de influência.
EC - Como o Brasil está se
manifestando frente a isso?
Brasil - Só existe um fator que mantém a nossa
soberania e o nosso território atualmente. São cerca de 12
pequenos pelotões de fronteira do Exército, colocados como
contas de um colar em toda a orla fronteiriça. É muito pouco.
Como um em Porto Alegre, outro em Tramandaí, outro em
Florianópolis... Longe um do outro, com ligação apenas
através do rádio. Estes pelotões estão lá com sacrifício.
É uma zona em que as fronteiras são de terra comum, que
ninguém sabe onde começa e onde termina. Nos países
hispânicos, a região está próxima de seus centros políticos.
Fica mais fácil para eles do que para nós alcançar a
Amazônia.
EC - Além destes pelotões,
o que o Brasil está fazendo para proteger a Amazônia?
Brasil - No campo administrativo e político está se
fazendo muito pouco. As prefeituras da região não têm
dinheiro, nem policiais, não têm nada.
EC - E em nível federal?
Brasil - O governo federal, que poderia alcançar mais
recursos, vem se omitindo e não está entendendo o problema. A
Funai não tem tido muitos recursos. É muito grande a tarefa
para a Funai. A saúde vai lá para combater a malária, mas o
turbilhão da doença é muito maior do que se faz. O
"progresso" desencadeou um processo de malária
incontrolável. Os brancos chegam, desmatam, espantam a caça e
poluem as águas, aí a reação é em cadeia. Se não fosse
isso, não haveria epidemia.
EC - E a poluição dos
rios?
Brasil - A poluição dos rios é muito grande. Em
primeiro lugar, não existe saneamento básico. São 18 milhões
de habitantes espalhados nas cabeceiras dos rios. O esgoto acaba
caindo todo na calha do rio Amazonas. Diferente do sul, lá as
nascentes estão nas altitudes, no Peru, na Venezuela. A
poluição provocada pelas refinarias de petróleo e garimpos
destes países também afeta o rio Amazonas. No Brasil, também
tem muitos garimpos irregulares e extremamente poluentes. O rio
Tapajós não existe mais. Era o rio mais bonito da Amazônia, de
águas verdes. Quando cheguei lá bebia-se água do rio. Hoje,
nem pensar.
EC - Ou seja, a Amazônia
sempre foi vista como um território a ser colonizado...
Brasil - Poeticamente ela foi vista como o celeiro do
mundo, como produtor de alimentos. Mas isso foi um equívoco
muito grande. Ela foi vista durante muitos anos como um jardim
botânico, um recanto exótico da humanidade. A partir de 1950,
começou a desencadear a cobiça. A mineralogia, os produtos
farmacêuticos, os produtos regionais atraiam para a área. Isso
perdura. Muitas investidas foram frustadas. Muitos erros foram
cometidos na Amazônia, como a opção pelas rodovias. A
transamazônica foi uma intervenção violenta, contrária às
leis naturais. A bovinocultura foi um erro trágico.
EC - Todos estes erros foram
praticados durante a ditadura militar, por governos militares...
Brasil - Sim, da década de 70 para cá. Mas, passados 20
anos, a gente até pode absolver quem fez uma bobagem lá porque
talvez não soubesse o que estava fazendo. Só que hoje
conhecemos as leis básicas das relações do progresso com a
Amazônia.
EC - Quais são estas leis?
Brasil - A Amazônia é contrária à megatecnologia. O
Henry Ford investiu bilhões de dólares no início da década de
30 para fabricar pneus, borracha, no rio Tapajós. Perdeu tudo.
Hoje só tem o cemitério do pro-jeto faraônico. Depois foi o
grande projeto da construção Madeira-Maboré. A Bolívia
almejava uma saída para o mar através do rio Amazonas. Lá tem
uma região encachoeirada do rio Maboré até o rio Madeira
embaixo - neste trecho foi construída a ferrovia Madeira-Mamoré
- cerca de 100 quilômetros. Foi impressionante o que custou esta
ferrovia em dinheiro e em vidas humanas.
EC - E o projeto Jari, do
empresário norte-americano Daniel Ludwig, implantado com
incentivo do próprio governo, é outro exemplo do que os
megaprojetos podem provocar na Amazônia?
Brasil - Sim. Foi um dos primeiros e foi didático.
Mostrou tudo o que não deveria ser feito e, em escala menor,
alguns pontos positivos. No primeiro caso conquistou a repulsa
popular pelo desmatamento, a poluição e a introdução de
espécimes vegetais exóticas, sem se falar nos problemas sociais
e urbanos que provocou na área, como a maior favela do Brasil na
época, em Monte Dourado. Como ponto positivo, a agricultura de
várzeas, a criação de búfalos e o aproveitamento do caulim.
Foi um alerta contra a importação de tecnologias externas.
Também comprovou o preceito de que, na região equatorial, o
trinômio água-floresta-solo não pode ser negligenciado, sob
pena de comprometer toda a área. Quanto as autoridades
nacionais, é bom que se precavenham com as promessas ilusórias
de empregos, impostos, assistência social e atos de
generosidade. Devem se cuidar com lobbies, corrupção,
suborno, incentivo e qualquer tipo de "assanhamento".
Antes de tudo, devem cuidar dos interesses da comunidade. Sempre
é perigoso um cavalo de tróia.
EC - O que sobrou do
projeto?
Brasil - Temos a fábrica de celulose e pequena
produção de caulim - um tipo de minério.
EC - Como devem ser os
projetos na Amazônia?
Brasil - Devem ser modulados, experimentais, que comece e
vá crescendo naturalmente. Esta é uma lei: a Amazônia rejeita
megatecnologia. Outra lei: a Amazônia rejeita a homogeneidade.
Toda plantação homogênea lá tende ao fracasso. As bactérias
se desenvolvem com tal rapidez, quando é apenas um tipo de
planta, que numa noite destroem centenas de hectares. É uma lei
que está escrita como se fosse na tábua de Moisés. Outra: a
opção de transporte para a Amazônia é o hidroviário. Ela tem
50 mil quilômetros de rios. Por que fazer então rodovias? E aí
seguem os postulados que hoje estabelecem as verdades amazônicas
e que, lamentavelmente, muitos políticos e empresários
desconhecem e acabam cometendo estes ecocídios.
EC - É o caso das
madeireiras?
Brasil - Este é um capítulo trágico. Já havia
madeireiras nossas lá, que eram como cupins. Mas agora está
havendo uma coisa que a gente não pode aceitar. Os orientais,
principalmente da Malásia, da Tailândia, acabaram com suas
madeiras, passaram para a África e acabaram com as madeiras de
lei africanas. Agora, estão adquirindo glebas imensas na
Amazônia. E contam com o subsídio de governadores e autoridades
locais obcecadas com a ilusão de novos empregos e outras
vantagens. Mancomunados com estas autoridades, os malaios estão
devastando nossa floresta e montando uma estrutura política,
inclusive policial, à margem da lei. É crime inafiançável se
você estiver com um passarinho numa gaiola na free-way. Se você
desmata uma área de 200, 500 hectares não é crime, é
contravenção penal. O cidadão paga uma pequena multa e fica
por isso mesmo.
EC - Estamos presenciando a
destruição total da floresta?
Brasil - Estamos entregando a alma ao diabo, fazendo como
o inca: entregando ao conquistador o ouro e o punhal para o nosso
próprio martírio. É doloroso vermos um rio coalhado de toras
de madeiras nobres, levadas sem sequer passarem pela alfândega.
Como as águas do meio do rio são consideradas internacionais,
os navios param ali, carregam e vão embora sem dar satisfação
a ninguém. É trágico, fere a alma assistir isso.
EC - Como reage a comunidade
local diante disso?
Brasil - A comunidade local, com este nosso sistema de
mídia direcionado, e com a inspiração dos políticos
corruptos, se ilude com a promessa de empregos e fica
anestesiada. Com o exemplo das autoridades, acaba se submetendo a
isso tudo porque desconhece o que seja trabalho assalariado.
EC - Mas existe um movimento
contra?
Brasil - Sim. Há muitos cidadãos honestos. Há
patriotas. Os universitários, por exemplo, não se conformam. O
ambiente universitário e mais esclarecido está revoltado com
isso.
EC - Qual é o maior
problema da Amazônia hoje?
Brasil - É difícil eleger entre tantos. Destaco o
cultural e o cívico. Nós mesmos, brasileiros de outras
regiões, nos defrontamos com eles. Só agora começamos a
entender alguns preceitos científicos e biológicos aplicáveis
à região. Como os nortistas, precisamos consolidar o
entendimento de que a Amazônia é de transcendental importância
para nós. Ela é o argumento maior para garantir o
Brasil-potência do próximo século. Sem a Amazônia, o Brasil
seria uma Argentina ou um Peru. Além disso, ela representa uma
reserva de contingência para garantir nosso crescimento. É
interessante constatarmos que o índio e o caboclo, dentro de
seus parcos recursos culturais e materiais, sempre souberam
preservar e defender a Amazônia. O seu algoz é o homem branco,
dito civilizado, que só faz contaminar, poluir e degradar tudo o
que encontra pela frente. A mensagem que eu venho dando é de que
o Brasil fique alerta.Os romanos se referiram, certa vez, que
deveriam levantar suas pontes levadiças e assestar as armas, de
vez que os bárbaros se aproximavam. Nós, aqui no Brasil, já
estamos com os bárbaros dentro de casa. Não é provável uma
guerra na Amazônia. Mas, ela está muito sujeita às guerras
políticas, diplomáticas, intervenções, como temos visto em
diversos países - por razões alegadas, criadas.
EC - Mas tem muito
estrangeiro envolvido com garimpos, com a extração de
vegetais...
Brasil - Garimpo é um dos problemas magnos da Amazônia
porque envolve a área social. Promove grandes deslocamentos
populacionais que desestruturam as cidades. Também favorece a
prostituição, o contrabando, o consumo de tóxicos e promove
uma mineração de rapina, inutiliza as jazidas e compromete o
meio ambiente, especialmente com o mercúrio. Estão matando os
rios. Praticamente todos os garimpos estão irregulares.
EC - Ninguém controla isso?
Brasil - Não há uma política específica. Basicamente,
deveria haver proibição de garimpos predatórios. Seria
conveniente também a instituição de uma mineração industrial
disciplinada, através de empresas idôneas, com a presença do
Ministério da Fazenda e da Caixa Econômica Federal para evitar
sonegação fiscal. Os maiores beneficiados com os garimpos
irregulares são estrangeiros, anônimos que mobilizam os
garimpeiros, fornecem equipamentos. Eles dirigem um trabalho
escravo. São milhões de dólares saindo do país sem o menor
controle. E o pior é que na maioria são minérios
estratégicos, que quase não existem em nenhum outro lugar do
mundo, como o bauxita e o nióbio. Este último - 100% mais
resistente à temperatura do que o alumínio - é usado para o
revestimento de foguetes aero-espaciais.
EC - O mesmo acontece com a
extração de vegetais?
Brasil - A rapina de vegetais ocorre há muito tempo.
Tanto a exploração das plantas medicinais como as aromáticas.
Grandes empresas levam essa matéria-prima, fabricam produtos e
medicamentos que voltam para o nosso mercado sem sequer uma
reversão em royalties. O governo não tem disciplinado
isso, o Ibama deveria fiscalizar e não o faz e a Amazônia fica
exposta a essa pilhagem.
EC - O narcotráfico já é
uma realidade na Amazônia?
Brasil - Pois é, agora passou para lá. E, segundo os
americanos e europeus, o maior culpado do narcotráfico do mundo
é a Amazônia.
EC - Maior culpado por que?
Brasil - Porque existe uma mácula, alguém no mundo tem
de ser culpado. Neste caso, os mafiosos dizem que é a Amazônia.
Mas a Amazônia herdou o narcotráfico colombiano, boliviano. As
leis lá são mais severas e eles passaram para cá. As nossas
leis não garantem nada. Temos a Amazônia aberta como terra de
ninguém.
EC - Com envolvimento de
brasileiros?
Brasil - Como são grandes interesses financeiros em
jogo, envolveu alguns políticos, autoridades, empresários,
policiais e até pequenos agricultores. Para se ter uma idéia,
nenhum lucro agrícola é igual ou superior ao da produção da
coca (planta). Por isso aumenta cada vez mais a plantação de
coca na Amazônia. Mas a coca lá faz parte da tradição do
povo, é uma coca ritual. Já no mundo civilizado, a inofensiva
coca se transforma na cocaína, um dos mais poderosos agentes de
crime e de desgraça humana. Os Estados Unidos deveriam se
preocupar não só com a produção, mas com o consumo em seu
próprio território, que é o mercado maior do mundo.
EC - Por que o projeto Calha
Norte, criado no governo Sarney, não deu certo?
Brasil - Foi um projeto muito infeliz. Saiu dando a
impressão de ser um projeto militar. Como o Brasil estava saindo
daquele período dos governos militares, foi combatido por uma
espécie de rejeição. Mas era um projeto multiministerial, bem
intencionado, visando a saúde, a educação. Visava a
estabelecer um anel de proteção em toda a orla fronteiriça,
com escola, núcleos urbanos, saúde. Os pelotões do Exército
permaneceram no local, o que não aconteceu com os funcionários
civis. Fracassou. Foi investido muito dinheiro por nada. Mas era
um instrumento de capital importância para os interesses
nacionais.
EC - Como o senhor avalia o
projeto Sivam?
Brasil - Não sei se estou enganado, mas tenho
restrições. Em primeiro lugar, ele objetiva identificar
problemas na Amazônia, como as queimadas, os garimpos
predatórios, o narcotráfico. Também é feito para o controle
aéreo. Isso é até razoável. Mas a pauta é maior. E eu
pergunto: por que identificar? Nós já identificamos hoje 200,
300 queimadas clandestinas na Amazônia e não fazemos nada.
Temos, por exemplo, as queimadas provocadas pelas madeireiras do
Oriente. O problema está identificado. A questão é: agir com
energia para conter estes problemas. O projeto Sivam foi um
megaprojeto que já nasceu mal, criado meio atabalhoadamente.
Houve corrupção já nas concorrências, pressão pessoal do
próprio presidente americano. O pessoal da Aeronáutica está
satisfeito pela promessa de segurança de vôo. Isso não se pode
negar. Outro ponto é que o projeto já está obsoleto. Parece
consultar prioritariamente os interesses subalternos do
pentágano e de outros países. Acho que o dinheiro seria muito
mais útil se tivesse sido empregado à reforma dos portos
ribeirinhos, por exemplo. R$ 1,4 bilhão é um dinheiro
temerário porque é um dinheiro de empréstimo, que nossas
gerações futuras terão de resgatar.