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Percalços naturais

Quem vaia apagar a luz?

Acabou o monólogo neoliberal

Quadro é alarmante até para empresários

Roberto Freire: Sustentação relativa

José Dirceu: Crise propícia à ruptura política e institucional

Anthony Garotinho: Modelo falido

Arthur Virgílio *

Na verdade, o presidente Fernando Henrique não tem apenas oito meses de gestão mas, bem diversamente, quase cinco anos entre seu primeiro mandato e o início deste segundo, também conquistado em primeiro turno, com enorme vantagem sobre o segundo colocado no pleito. Com duas crises internacionais - a asiática, em outubro de 1997, e a russa, em janeiro deste ano - que pegaram o país sem que ele tivesse completado ciclo essencial de reformas estruturais, o resultado foi a queda da popularidade presidencial.

Fernando Henrique demonstra enorme firmeza quanto ao estratégico. Sem alardes e sem as “batidas de mesa” que caracterizam os caudilhos, não desistiu, em nenhum momento, de prosseguir reformando as estruturas esclerosadas com as quais se deparou ao assumir o Ministério da Fazenda, em 1994. Não abriu mão da política econômica que combate a inflação, enfrenta o déficit público e visa ao crescimento econômico sustentado. Não decaiu na demagogia. Não fez piadas de mau gosto com a vida dos brasileiros.

Manteve, ainda assim, o controle das coisas. A inflação, que iria, segundo os pessimistas, disparar para 80% ao ano, ficará contida em um único dígito ao fim de 1999. A questão cambial está equacionada. Os investimentos estrangeiros duradouros - quase US$ 20 bilhões até agora - deverão, só eles, financiar o déficit em transações correntes previsto para cerca de US$ 24 bilhões neste exercício. Os capitais voláteis sumiram. As taxas básicas de juros são as mais baixas dos últimos oito anos. No passo seguinte, cairão os juros na ponta do consumo. O crescimento econômico começa a ser sentido timidamente e deverá deslanchar a partir do próximo ano. O desemprego parou de crescer e haverá de sofrer sensível redução nos próximos três anos.

Não há crise de governabilidade, portanto. Brevemente, não haverá, sequer, resquícios da crise econômica. Ora, se a popularidade do presidente desabou em função das dificuldades da economia, tendo a acreditar que ela se restabelecerá, fortemente, se o quadro que prevejo se realizar. E é natural que, dentro de aliança tão ampla como essa que dá suporte a Fernando Henrique, ocorram percalços até de certa gravidade, vez por outra. Pior seria, sem dúvida, se as dificuldades surgissem da falta de densidade política, como foi o caso de Collor ou como seria o caso de alguém, porventura, eleito por um pequeno partido.

Quanto à cogitação de candidaturas presidenciais, tão antecipadamente ao tempo efetivo da campanha eleitoral, entendo toda essa movimentação mais como tática dos diversos partidos que pretendem ganhar espaço e mídia, marcando presença e tentando ampliar suas militâncias e suas bases de apoio.

Os aliados de Fernando Henrique não se estão pondo em ação. Dos adversários, o PT age com sabedoria e não expõe seu candidato, que, dificilmente será Lula, antes do momento certo. O douto. Ciro Gomes, ontem no PDS e hoje no PPS, versátil como ele só, está indo com sede ao pote desproporcional ao seu verdadeiro potencial de votos. O PSDB pensa, obsessivamente, em derrotar a crise para só depois discutir candidaturas. Campanha eleitoral tão longe do pleito é, perdoe-me o doutor Ciro, coisa de quem não tem mesmo o que fazer.

*Arthur Virgílio é deputado federal (PSDB) e líder do governo no Congresso

 

 

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