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Percalços
naturais
Arthur
Virgílio *
Na
verdade, o presidente Fernando Henrique não tem apenas oito meses
de gestão mas, bem diversamente, quase cinco anos entre seu primeiro
mandato e o início deste segundo, também conquistado em primeiro
turno, com enorme vantagem sobre o segundo colocado no pleito.
Com duas crises internacionais - a asiática, em outubro de 1997,
e a russa, em janeiro deste ano - que pegaram o país sem que ele
tivesse completado ciclo essencial de reformas estruturais, o
resultado foi a queda da popularidade presidencial.
Fernando Henrique
demonstra enorme firmeza quanto ao estratégico. Sem alardes
e sem as “batidas de mesa” que caracterizam os caudilhos, não
desistiu, em nenhum momento, de prosseguir reformando as estruturas
esclerosadas com as quais se deparou ao assumir o Ministério
da Fazenda, em 1994. Não abriu mão da política econômica que combate
a inflação, enfrenta o déficit público e visa ao crescimento
econômico sustentado. Não decaiu na demagogia. Não fez piadas
de mau gosto com a vida dos brasileiros.
Manteve, ainda
assim, o controle das coisas. A inflação, que iria, segundo os
pessimistas, disparar para 80% ao ano, ficará contida em um
único dígito ao fim de 1999. A questão cambial está equacionada.
Os investimentos estrangeiros duradouros - quase US$ 20 bilhões
até agora - deverão, só eles, financiar o déficit em transações
correntes previsto para cerca de US$ 24 bilhões neste exercício.
Os capitais voláteis sumiram. As taxas básicas de juros são as
mais baixas dos últimos oito anos. No passo seguinte, cairão
os juros na ponta do consumo. O crescimento econômico começa a
ser sentido timidamente e deverá deslanchar a partir do próximo
ano. O desemprego parou de crescer e haverá de sofrer sensível
redução nos próximos três anos.
Não há crise
de governabilidade, portanto. Brevemente, não haverá, sequer,
resquícios da crise econômica. Ora, se a popularidade do presidente
desabou em função das dificuldades da economia, tendo a acreditar
que ela se restabelecerá, fortemente, se o quadro que prevejo
se realizar. E é natural que, dentro de aliança tão ampla como
essa que dá suporte a Fernando Henrique, ocorram percalços até
de certa gravidade, vez por outra. Pior seria, sem dúvida, se
as dificuldades surgissem da falta de densidade política, como
foi o caso de Collor ou como seria o caso de alguém, porventura,
eleito por um pequeno partido.
Quanto à cogitação
de candidaturas presidenciais, tão antecipadamente ao tempo
efetivo da campanha eleitoral, entendo toda essa movimentação
mais como tática dos diversos partidos que pretendem ganhar espaço
e mídia, marcando presença e tentando ampliar suas militâncias
e suas bases de apoio.
Os aliados
de Fernando Henrique não se estão pondo em ação. Dos adversários,
o PT age com sabedoria e não expõe seu candidato, que, dificilmente
será Lula, antes do momento certo. O douto. Ciro Gomes, ontem
no PDS e hoje no PPS, versátil como ele só, está indo com sede
ao pote desproporcional ao seu verdadeiro potencial de votos.
O PSDB pensa, obsessivamente, em derrotar a crise para só depois
discutir candidaturas. Campanha eleitoral tão longe do pleito
é, perdoe-me o doutor Ciro, coisa de quem não tem mesmo o que
fazer.
*Arthur
Virgílio é deputado federal (PSDB) e líder do governo no Congresso
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