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O árduo
caminho da democracia
Andrelino
Pinto, 20 anos, está eufórico com a proximidade
das eleições municipais de primeiro de outubro.
No acampamento improvisado à margem do rio do Sinos pelas
cerca de 20 famílias de índios caingangues que foram
expulsas de suas terras no interior do Estado, ele exibe com orgulho
o título de eleitor novinho em folha. Conta que abandonou
a escola ainda na metade da primeira série para trabalhar
na roça, mas agora já não tem mais terra
para plantar. Nossa cultura está desaparecendo, somos
cada vez mais uma minoria, constata.
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| Foto:
René Cabrales |
Eu queria
votar em gente que se interessasse pelos problemas do índio.
Mas política é assim: eles prometem
tudo pra ganhar voto. Depois, quando se elegem, não cumprem
nada, sintetiza Andrelino. Como a maioria dos índios
expulsos das reservas, o rapaz sobrevive da venda de cestos de
vime nas cidades da Grande Porto Alegre. Capaz de sintetizar o
misto de expectativa e desilusão de uma parcela da população
em relação ao processo eleitoral, ele questiona:
Que democracia é essa que não consegue acabar
com a pobreza?.
Vivemos
uma aparência de democracia, que não diz respeito
ao povo, não tem implicações na vida prática
das pessoas, interpreta Luis Milman, jornalista, professor
de Filosofia e vice-coordenador da pós-graduação
em Comunicação da Ufrgs. A cultura democrática
é matéria nova na América Latina, em especial
no caso brasileiro, que vivia sob ditadura militar até
a década de 80, observa. Nossa experiência
é tão incipiente que não nos autoriza a dizer
que vivemos uma democracia. Jamais chegamos perto. O que temos
é um sistema formal dominado por elites de todas as correntes
que, quando chegam ao poder, são incapazes de propor um
projeto para o país. Há um hiato entre a democracia
das e para as elites. Este é um sistema que tende a entrar
em colapso, interpreta.
Eduardo Pedro
Corsetti, professor de Ciência Política da Ufrgs,
acredita que, além de um projeto social mais abrangente,
é preciso contemplar os segmentos sociais de forma mais
plena. Não basta oferecer só emprego. A população
está carente de um modo de vida mais seguro a médio
e a longo prazo, sinaliza. Para Corsetti, o PDT seria o
único rival efetivo do PT porque conta com setores populares
voltados para a produção de um projeto político
de caráter social. Corsetti vê uma contradição
na impugnação de candidaturas de pessoas semi-analfabetas
pelo TRE. Eles são a outra ponta de um processo de
exclusão. O fato de não ter educação
formal não torna a pessoa incapaz de ser um administrador.
Se o analfabeto pode eleger, por que não pode ser eleito?,
questiona. O número de eleitores analfabetos no Rio Grande
do Sul é de 304.048 segundo os dados do TER.
Para o cientista
político André Marenco, professor de Ciência
Política da Ufrgs, o processo eleitoral é um exercício
de afirmação da democracia. Estamos pagando
o preço de uma descontinuidade democrática. O tempo
e muitas eleições são o único antídoto
eficaz contra a ausência do senso de cidadania. Vivemos
o período de maior sedimentação do processo
eleitoral que é o caminho, ainda que longo, para um processo
democrático mais aprimorado, aponta.
Para além
da disputa eleitoral e da retórica dos candidatos, Milman
não vê distinção entre partidos de
esquerda ou de direita no que se refere ao exercício do
poder. O governo anterior administrava interesses privados,
era um autogoverno. O atual governa para um sentido corporativo,
o que evidencia a ausência de um projeto social que contemple
as demandas que já são conhecidas. Os setores conservadores
e os progressistas se diferenciam no plano da retórica.
Na prática, são iguais. Na opinião
de Milman, a democracia não criou instrumentos para responder
aos anseios das pessoas simples, que são 90% da população,
o que faz com que as crises na Educação, na Saúde,
na Segurança e Habitação se sucedam sem que
surjam projetos de reestruturação desses setores.
As pessoas comuns vão lutar pela democracia quando
ela fizer sentido. O povo aplaude porque o povo quer respostas.
As nossas elites políticas são incapazes de responder
por um projeto nacional. Por isso assumem um distanciamento da
vida das pessoas. Administram a crise com conchavos palacianos,
dispara.
Pela primeira
vez na história do Rio Grande do Sul, uma eleição
municipal será disputada com a inversão de papéis
entre situação e oposição. A eleição
de Olívio Dutra e a ascensão do Partido dos Trabalhadores
e demais siglas coligadas da Frente Popular ao poder mudou o cenário
político do Estado a partir de 1998.
Partidos como
PMDB, PTB, PFL e PPB, mais afinados com uma postura conservadora
de quem sempre se revezou no poder, foram obrigados a mudar a
retórica. Estamos condenados a fazer oposição,
lamenta Celso Bernardi, presidente estadual do PPB. Estar
no poder é uma situação bastante nova, mas
favorável. Temos um projeto político popular que
está em execução concreta. Esse é
um debate que vai aparecer muito durante a campanha nos municípios,
prevê o deputado estadual Selvino Heck, vice-presidente
do PT.
O presidente
estadual do PMDB, Odacyr Klein, que já foi ministro dos
Transportes, mostra desenvoltura no papel de posição.
Ser governo só traz desgaste para o PT. Os candidatos
do governo terão que se justificar mais. Quem está
no poder pode usar a máquina pública mas, por outro
lado, tem que dar discurso para a oposição,
alfineta Klein, explicando que a orientação do PMDB
é para que os seus candidatos trabalhem em cima das características
dos município para minimizar o impacto do Orçamento
Participativo estadual e convencer o eleitorado a votar na oposição,
no caso, os candidatos do PMDB e partidos coligados. Não
vamos adotar somente um discurso de oposição. A
estratégia é apresentar propostas e candidatos afinados
com a realidade local de cada cidade, despista. Quem
usar a máquina pública será expulso do partido,
responde Marcel Frison, tesoureiro do PT estadual.
O partido
local vai ter que dizer por quê é contra o Orçamento
Participativo, enquanto que o PT chegará no eleitor de
forma mais ofensiva, já que essa é uma proposta
consolidada do ponto de vista político: a população
já conhece o funcionamento da máquina depois de
mais de 600 assembléias realizadas no Estado, argumenta
o deputado petista, revelando que a meta do partido é eleger
prefeitos em nada menos que 400 municípios. O PT
sabe fazer oposição e sabe governar. O nosso objetivo
é claro: ser o partido mais votado no Estado, ambiciona
Heck.Desde as últimas eleições municipais,
em 1996, o eleitorado gaúcho cresceu de 6.594.884 para
7.112.134 pessoas aptas a votar, em 497 municípios. O balanço,
divulgado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), exclui os eleitores
de municípios criados depois de dezembro do ano passado
e que estão com o processo de emancipação
tramitando na justiça. O TRE registrou um total de 26.454
candidaturas a prefeito e a vereador no Estado.
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No
confronto partidário, inversão de papéis:
PT como situação
Foto: René Cabrales |
Em julho,
o Tribunal de Contas do Estado repassou ao órgão
eleitoral uma lista de 204 prefeitos, vice-prefeitos e secretários
municipais inelegíveis por conta de irregularidades nas
contas de suas administrações municipais. Entre
os inelegíveis estão 16 prefeitos, como o de Feliz,
Clóvis Assmann (PMDB); de Rosário do Sul, Glei Menezes
(PDT) e Olmiro Vieira (PPB), de Lagoão. Os nomes incluídos
são considerados inelegíveis pela Justiça
Eleitoral pelo prazo de cinco anos, a contar da publicação
dos processos no Diário Oficial da União. Mesmo
apontados como maus administradores, podem recorrer da decisão
junto ao TRE o que, na prática, os torna elegíveis
no dia 1º de outubro. É o caso de Assmann e Menezes,
que são candidatos à reeleição. Conforme
o Tribunal de Contas da União, há no país
1.651 nomes inelegíveis por má gestão das
contas públicas. Em Porto Alegre, 42 nomes já foram
impugnados pelo Ministério Público Eleitoral.
De acordo
com o promotor eleitoral Gilmar Maronese, coordenador das Promotorias
Cíveis de Porto Alegre, as irregularidades nas contas públicas
são mais assíduas e difíceis de fiscalizar
no interior do Estado e na Grande Porto Alegre. Em Esteio, por
exemplo, o Ministério Público propôs a inelegibilidade
de 28 candidatos, ou dez por cento dos 280 postulantes a cargos
públicos do município. Nem todos os casos
são de corrupção e os implicados sempre podem
recorrer, ressalva Maronese. Segundo o promotor, há
500 agentes públicos no serviço de fiscalização
prévia às eleições. Conforme o presidente
do Tribunal de Contas do Estado, Hélio Saul Mileski, que
conta com dois mil agentes para fiscalizar quatro mil unidades
orçamentárias no RS, o número de impugnações
estaria dentro da normalidade. Não chega a causar
preocupação porque são nomes que tiveram
contas rejeitadas nos últimos cinco anos e nem todos estão
envolvidos em falcatruas. Há rejeições por
vários motivos. Mas, pedagogicamente, o TCE age com extremo
rigor para cessar a prática de irregularidades, argumenta
Mileski.
De olho numa
fatia cada vez maior do eleitorado do interior do Estado, o Partido
Progressista Brasileiro (PPB) promete desequilibrar a disputa
entre a Frente Popular e o PMDB. Em 1996, só perdeu para
o PMDB no número de vereadores eleitos. Fez nada menos
que 1.418 vereadores (contra 1.371 do PMDB, 983 do PDT e 360 do
PT) e 142 prefeitos (nas últimas eleições
municipais o PMDB elegeu 158, o PDT, 84 e o PT, 25 prefeitos)
e totalizou 2,3 milhões de votos. O PMDB vai decrescer
e o PPB, assim como o PTB, tende a crescer em termos numéricos,
admite Selvino Heck.
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| Foto:
C.S. |
Coligado em
423 municípios (com o PMDB em 80 cidades e com o PTB em
outras 50) e concorrendo com candidatos próprios em 74,
o PPB, corrente política que um dia já se chamou
Aliança Renovadora Nacional (a Arena, partido de situação
do regime militar brasileiro a partir de 1964) e também
já foi Partido Democrático Socialista (o PDS, que
sucedeu à Arena como coadjuvante da ditadura militar) quer
ampliar o seu patrimônio político, como
diz o presidente estadual da sigla, Celso Bernardi.
O partido
conta com uma receita mensal de R$ 900 mil, oriunda de fundo partidário
e contribuições dos filiados, uma verba que, segundo
Bernardi, não contabiliza as doações de campanha.
A estratégia para tirar votos da Frente Popular, explica,
é bater com força nas contradições
que o PPB vê no governo e no PT. Agora vêm com
essa história de que não pode coligar com partidos
que não sejam da Frente Popular. Querem globalizar as eleições
municipais, ironiza Bernardi. Nunca um governador
desmentiu tanto um candidato. Seduziram o eleitor com promessas
que hoje guardam um abismo com a realidade como o congelamento
dos impostos, a criação da universidade estadual
e a cesta básica, dispara.
Em maio deste
ano, a executiva estadual do PT registrou em cartório a
política de alianças definidas em nível nacional
e ameaça intervir nos municípios em que foram feitas
coligações com o PMDB (São João da
Urtiga, Três Cachoeiras, Marau e Braga), com o PPB (Áurea
e Capão Bonito) e com o PTB (Santo Antônio da Palma).
O PT disputa prefeituras em 404 municípios, com 283 candidatos
a prefeito e 3.200 candidatos a vereador.
Dos 44 postulantes
a cargos de vice-prefeito, seis têm na cabeça-de-chapa
candidatos do PSB e 38 do PDT. São 116 coligações
com o PDT, 60 com o PSDB e 21 com o PC do B. No páreo das
eleições municipais de 1996, os azarões foram
o Partido Republicano Progressista (PRP), que obteve apenas 2.931
votos para prefeito; e o Partido Social Democrata Cristão
(PSDC), integrante da coligação Vamos Abraçar
Porto Alegre, que concorre à prefeitura da capital com
a deputada Yeda Crusius: o PSDC não registrou votos nas
últimas eleições.
Berço
do Orçamento Participativo, Porto Alegre, que é
governada pela Frente Popular há 12 anos, é o filão
mais cobiçado nesse confronto - polarizado entre PMDB e
PT. Um debate sobre Segurança, Saúde, Direitos Humanos,
Transporte e Educação, agendado para o final de
agosto pela Câmara de Vereadores entre os candidatos Alceu
Collares (PDT-PTB-PMN-PTN), Tarso Genro (PT-PSB-PC do B-PCB),
Valter Nagelstein (PPS), Germano Bonow (PFL-PSC-PSL), Yeda Crusius
(PSDB-PPB-PSDC) e Cézar Busatto (PMDB-PL) teve que ser
cancelado porque não houve acordo entre os partidos.
De acordo
com o deputado Berfran Rosado, coordenador da campanha de Cézar
Busatto (PMDB-PL), o confronto na capital é aberto e visa
desestabilizar a principal bandeira da Frente Popular: o Orçamento
Participativo. Com o Cidade Viva, o PT vem com
uma campanha poderosa e milionária no rádio e na
TV há dez anos. Só em abril deste ano, a receita
do programa foi de R$ 1 milhão, ataca. Para Rosado,
o governo estaria se apropriando das mazelas da população
através do OP. No primeiro debate, Tarso Genro admitiu
que o governo está devendo 400 obras definidas pelo OP
em 12 anos, ou o equivalente a um ano de obras, enumera
o deputado. A estimativa de gastos do partido com a campanha em
Porto Alegre é de R$ 1 milhão. Segundo a assessoria
técnica do PT, os custos do Cidade Viva em abril desse
ano foram de R$ 541.914,45 em publicidade e produção
de rádio e TV. Em 12 anos, foram entregues 2.725 de um
total de 3.138 obras definidas pelo OP. As outras 411 estariam
em andamento e em fase de conclusão.
A jornalista
Vera Spolidoro, coordenadora de comunicação da campanha
de Tarso, diz que a estratégia do candidato é levar
o debate para a valorização das realizações
da FP na prefeitura e propor avanços em todas as áreas.
A idéia é debater as questões nacionais
mostrando a distância que existe entre o governo federal
e os 12 anos de administração do PT em Porto Alegre,
revela. A verba da comunicação da campanha é
de cerca de R$ 800 mil, segundo a coordenação.
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