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Mercado,
Dívida e "Crime"
Angelo
Dal Cin*
Cada bebê
nascido neste instante deve só para os grandes banqueiros
internacionais mais de R$ 2.700,00. Isto sem contar a dívida
interna. Qual a culpa de nascer inadimplente? É verdade,
ao chegarem os portugueses, fomos obrigados a entregar o pau-brasil,
sem nenhuma nota promissória ou cheque assinado. Mas de
lá para cá, as coisas pioraram. O golpe de 1964,
que poderia ter ocorrido em 1954 ou em 1961, organizado com o
pretexto de defender a Ideologia da Segurança Nacional,
na verdade, inicia um ciclo de economia dependente instaurando
um processo de crescimento econômico altamente concentrador
de renda.
De 1980 a
1988, o Brasil desembolsou US$ 118 bilhões para os credores
internacionais. Antes de FHC assumir, em 1994, a dívida
externa era de US$ 148 bilhões. De 1994 a 1999, foram pagos
US$ 251,7 bilhões de juros e amortizações.
Em julho de 2000, a dívida é US$ 240 bilhões
de dólares. A dívida interna antes de FHC era de
R$ 60 bilhões. Em julho de 2000 é de R$ 540 bilhões.
Todos os juros e amortizações das dívidas,
externa e interna, poderiam ser revertidos em investimentos na
saúde, na educação, na reforma agrária,
na criação de indústrias, na construção
de moradias, postos de saúde, etc., melhorando a qualidade
de vida e não promovendo a Qualidade Total, que não
é total para ninguém. Qual o destino de todos esses
recursos? Quais as conseqüências desses desequilíbrios?
Enquanto alguns
se destroem pelo excesso, muitos se matam por um tênis ou
um trago de cachaça. Enquanto uma minoria esbanja no consumismo,
a grande maioria suplica por uma migalha. Esta é a lei
do mercado, a mão invisível que, para alguns, é
a única capaz de regular preços, desenvolver um
país e atender às necessidades individuais. Assim
se destroem empresas, indivíduos e nações
inteiras. A selvageria da globalização, via competição,
entrega o controle da humanidade à meia dúzia de
grandes empresários e banqueiros, capitaneados por governos
de países ditos desenvolvidos, desencadeando, por meio
do consumismo e da concentração de riquezas, a destruição
do meio ambiente e a exclusão de cerca de 80% da população
dos países mais pobres. Essa mão invisível,
o mercado, esconde os verdadeiros responsáveis
pelas chacinas, a miséria e a barbárie existentes
hoje.
Não
há Ética e nem Moral a ser aplicada quando autores
desses crimes se escondem no anonimato das leis que regem as propostas
do neoliberalismo. Assim, preservar a vida de milhões de
brasileiros, cessando a sangria de divisas destinadas ao pagamento
de juros da amortização das dívidas externa
e interna, é a única e fundamental atitude ética.
É fundamentalmente ético e moral lutarmos pela vida
antes de pagar a dívida. O direito à vida, prescrito
em todas as constituições democráticas, está
acima de qualquer lei do mercado.
* Sociólogo,
professor da Unisinos e diretor di Sinpro/RS
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