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Infantilidades
Luis
Fernando Verissimo
Só
o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente
o que sentia aos seis. Todas as outras paixões infantis
ou ficam sérias, ou desaparecem, mas não há
uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol. Adulto seria
largar a paixão e deixar para trás essas criancices:
a devoção a um clube e às suas cores como
se fosse a nossa outra nação, o desconsolo ou a
fúria assassina quando o time perde, a exultação
guerreira com a vitória. Você pode racionalizar a
paixão, e fazer teses sobre a bola, e observações
sociológicas sobre a massa ou poesia sobre o passe, mas
é sempre fingimento. É só camuflagem. Dentro
do mais teórico e distante analista e do mais engravatado
cartola aproveitador existe um guri pulando na arquibancada. E
esta nossa infantilidade compartilhada, de certa forma, redime
tudo. Até o Eurico Miranda.
E também
é a culpada pelo futebol profissional no Brasil ter vivido,
até hoje, nesta doce irresponsabilidade sem cobrança
e sem castigo. Nenhum clube de futebol precisa ser regido de uma
forma legal e contábil porque nenhum existe no mundo real,
adulto e fiscalizável. Todos contam com a tolerância
carinhosa dedicada a crianças brincando de gente grande,
ou de gente grande sendo crianças. E a brincadeira fica
cada vez maior e mais longe do controle. Nos últimos anos,
o comércio de jogadores de futebol, incluindo a repartição
da propriedade dos passes entre clubes e empresários e
investidores, transformou-se num dos mais rentáveis negócios
clandestinos do mundo, envolvendo trampas e tramóias que
só podem ser imaginadas, já que muito pouco se torna
público.
É muito
saudável, portanto, que finalmente se investigue seriamente
os negócios do futebol e se exija comportamento adulto
dos seus responsáveis e correção fiscal e
transparência dos clubes.
Desde, claro,
que seja dos outros e não do Internacional ou do Botafogo.
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