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Tempo
de dividir
O
pôr-do-sol é um dos cartões-postais mais belos
de Porto Alegre. O céu alaranjado do final da tarde é
o espetáculo natural de maior impacto aos olhos dos habitantes
da capital dos gaúchos. Mas o vasto chão que se
descortina na outra margem do Guaíba poderá, em
breve, não mais pertencer ao Rio Grande do Sul. Está
na Mesa da Câmara Federal, com pedido de urgência
para entrar em votação, a proposta de um plebiscito
para autorizar a divisão do Estado, com a criação
de uma nova unidade da federação plantada na metade
sul do território atual. Municípios vizinhos, avistados
pelos porto-alegrenses na outra margem do rio, a cada entardecer,
como Guaíba e Eldorado do Sul, já estarão
do outro lado da divisa interestadual, caso a proposta de cisão
seja aprovada no Congresso.
Paulo
César Teixeira
Rio Grande
do Pampa, Paraíso do Pampa, Piratini, Farroupilha ou apenas
Metade Sul? O nome e a capital também seriam definidos
no plebiscito. Com 108 municípios (hoje, o RS tem 389)
e 2,5 milhões de habitantes (25% da população
atual do RS), o novo Estado ocuparia 51% do território
gaúcho. A fronteira seguiria o trajeto sinuoso do rio Jacuí
em direção a oeste e, na altura da região
carbonífera, se confundiria com a pista da BR-290, esticando-se
até São Borja, no extremo oeste. Não
há argumentos contra a emancipação, pois
não há precedente histórico de Estado ou
município recém-criado que não tenha dado
certo, afirma o principal líder do movimento separatista,
Irajá Rodrigues, ex-prefeito de Pelotas. Nasceria
como o 10o Estado no ranking do desenvolvimento nacional. Em pouco
tempo, a previsão é de que estaria disputando o
4o lugar, acrescenta, otimista.
Os gaúchos só não são originais ao
levantar o tema. No momento, o Congresso examina 11 propostas
semelhantes, picotando principalmente os estados de maior dimensão
territorial, como Pará e Amazonas. Os projetos estão
encalhados na Mesa por pressão política dos governadores
a amputação de seus territórios seria,
no mínimo, uma desmoralização. Olívio
Dutra enviou, em 21 de junho passado, carta ao presidente da Câmara
Federal, Aécio Neves (PSDB-MG), destacando a inoportunidade
da mais recente iniciativa secessionista. Como alguém
que prega a democracia pode ser contra o plebiscito?, critica
o prefeito de Uruguaiana, Caio Riela (PTB), que apresentou a proposta
na Câmara em 1997, quando era deputado federal.
Coube ao suplente Edir Oliveira (PTB) substituí-lo e arrebanhar
400 assinaturas de colegas para recolocar a proposta de decreto-legislativo
instituindo o plebiscito que havia sido arquivada
na pauta do Congresso. Curiosamente, Oliveira é contra
a formação do novo Estado. Só defendo
o direito de todos se manifestarem, explica o deputado,
que mora em Gravataí. As lideranças separatistas
gritam contra a redação do decreto-legislativo.
Não se sabe se por cochilo ou falta de sintonia, o texto
determina uma consulta popular no território atual do Rio
Grande do Sul, e não apenas na metade sul. Isso muda radicalmente
o resultado. Os defensores do novo Estado foram pegos no contrapé.
Em todo o processo similar, até hoje, só votou
o eleitor que propõe a emancipação,
argumenta Rodrigues. Paradoxo: separatistas poderão entrar
na Justiça contra o plebiscito pelo qual tanto lutaram,
alegando que é inconstitucional. Durma-se com um barulho
desses.
O mato seco que alimenta o fogo da secessão é o
empobrecimento brutal da metade sul. Os números ajudam
a compreender a amargura e o desalento de seus habitantes. A renda
per capita é de R$ 4,8 mil, contra R$ 7 mil na parte de
cima. Calcula-se que, para acabar com a pobreza, seja necessário
investir R$ 8,53 por habitante no sul, enquanto no resto do Estado
a quantia é de R$ 3,46. De acordo com a Fundação
Getúlio Vargas, entre os municípios gaúchos
com mais de 100 mil habitantes, Bagé é o de maior
percentual de indigentes. 29,7% da população vive
em situação de pobreza absoluta, contra apenas 6%
em Caxias do Sul, por exemplo. Os bageenses que escapam da miséria
não conseguem pagar as dívidas: o número
de pendurados no SPC subiu 37% entre julho do ano passado e julho
de 2001. Isto aqui está horrível, tchê!
Os empresários não sabem o que fazer. Só
não fui embora porque não há interessados
em comprar minhas propriedades, diz Luís Fernando
Dalé, dono de loja de material de construção
e presidente do Sindilojas de Bagé.
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Such
diz que em 2000 o governo estadual aplicou, per capita,
até 30% mais na metade sul do que nas outras regiões
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A mágica
dos números esclarece o descompasso de desenvolvimento
entre as regiões e ajuda também a difundir a crença
de que, emancipada, a metade sul resolveria seus problemas com
vara de condão. Os separatistas calculam o dinheiro que
sai da região em impostos estaduais e, automaticamente,
o transferem ao caixa imaginário do futuro Estado. Anualmente,
o governo estadual nos tira R$ 1,7 bilhão e só reaplica
6,8% do orçamento. Ficaríamos com R$ 1,7 bilhão
para nós e, no primeiro exercício financeiro, disporíamos
de R$ 600 milhões para investimentos, afirma o ex-prefeito
de Pelotas. A matemática aqui não é uma ciência
exata e causa polêmica. É uma leitura tendenciosa.
Não leva em conta que 80% do orçamento é
voltado para pagamento de pessoal e custo de manutenção
da máquina estatal, concentrada em Porto Alegre,
rebate o coordenador do gabinete da Metade Sul, do governo estadual,
Luiz Henrique Such um veterinário de Pelotas, que
dá aula na UFPel. No Plano de Investimentos de 2000,
a aplicação per capita na metade sul superou em
30% o investimento per capita das outras regiões.
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Alonso,
da FEE: pecuária em declínio na região
desde meados dos anos 60
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Um estudo
do economista Darcy Francisco dos Santos, a pedido do deputado
Bernardo de Souza (PSB), estima que os municípios da região
sul perderiam, em média, 17% de retorno do ICMS com a redução
do tributo arrecadado. Em alguns casos, como Herval e Santana
da Boa Vista, a perda chegaria a 42%. O especialista afirma que
o novo Estado ficaria com 18,3% da receita do RS, o que corresponderia
a quase R$ 1,3 bilhão, em 1999. Com isso, a receita corrente
líquida alcançaria R$ 1 bilhão, o que é
bem inferior a 30% dos gastos de pessoal do RS. Se os dados são
corretos, não é difícil perceber a dimensão
das dificuldades de caixa que, necessariamente, o novo Estado
enfrentaria. Reconheço que a proposta de separação
tem legitimidade devido ao apoio popular, que está crescendo.
Mas é um equívoco omitir as despesas inevitáveis
com a construção de prédios como os da sede
do governo, da Assembléia Legislativa e do Poder Judiciário,
diz João Gilberto Lucas Coelho, titular da pasta extraordinária
da Metade Sul durante sete meses no governo de Antônio Britto.
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