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O homem cordial
Divulgação
A
contribuição brasileira para a civilização
será de cordialidade daremos ao mundo o homem cordial.
(Sérgio
Buarque de Holanda)
Ana Esteves
Eu sou o
pai do Chico. Era assim que Sérgio Buarque de Holanda costumava
se apresentar. O escritor, jornalista, historiador e crítico
literário, além de ser o pai de Chico Buarque, era
considerado um dos maiores intelectuais brasileiros do século
XX. No centenário do nascimento do autor de Raízes
do Brasil, está sendo realizada uma série de homenagens,
desde a filmagem do documentário Raízes do Brasil
Biografia de Sérgio Buarque de Holanda, de Nelson
Pereira dos Santos, passando por exposições e seminários,
até a criação de um site (www.unicamp.br/siarq/sbh)
exclusivo sobre a vida e obra do escritor, lançado em maio
pela Unicamp, que abriga, desde 1983, o Acervo Sérgio Buarque
de Holanda.
Conforme o professor de literatura da Universidade de Princeton
(EUA), Pedro Meira Monteiro, estudioso da obra de Sérgio,
este é um bom momento para destacarmos a relevância
do trabalho do autor e aproximá-lo do leitor comum. A
obra de Sérgio Buarque de Holanda tem importância
ímpar principalmente em duas grandes linhas de interpretação:
a percepção de um legado ibérico da nossa
formação social, o que explica o lado personalista
do brasileiro, e a percepção de como o legado rural
nos atrapalha, pois não conseguimos estabelecer conceitos
de cidadania, afirmou.
Considerada a principal obra do autor, Raízes do Brasil
segue a trilha da tradição do movimento modernista,
que projetava redescobrir e reconhecer o Brasil. Nela, Sérgio
Buarque de Holanda propõe um estudo das características
formadoras da personalidade brasileira, por meio dos vínculos
com a cultura ibérica. Ele é o criador do conceito
do brasileiro como homem cordial: a lhaneza no trato, a
hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por
estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço
definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos em
que aparece, ativa e fecunda, a influência ancestral dos
padrões de convívio humano, informados no meio rural
e patriarcal, conforme trecho do livro.
De acordo com o professor de história da Unicamp e presidente
da comissão que homenageia o centenário do autor
na universidade, Edgar De Decca, a obra de Buarque de Holanda
surgiu inspirada nos tipos ideais do sociólogo alemão
Max Weber. Sérgio traça um painel histórico
da formação da sociedade brasileira a partir daquilo
que falta, que está ausente, ao tomar como modelo uma certa
idéia de capitalismo, de estado e de trabalho modernos.
O homem cordial é construído pela ausência
de uma ética do trabalho, pela ausência do protestantismo,
pela ausência do Estado, pela ausência de uma urbanização,
por fim, pela ausência de uma racionalidade típica
da modernidade capitalista.
Conforme Pedro Meira, que também é autor do livro
Queda do Aventureiro, que trata sobre o legado sociológico
de Raízes do Brasil, as homenagens a Sérgio Buarque
incluem o lançamento de um livro, organizado por Meira,
que compila cartas trocadas entre Sérgio Buarque de Holanda
e Mário de Andrade, entre 1922 e 1944. Elas tratam
de literatura, história e coisas pessoais dos dois pensadores.
São cerca de 30 cartas que mostram a evolução
do pensamento de cada um e o interesse de ambos em pontos em comum,
conta. No próximo ano, será lançada outra
publicação com o título Sérgio Buarque
de Holanda: novas perspectivas, também em comemoração
ao centenário. O livro trará 30 ensaios que
propõem um levantamento crítico da obra de Sérgio.
Nele agruparemos diversos pesquisadores, de gerações
e países diferentes, com perspectivas diferentes,
detalha Meira.
O professor é um dos defensores de que as homenagens ao
centenário do autor deveriam justamente trabalhar com a
crítica à obra de Sérgio. Muitas vezes,
as homenagens ocorrem no circuito pessoal, quase anedótico,
da família, dos amigos, ficando uma aura saudosista, o
que não cabe para um pensador como Sérgio Buarque.
A melhor homenagem é o questionamento das bases do pensamento,
mexendo no legado dele, pois o lado festivo é o lado anedótico,
explica o professor. Pedro Meira acredita que o próprio
Sérgio Buarque preferiria uma homenagem mais crítica.
Acredito que, se ele estivesse vivo, gostaria que fosse
assim, principalmente porque esse circuito festivo sugere justamente
a idéia do homem cordial, apresentado por Sérgio
e que representa uma crítica sobre o lado pouco impessoal
da personalidade do brasileiro, completou Meira.
| Bibliografia |
Antologia
dos poetas brasileiros na fase colonial.
Rio de Janeiro: Ministério da Educação
e Saúde/Instituto Nacional do Livro, 1952-53. 2v.
Caminhos e fronteiras. Rio de
Janeiro: J. Olympio, 1957.
Encontra-se na 3ª edição (1994).
Cobra de vidro. São Paulo:
Martins, 1944.
Elementos básicos da nacionalidade
o homem. Rio de Janeiro: Estado Maior das Forças
Armadas/Escola Superior de Guerra, 1967.
Expansão paulista em fins do
século XVI e princípio do século XVII.
São Paulo: USP/Faculdade de Ciências Econômicas
e Administração, 1948.
O Extremo Oeste (obra póstuma).
São Paulo: Brasiliense & Secretaria de Estado da
Cultura, 1986.
Monções. Rio de
Janeiro : Casa do Estudante do Brasil, 1945.
Encontra-se na 3ª edição (1990).
Raízes do Brasil. Rio
de Janeiro: J. Olympio, 1936.
Encontra-se na 26ª edição (1995).
Tentativas de mitologia. São
Paulo: Perspectiva, 1979.
Visão do Paraíso: os motivos
edênicos no descobrimento e colonização
do Brasil. São Paulo: Saraiva, 1958. Tese (Cátedra
de História da Civilização Brasileira)
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, Universidade
de São Paulo.
Em 1959 (torna-se livro, publicado pela editora J.Olympio).
Encontra-se na 7ª edição (1999). |
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