|

Em paz
com o uniforme
Depois
das passeatas pedindo o fim da obrigatoriedade, estudantes adotam
a marca das escolas como roupa ideal para as aulas
Luiz
Carlos Barbosa
A
camisa branca com gravatinha, calças e saias azul-marinho chegaram
a ser o martírio dos estudantes. Ícone de uma estética rebelde,
quando o jeans chegou ao Brasil, no final dos anos 60, e levava
simplesmente os nomes de Lee ou Lewis, embora fosse caro - aproximadamente
US$ 100 - era uma indumentária proibida no colégio. Nos anos 70,
a abolição do uniforme escolar chegou a ser bandeira de luta do
movimento estudantil secundarista e motivo de abaixo-assinados
e até greves. “Havia uma resistência bem forte. Tinha a ver com
aquele momento cultural, onde o uniforme representava uma sociedade
disciplinar, expressão de uma forma de homogeneização”, explica
a psicóloga Simone Bertoni, especialista no trato com jovens.
No fim destes
complexos anos 90, os jovens nem sabem desta história. Colocam
questões com sentidos muito mais pragmáticos e a ideologia está
longe da abordagem, apesar de se desnudar no próprio vocabulário
empregado. “É tri bom, antes era uma concorrência daquelas, cada
um queria vir para o colégio com a melhor roupa”, opina a estudante
Ana Coutinho. Ela só reclama do preço: uma calça de cotton custa
R$ 30 e um abrigo de moleton custa R$ 50. Aos 16 anos, Ana é aluna
do 3º ano do nível médio do Colégio Nossa Senhora das Dores,
no centro de Porto Alegre, onde o uniforme voltou a ser obrigatório
desde 1997.
Ana acrescenta
também que o uniforme representa segurança. “Assim a gente sabe
quem é do colégio”, esclarece. O uniformecontribui, por exemplo,
para evitar o ingresso de traficantes de drogas nas escolas.
“As escolas trabalham bem estes sentidos, a vantagem de não desgastar
as outras roupas e a identificação e segurança”, concorda Simone,
assinalando que hoje os uniformes são confortáveis e seguem os
mesmos padrões das roupas preferidas pelos jovens.
“A direção
do colégio pediu a nossa opinião, a gente desenhou sugestões
de roupas”, confirma a estudante Clara Corrêa, 16 anos, também
do Colégio das Dores. Da mesma forma depõem outros alunos da escola:
“é bom porque a gente economiza as nossas roupas”. “Mas devia
ser só uma camiseta, porque a gente que está no 3º ano tem outras
coisas para fazer à tarde e fica o dia inteiro com o uniforme
das Dores”, pondera Leonel Chaves, de 17 anos, avaliando o custo-benefício.
“No ano que vem a gente sai da escola. Ou dá o uniforme para
alguém ou usa para dormir”.
“Tênis, moleton
e jeans constituem o uniforme dos jovens, independente da escola”,
diz a psicóloga. Simone analisa que, por esses motivos, a exigência
do uniforme hoje não contraria os estudantes. Mais: revela que
quem vigia esta regra não é a escola, mas os próprios colegas.
“Tornou-se uma maneira de identificação, de enquadramento do
grupo em um momento histórico em que os jovens, mais do que nunca,
buscam essa identificação. Tanto é que o uniforme está sendo
usado fora da escola”, aponta Simone.
O Colégio
Sévigné, de Porto Alegre, uma das escolas mais progressistas,
que adota uma proposta construtivista, aboliu o uniforme para
o nível médio nos anos 60. Só foi mantido para a Educação Infantil
e até a 4ª série e para as aulas de Educação Física. Porém, é
possível encontrar vários adolescentes com a marca do Sévigné
nos moletons na porta da escola. “Antes era um uniforme único,
hoje há opções de cores, modelos e tecidos”, justifica a diretora
pedagógica da escola, Irene Gil. Ela informa que o uso do uniforme
s voltou a ser discutido, 30 anos depois.
|
As
grifes universitárias
Com
uma nova marca, lançada em julho passado, que assinala os
30 anos da Unisinos, o desenvolvimento de uma grife está
nos planos da Diretoria de Comunicação e Marketing da Universidade,
dentro das comemorações do aniversário que se estendem até
julho do ano 2000. “Mas por enquanto ainda não temos nada
tangível. Vamos esperar a formulação completa deste projeto.
Ainda estamos na fase de pesquisa para definir uma linha
de produtos. Claro que será de acordo com o perfil do público
estudante, seja ele mais jovem ou adulto, mas com uma cabeça
universitária”, resume a professora Sônia Haas, diretora
de Comunicação e Marketing da Unisinos. Atualmente, além
das pastas e produtos feitos pelos diretórios acadêmicos,
a Unisinos terceiriza a marca para a Unishop, uma loja instalada
no campus que vende alguns produtos como camisetas e moletons.
Quando
o novo projeto de comunicação da Unisinos estiver concluído
e a grife definida, deverão ser montadas duas boutiques,
uma junto à Estação do Trensurb em São Leopoldo e outra
no Espaço de Convivência da Biblioteca Central. “Não será
simplesmente uma loja. Este espaço de convivência encerra
o sentido do ambiente universitário da Unisinos, lugar
de aprendizagem, de relações de unidade e respeito ao próximo.
“A grife é um instrumento de comunicação, deve ter correspondência
com estes concei tos, tem de ser uma coisa sólida, para
valer, bem pensada. Usar uma marca no peito requer identidade
com os valores da instituição”, defende Sônia Haas.
Há um
ano, a Ulbra inaugurou uma loja no Shopping Iguatemi que
oferece de camisetas a CDs. “Esta loja é um centro de informações
e serviços da Ulbra e da rádio 107, em Porto Alegre, espaço
para inscrição no vestibular, cursos de extensão e doutorado.
É um canal de comunicação com o público em Porto Alegre”,
revela o jornalista Luiz Figueiredo, do setor de Imprensa
e Markenting da Ulbra.
A Fundação
de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faufrgs)
também montou uma loja no campus central da Ufrgs há um
ano, com o objetivo de divulgar a marca da Universidade
através de roupas e acessórios. Conforme a diretora administrativa
Sylvia Hofmeister, o objetivo é a divulgação da marca da
Ufrgs através de produtos de qualidade e com preços acessíveis
aos alunos. Na loja ao lado do bar do Diretório de Ciências
Humanas encontram- se, por exemplo, camisas pólo de manga
longa pela metade do preço do mesmo produto em butiques
de shopping. “Não temos finalidade comercial, o importante
é a divulgação da marca da universidade”, diz Sylvia, antecipando
que em novembro será inaugurada uma outra loja no campus
do Vale.
|
|