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Fim de
festa
Fiscalização
rigorosa pretende coibir venda de bebidas para menores nas escolas.
Oito em cada dez estudantes já beberam uma vez
Sandra
Hahn
Cinco entidades
públicas estão finalizando uma parceria que deverá limitar bastante
o acesso de crianças e adolescentes a bebidas alcoólicas no Rio
Grande do Sul. Liderados pela Coordenadoria das Promotorias da
Infância e Juventude, os organismos prometem fiscalizar com rigor
os comerciantes e punir os que venderem álcool a menores de idade.
Para agir de forma coordenada, redigiram um termo de compromisso
de integração. Quando estiver assinado, até o final de setembro,
o documento definirá a rotina de ação dos fiscais.
“É uma preocupação
com a saúde pública”, afirma a coordenadora das Promotorias da
Infância e Juventude, Júlia Martins. A promotora deu os primeiros
passos na direção de coibir a oferta de álcool aos jovens a partir
da denúncia do pai de um estudante em Porto Alegre. Ele ficou
surpreso ao saber que a sala de aula de seu filho de 11 anos tinha
sido visitada por promotores de uma festa estudantil. O evento
tinha como atrativo a bebida “liberada”. Júlia lembra que vender
para menores de idade substâncias capazes de causar dependência
é crime - antes era contravenção - desde a criação do Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA), há nove anos.
Mesmo assim,
a infração ao artigo 243 do ECA, que fixa a proibição, é bastante
comum (veja quadro). E agora será fiscalizada de perto. A operação
vai envolver as promotorias da infância e juventude, as promotorias
criminais, a Brigada Militar, a Secretaria Municipal daIndústria
e Comércio e o Departamento Estadual para a Criança e o Adolescente.
Apena para quem descumprir o artigo 243 é prisão de seis meses
a dois anos e multa. Os comerciantes que reincidirem no crime
poderão perder suas licenças de funcionamento.
Os adolescentes
têm tanta facilidade de comprar bebidas alcoólicas quanto de comer
um hambúrguer. O acesso sem restrições está refletido nos levantamentos
sobre consumo. Na capital gaúcha, 81% dos estudantes dos níveis
básico e médio já tinham ingerido álcool pelo menos uma vez,
conforme pesquisa feita em 1993. Outros 70% tinham feito uso nos
12 meses que antecederam a entrevista (veja quadro). “O álcool
está muito introjetado em nossa cultura”, aponta a psicóloga
Sílvia Koller. “Quem não bebe é assediado por quem bebe”, acrescenta
Sílvia, doutora em educação e professora do pós-graduação em Psicologia
do Desenvolvimento na Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande
do Sul).
A psicóloga
é contra a venda de bebidas alcoólicas e cigarros a menores de
idade e aplaude o rigor na fiscalização. “Beber socialmente não
é coisa para adolescente”, sustenta. Sílvia explica que o consumo
faz mal à saúde e o álcool relaxa a censura, estimulando atitudes
de risco (como sexo sem proteção, por exemplo). “Os adolescentes
têm senso de desafio. O álcool entra como forma de encorajá-los”,
descreve. A melhor saída para os pais, aconselha Sílvia, é falar
dos riscos aos filhos e fixar limites ao que eles podem fazer.
Além dos pais, o problema também intranqüiliza as escolas particulares
de Porto Alegre. Todas elas assinaram um documento enviado à
promotora Júlia Martins pedindo orientações sobre sua conduta
diante da exposição dos estudantes a bebidas alcoólicas. A promotoria
vai recomendar limitações à propaganda de bebidas nas festas
escolares e alertar para o crime da comercialização aos menores.
“O alerta
é justo”, afirma a presidente do Grêmio Estudantil do Colégio
Rosário, Patrícia Inglêz de Souza Machado, 16 anos. “O Grêmio
apóia diversas campanhas e, se for comunicado, também vai se
envolver nesta”, prevê. Para Patrícia, o cigarro está sendo
visto como algo ruim, mas o álcool é associado a festas e às vezes
encarado como diversão. “Fica mais difícil de demonstar os riscos
da dependência”, avalia. Algumas instituições de ensino já adotaram
limitações. Na Ufrgs, a venda de álcool nos bares foi proibida.
Na PUC (Pontifícia Universidade Católica), a comercialização
está vetada nos diretórios estudantis, mas liberada nos restaurantes.
A PUC criou há quatro anos o programa Vida com Qualidade, que
alerta para os riscos do consumo de drogas.
“A preocupação
com o álcool é grande, pois é lícito e abre a porta para outras
drogas”, afirma a pró-reitora de assuntos comunitários, Laury
Garcia Job. “A gente pensa que as pessoas sabem bastante sobre
Aids e álcool, mas elas têm muita dificuldade”, relata a pró-reitora.
Todos os calouros têm contato com o programa, que explica até
mesmo os detalhes legais de quem é preso portando drogas.
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Art.
243 aparece em 3º lugar
Denúncias
envolvendo crianças e adolescentes entre janeiro e julho
de 1999*
Classificação
.....................Nº de vítimas......................Tipo
penal
1º
lugar .....................................47 .................................Art.
214
2º lugar .....................................40 .................................Art.
244
3º lugar .....................................35 .................................Art.
243
*Número
de denúncias oferecidas em juízo entre 01 de janeiro e 30
de julho de 1999 pelas promotorias da infância e juventude.
Os dois primeiros artigos referem-se ao Código Penal (atentado
ao pudor e abandono material). O terceiro, ao Estatuto da
Criança e do Adolescente (venda de produtos que causam dependência
física ou psíquica a menores de 18 anos). Fonte: Centro
de Apoio Operacional das Promotorias da Infância e da Juventude
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Bebida
bate cigarro
Uso
de drogas lícitas entre estudantes (em %)**
Substância......
Uso na vida..... No ano....... No mês........ Uso
freqüente
Álcool
.................81,9 ..............70,6 .............49,2
.................20,3 Tabaco ...............31,7 ..............20,7
.............12,3 ...................5,9
**Alunos
de escolas públicas de Porto Alegre em 1993. O “uso na vida”
refere-se ao contato pelo menos uma vez com a droga. Fonte:
III Levantamento sobre uso de drogas entre estudantes do
1º e 2º graus em dez capitais brasileiras
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