|
Purpurina
da pura
Cheguei do
Canadá com vários potes de um gel com purpurina que comprei a
um dólar canadense cada, que é “igual que nem” o nosso real. Então,
depois que cortei o cabelo assim curtinho, decidi fazer uma máscara
de purpurina na forma do cabelo. Assim acompanhando o corte feito
uma touquinha brilhante. Sempre combinando com a roupa de cena.
Virou figurino e cenografia já que luz e purpurina se entendem
muito bem. Pois bem, não é que agora, muitos realces depois, me
vejo em Porto Alegre para apresentar o espetáculo; qual não foi
a minha surpresa: onde está a minha purpurina vermelha gel? Deixei
no Rio. No outro segundo, tive uma idéia genuinamente brasileira
que era ao mesmo tempo uma solução já que esqueci a canadense
no Rio, faço outra com as próprias mãos: comprei gel nosso e purpurina
na papelaria. Misturei no camarim, sem ensaio, e fez sucesso
absoluto aquele brilho. Parecia até brilhar mais que a canadense,
disse minha alma brasileira obssessiva e ufanista.
Voltei de
Porto Alegre e desembarquei praticamente direto para outro ofício;
dar aulas para professores do Leia Brasil.
Quase sem
dormir, entre o aeroporto e o Trapiche das Artes onde funcionaria
o curso, banheime com amor, porém rápido e exagerando no xampu
na cabeça. Porque a cena era externa dia. Me vesti meio tonta
mas com a lucidez racional de enfiar-me num figurino sóbrio. No
que o inverno ajuda. Pensei em me disfarçar quase, em verdade.
Então achei uma camisa de seda listada abotoada por mim até o
ponto final do pescoço, longa e larga, discretissimamente transparente,
sobre uma calça preta comprida. Estava bem: era uma professora
discreta sem pernas de fora, como é do feitio de minhas pernas
exporem-se, e sem decotes ainda por cima. Nota dez com louvor.
Cheguei. Havia
professores de todas as tribos, uma contadora de histórias e
outra redatora de TV. Era o primeiro dia de aula. Fui bem; fomos
bem. Os alunos apenas me olhavam com olhos arregalados no primeiro
momento. Nos depoimentos de auto apresentação, contrapunham suas
personalidades à minha, em sua maioria: “olha, eu não sou excêntrica
como você mas escrevo, leciono, alfabetizo, falo poesias etc etc”.
Eu pensava, sem me deter em reflexões profundas: excêntrica?
Eu? Como? Por quê? Meu disfarce não deu certo? Engraçado: acho
que sou eu que sou espalhafatosa na essência. Estou tão discreta
hoje.
A coisa rolou
bem até o final do dia.
Fui à sala
do chefe depois falar com ele, Jason. Parabenizá-lo pelo belo
espaço no Trapiche, pela ousada bela idéia dele comprar esse
antigo galpão lá no Santo Cristo, para dar um destino de cultura
nele. Pedi pra usar o espelho da sua sala, para retocar amaquiagem,
pois dali um outro ofício na Fundição Progresso me esperava. Enquanto
eu passava rímel ele me dizia: “Elisa, cortei os cabelos pra
te copiar (eram longos e com rabinho, anteriormente), só não
copiei a purpurina...”
Que purpurina?
Eu perguntei atônita.
“Essa vermelha”,
ele respondeu.
Por um momento
quis morrer. Sol quente, dia azul e eu dera cinco horas de aula
achando que enganara a todos, que era discreta. Por isso, “excêntrica”.
Uma da tarde e purpurina vermelha incandescente no cabelo! Não
há figurino discreto que agüente. Fiquei pasma. Havia usado o
xampu destruidor de purpurina, o que teria acontecido?
Fiz foi um
arranjo brasileiro: fabriquei a mistura e depois me disseram
que a de papelaria é outra. E cola na cabeça. Que o Brasil já
fabrica essa mistura igualzinha a do Canadá, que é ótima. Que
eu nem precisava ter feito isso...
Meu Deus,
qual é a lição?
A primeira
é que tentar disfarçar a si mesmo não é boa coisa. É trair senão
a Jesus, pelo menos a Leminsky: “esse negócio da gente querer
ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além”.
Ridícula eu,
a essa altura da vida pensando em parecer outra. Lembrei-me de
uma vez numa ceia de natal em Vitória na casa de uma amiga executivíssima.
Havia uma mesa com vários pratos e um arroz branco, normal, só
que na forma de um pudim. Era um arroz fantasiado de pudim. Mas
havia também outros arrozes em suas usuais tigelas e que foram
comidos vorazmente. No final, esse com cara de pudim parecia
uma noiva ainda virgem depois do casamento. Coitado. Viera vestido
de outro, não de si. Talvez nem tenha sido reconhecido como arroz.
Eu tinha sido
aquele arroz. Quis ter parecido ser outra. Agi como se não me
fosse normal purpurina de manhã, na cabeça, como se isso não fosse
ser eu. Como se não me fosse belo isso, como se não brilhassem
as idéias naquela tarde e não fosse minha cabeça por fora, a
metáfora desse dentro.
Retrógrada
eu, autocensurada e ainda perdedora na na fracassada estratégia.
Me disseram
depois que essa purpurina de papelaria não sai nem sozinha,
que dirá misturada com gel...
Gostei na
verdade que o que me traiu tenha acabado por me revelar.
Todos gostaram
da aula, do que eu disse, do que estudamos, do que experimentamos
e de mim.
Talvez alguns
achem até que todo mundo deveria sair de casa com purpurina na
cabeça. Graças a Deus, há alguém em mim que me trai para eu não
me trair.
* Elisa
Lucinda é atriz e poeta
|