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Paixão
Côrtes
Descobrimos
o gaúcho social
Duas visões
diferentes do gaúcho e duas trajetórias distintas descritas por
dois homens cujas carreiras estão diretamente ligadas à figura
do gaúcho. De um lado, João Carlos D'Avila Paixão Côrtes, precursor
do tradicionalismo e um dos responsáveis pela manutenção da imagem
mítica do centauro dos pampas. Do outro, Vítor Ramil e o que ele
mesmo chama de “estética do frio”, proposta em que o escritor
e compositor procura traduzir esse mesmo gaúcho sobre uma outra
ótica, negando, de certa forma, o estereótipo tradicional. Em
comum, ambos trilham seus caminhos de forma independente, à margem
da estrutura da indústria cultural. Nas entrevistas a seguir,
cada um deles fala do seu trabalho, de sua trajetória e, principalmente,
da busca da identidade deste gaúcho
César
Fraga
Extra
classe - O que levou o senhor, então com 19 anos, e o Barbosa
Lessa, com 16, dois estudantes do ginasial do Colégio Júlio de
Castilhos em Porto Alegre, irem a campo pesquisar sobre a identidade
do gaúcho numa época em que o conceito de tradicionalismo não
existia e a definição de folclore ainda era muito vaga?
Paixão Côrtes
- Na verdade, nenhuma das duas primeiras palavras - tradicionalismo
e folclore - estava dicionarizada. Pelo menos para nós (risos).
Em 1947, o próprio termo antropologia era desconhecido para nós,
pois era de uso restrito dos eruditos. Nunca tivemos a pretensão
da antropologia. Nossa pesquisa era de cunho popular, da busca
do linguajar, da vestimenta, da música e dança campesinos do nosso
estado.
EC - Dá
para dizer que o senhor e o Barbosa Lessa são os inventores do
tradicionalismo?
Paixão - Não,
nós não temos a pretensão disso. Antes de nós já havia registros
de estudiosos que, inclusive, serviram como base para a nossa
pesquisa. Mas tratava-se de historiadores e escritores que falavam
dos feitos do gaúcho mítico, do guerreiro, do centauro dos pampas.
Só o que existia era a história farroupilha e a história das revoluções.
O que restou foi o registro oral de memória, de que nós saímos
à cata. Na verdade, eu diria que nós iniciamos um novo ciclo.
EC - E
como vocês faziam esta pesquisa? Qual sistemática utilizavam?
Paixão - Nós
arrolávamos todas as informações que conseguíamos. Depois disso
selecionávamos e registrávamos tudo, de forma que as cantigas
e danças pudessem ser executadas a partir desse registro. Dos
depoimentos eram registradas as partituras e os passos de dança.
Assim, não nos contentávamos com o registro literário. Queríamos
garantir que a partir daquele material se pudesse cantar e dançar
aquelas peças. Buscávamos a fonte, selecionávamos o material,
registrávamos e transmitíamos adiante. Só isso.
EC - Dependia-se
muito da memória das pessoas. Qual era o procedimento?
Paixão - Eu
e o Lessa recebíamos a informação de que em determinada cidade
havia uma pessoa, geralmente já idosa, que sabia cantar e dançar
determinado ritmo. Pegávamos as malas e íamos procurar a tal
pessoa. Dependíamos exclusivamente da memória delas. Muitas
vezes não tínhamos qualquer referência. Então, já perguntávamos
logo pelos habitantes mais idosos. A forma do registro era simples.
Perguntávamos: o senhor, ou a senhora, poderia cantar e dançar
a tal música? Registrávamos tudo por desenhos e partituras. Isso
só ficou mais fácil depois que conseguimos uma máquina de gravar
emprestada.
EC - Qual
era a reação?
Paixão - Era
de espanto (risos). Todos se perguntavam por que jovens como
nós viviam procurando por velhos. Outros, muito desconfiados,
achavam que estávamos atrás de algum tesouro escondido (mais risos).
Era preciso conquistar a confiança das pessoas para conseguir
que elas, geralmente entre os 60 e os 80 anos, cantassem e sapateassem
em uma época de plena proliferação da cultura norte- americana.
EC - Qual
era o cenário da cultura gaúcha no pós-guerra?
Paixão - Era
o auge do pan-americanismo. Para se ter uma idéia, se um camponês
saísse de casa em direção à cidade, carregava uma muda de roupas
para substituir as bombachas quando fosse chegar. Se não fizesse
isso era visto com maus olhos. Era considerado um cidadão de
segunda classe. O próprio chimarrão, na cidade, era consumido
apenas dentro da residência e longe das janelas. Enquanto o modernismo
estava na ordem do dia, um grupo de jovens secundaristas saía
na busca de suas raízes.
EC - E
vocês chegaram a uma imagem clássica do gaúcho, que praticamente
não existia no imaginário popular.
Paixão - O
gaúcho sempre existiu como o tal centauro dos pampas, o monarca
das coxilhas ligado a um fato épico, histórico e político, e não
mais do que isso. Mas esta é uma figura poética que surgiu para
se transformar em um símbolo. E símbolos são importantes para
que se mantenha a identidade do povo. Só que esta imagem já existia.
O que fizemos foi recuperá-la e dar-lhe uma outra dimensão. Até
então, o aspecto social e recreativo era totalmente desconhecido.
Era Boi Barroso, Prenda Minha e estamos conversados. Encerrou-se
o repertório musical e coreográfico do Rio Grande. Havia os registros
do Cezimbra Jacques e do Simões Lopes Neto, tinha ali O Balaio,
por exemplo. Mas como se dança? Como se canta? Ninguém sabia
e fomos descobrir isso na memória das pessoas comuns. Isso ocorreu
também com O Pezinho e tantas outras. O que eu quero dizer com
tudo isso é que não existe um gaúcho. Existem várias figuras representativas
nesta concepção generalizada de gaúcho. Todas as influências
étnicas, regionais e sociais vieram contribuir para a formação
desses gaúchos. O homem campeiro não fala em monarca ou centauro.
Talvez nem saiba o significado dessas palavras. Ah, o seu Centauro
não mora aqui, não senhor. Deve ser de outro rincão (risos). Entende?
Essas expressões e analogias são coisas de escritores que estiveram
ou viveram no estado.
EC - Essa
visão de gaúcho apregoada pelo movimento tradicionalista não seria
muito conservadora?
Paixão - Atradição
deve ser conservada, mas isso não significa que deva estagnar-se.
Só que esta conservação deve ser feita com responsabilidade e
documentação, e não com mentiras. Afinal, estamos falando de um
movimento tradicionalista e não de um estanque tradicionalista.
EC - Como
o senhor vê as leituras estilizadas da dança e música gaúchas,
fundindo-se com outras culturas?
Paixão - Ninguém
pode interferir na liberdade criativa das pessoas. Isso seria
fascismo. Só que é preciso ter cultura para desenvolver um trabalho
que não perca a sua linha fundamental. Eu próprio já gravei com
a Orquestra Sinfônica de São Paulo e o que se ouvia era um trabalho
totalmente identificado com a cultura gaúcha. Sensibilidade e
conhecimento são fundamentais para que não haja distorções. Tem
gente que está brincando com o folclore e com o tradicionalismo.
É o tal do cidadão que não tem o que fazer e de repente vira gaúcho.
O que não se pode admitir é que algumas pessoas se fantasiem de
gaúcho e tomem atitudes de palco e de composição completamente
desvinculadas das características regionais, se dizendo tradicionalistas
e autores de música gaúcha. É tchê isso, tchê aquilo. Entende?
Estas manifestações surgem de exigências de mercado e da dificuldade
de veiculação da arte verdadeiramente popular na mídia.
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