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Vítor
Ramil
Somos estereótipos
César
Fraga
Extra Classe
- Teu último trabalho, o CD Ramilonga, mostra uma independência
crescente em relação aos conceitos tradicionais do gauchismo.
Tu te consideras um artista na contramão dessa tendência?
Vítor Ramil
- Com o Ramilonga eu quis enfrentar sim o estereótipo do gauchismo.
Eu sempre achei que a milonga era uma música muito sofisticada
para ter o tratamento rude que sempre teve na nossa música regional.
Então eu quis fazer isso, um trabalho sofisticado e ao mesmo tempo
leve, em que encontrei a minha própria linguagem.
EC -Essa
visão pessoal das coisas não te transforma em um artista de gueto
cultural?
Vítor - Sabe
que para mim é muito positiva a maneira como estão as coisas hoje?
Se por um lado o capitalismo perdeu qualquer possibilidade de
romantismo, por outro lado a evolução tecnológica proporcionou
a independência das pessoas. Hoje em dia as palavras marginal
e alternativo já perderam o sentido. Estes termos ficam melhor
associados a um período em que não se podia fazer as coisas porque
não se tinha acesso aos meios de produção. Hoje os trabalhos que
não se enquadram nos padrões de mercado encontraram seu espaço.
Há artistas que fazem discos impressionantes em casa, e com qualidade.
Ou seja, o padrão de qualidade mínimo que se tem já é excelente.
Na década de 80, eu não tinha a opção de ser um independente
de nível e acabava trabalhando com gravadoras multinacionais,
as chamadas grandes gravadoras que me davam condições de fazer
o que eu queria.
EC -Tu
és um artista nitidamente influenciado pelo escritor argentino
Jorge Luis Borges. Isso que as gravadoras rotulam como difícil
para o mercado não tem a ver com a qualidade do texto, da música
e das referências literárias?
Vítor - Certamente.
Borges foi um dos primeiros autores que eu li, por volta dos
13 anos. Eu nem entendia direito, mas já era fascinado por aquele
universo do pampa. Eu sabia que aquilo era bom e fui lendo, relendo.
Quando passei a entender, gostei ainda mais. Eu me identifico
bastante com esta coisa da busca de uma personalidade própria.
No que se refere à indústria cultural, isso atrapalha, muitas
vezes ela não sabe o que fazer com determinados artistas.
EC - O
disco novo aprofunda essa linguagem tradicional sob uma ótica
urbana, cultural?
Vítor - Digamos
que é o meu trabalho próprio pós-Ramilonga. Tudo o que eu consegui
desenvolver em termos de linguagem no Ramilonga pretendo aplicar
em um trabalho mais pop. Quer dizer, pop não é bem a palavra.
É que o Ramilonga tinha um apelo bastante regional e este trabalho
terá outras texturas. Será um disco bastante plácido como se
fosse um discode milongas, só que com canções que não são milongas.
Vai ter mais ritmo, percussão. É o que chamo de estética do frio.
Pela primeira vez eu vou tentar realizar isso em termos de música
brasileira, e não tão regional. O que pretendo é aplicar alguns
valores estéticos extraídos da nossa identidade regional nessas
novas canções.
EC - Quais
seriam estes valores?
Vítor - Concisão,
leveza, precisão, clareza, profundidade.
EC - Tem
bastante das propostas de Ítalo Calvino para o próximo milênio.
É isso mesmo?
Vítor - É
isso mesmo. Inclusive, estou escrevendo um texto sobre a estética
do frio em que eu cito o Calvino quando ele diz: É preciso olhar
as coisas sob uma outra ótica, um outro ponto de vista. Ele argumenta
que o que é novo na tua vida é leve. Na medida em que esta coisa
vai se sedimentando, passa a adquirir peso. Mas se isso for observado
por outra ótica, passa a recuperar a leveza. E o que eu fiz foi
isso: observar este gauchismo sob uma outra ótica, para que essas
referências voltassem a adquirir leveza. Este gaúcho pilchado
da cabeça aos pés, esse gaúcho que é peça de museu, não é uma
marca de identidade nossa. Isso está presente no nosso imaginário
devido ao tempo em que ele nos é sugerido. Mas certamente ele
não é uma imagem total da nossa identidade.
EC - O
teu primeiro livro, Pequod, foi vencedor do prêmio Açorianos na
época de seu lançamento (1996). O teu próximo projeto em literatura
também abarca o regional?
Vítor - Na
verdade a música tem um sentido de urgência muito maior. Eu não
consigo me imaginar com 80 anos fazendo música, mas escrevendo
sim. Outro dia um japonês que faz acupuntura me disse (imitando
o jeito oriental de falar): “Escrevendo livros também? É bom.
Tem trabalho até morrer, né?” (risos). Mas de qualquer forma,
o livro que eu devo finalizar primeiro se chamará Satolep, em
que escreverei uma ficção para cada foto. As fotografias são de
1922, em Pelotas. Ou seja, será um instantâneo literário para
cada instantâneo fotográfico. Na verdade são as minhas velhas
fixações de infância, no meu universo de sempre que é o pampa.
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