|
Anistia?
Que anistia?
Passados
20 anos da primeira tentativa de conciliação nacional,
muitos excluídos
ainda reclamam seus direitos usurpados pela ditadura
Márcia
Camarano
Não.
A música Charles Anjo 45, de Jorge Ben, não é uma homenagem póstuma
ao guerrilheiro escondido nos morros do Rio de Janeiro. Porque
ele está bem vivo. Sobreviveu às perseguições e hoje leva uma
vida pacata em Porto Alegre. Seu verdadeiro nome é Avelino Capitani.
No dia 18 de agosto ele completou 59 anos (a vida que levou se
reflete nos traços do rosto, já que aparenta muito mais). Asala
da casa onde mora - uma doação de familiares - quase não tem móveis.
Apenas dois sofás e uma mesinha para a TV. Foi decorada com balões
para celebrar a data. Uma exigência que a filha Juliana, de cinco
anos, fez à mãe, Teresa, mulher de Capitani. O presente? O que
ele mais queria era ser incluído no rol dos anistiados, que completaram
20 anos de retomada dos direitos civis e políticos no final de
agosto. Ele e outros 400 companheiros ainda não sabem o que é
isso.
A história
do marinheiro Avelino começou em 1960, no início de uma década
polarizada por duas correntes: a esquerda nacionalista e a direita
conservadora. Essas eram as expressões da época. Gaúcho de Lajeado,
Capitani ingressou na Marinha aos 20 anos. O colono do interior
foi direto para o Rio de Janeiro. Dois anos depois, era criada
a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais que tinha como
reivindicações o direito ao casamento, o fim do livro de castigos,
o direito a andar como civil em casa. A Marinha se negou a conceder
esses direitos sociais e, sem muita saída, a Associação acabou
se alinhando às chamadas forças nacionalistas.
O que veio
depois é uma história pouco narrada nos livros oficiais, mas
ainda presente na memória de seus personagens. “À tardinha, no
dia posteior ao golpe militar, dez mil soldados estão a postos
para atacar três mil marinheiros, aquartelados, com tanques e
canhões; se aproximando do Rio, mais 50 mil soldados vindos de
São Paulo”, recorda.
Capitani estava no comando do movimento e viu homens chorando
com a iminência da morte.
Como revanche
à ousadia dos marinheiros, veio a perseguição às lideranças do
movimento. Ao todo, 1.509 homens foram expulsos e processados;
400 foram condenados. A soma total das penalidades chega a 13
séculos de prisão, 1.300 anos, “a maior pena coletiva da história
do Brasil”. A Marinha, além disso, mandou ofício circular para
todas as empresas brasileiras proibindo dar oportunidade de emprego
aos condenados. Sem alternativa de vida, muitos se refugiaram
no interior, outros foram viver de biscate. E uma outra parte,
onde
Capitani se
inclui, caiu na clandestinidade. Capitani foi preso, fugiu, se
asilou no Uruguai e fez treinamento de guerra em Cuba. De volta
ao Brasil, clandestino, participou da Guerrilha de Caparaó -
o primeiro foco guerrilheiro no Brasil. Foi mais ou menos nessa
época que surgiu o codinome que o acompanhou por um bom tempo
de sua vida: Charles Anjo 45.
O nome de
guerra era Charles porque ele era loiro, parecendo um europeu.
Anjo porque numa das penitenciárias foi atendido por um grupo
de estagiárias de assistência social que o apelidaram de anjo
loiro. E 45... bem, porque na guerrilha ele usava uma pistola
45.
Quando foi
ferido, o anjo loiro subiu o morro para escapar do cerco. Na
fuga, foi ajudado por moradores da favela, mas deixou um rastro
de sangue. “Como eu desapareci, pensaram que eu estava morto.
Daí o Jorge Ben fez a música”, relata. Capitani viveu clandestinamente
até a promulgação da lei da anistia, em 28 de agosto de 1979.
Só que a lei não o beneficiou.
Na verdade,
Avelino Capitani não foi anistiado até hoje. “A Marinha sempre
negou anistia aos marinheiros. Ela eternamente recorre na Justiça
de um processo que ainda está em andamento”, reclama. Capitani
foi anistiado dos crimes políticos, mas pleiteia seus direitos
profissionais e a reintegração às suas funções. “Todos os políticos
e comandantes estão anistiados; os marinheiros condenados, não.
Os torturadores, inclusive os meus, estão anistiados; eu, torturado,
não”. Em virtude disso, Capitani nunca conseguiu se aposentar
e vive de trabalhos esporádicos.
Dos 1.509
marinheiros expulsos e condenados, cerca de 800 pediram incursão
na lei da anistia (os outros morreram ou estão desaparecidos).
A metade dos 800 conseguiu ser anistiada, outra metade ainda
luta na Justiça. “Não sei se vou conseguir. Só faltam os marinheiros
serem anistiados, nós somos perseguidos políticos até hoje”.
|
"Respirávamos
autoritarismo"
Primeira
presidente do Movimento Feminino pela Anistia no Rio Grande
do Sul, Lícia Peres era estudante de Ciências Sociais na
Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). O ar
que se respirava na época era o do autoritarismo. “Não
havia liberdade de expressão, a gente podia ser processada
por crime de opi-nião”, lembra.
Proibido
pensar, proibido fazer política. E lá se vão Brizola, Miguel
Arraes, Francisco Julião, o sociólogo Betinho, o comunista
Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra, o educador Paulo
Freire. A censura corria solta. Uma vez, Lícia e Mila foram
ao temido Dops (Departamento de Ordem Política e Social)
para buscar a atriz Ruth Escobar, que tinha sido presa por
ter lido no palco um manifesto pela anistia.
Se em
São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns desenvolveu papel importante
na luta pela anistia, o mesmo não se pode dizer da Igreja
no Rio Grande do Sul. O comitê liderado por Lícia e Mila
chegou a visitar o cardeal Dom Vicente Scherer para expor
os motivos do mo-vimento. “Não conseguimos nada com ele”,
conta Lícia.
Em 1976,
Lícia acompanhou o marido em uma visita a Leonel Brizola,
exilado no Uruguai. Foi a primeira vez que ela viu o ex-governador.
“Brizola sempre esteve ligado ao Brasil e demonstrava uma
enorme vontade de voltar”, conta. A gana de voltar manifestada
pelos exilados foi alimentando o movimento a tal ponto que,
em 1978, já existia o Comitê Brasileiro pela Anistia.
|
|