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Lar, doce
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Entidades
denunciam péssimas condições dos presídios
brasileiros e surgem respeito aos direitos humanos dos detentos
Sandra
Han
O
sistema prisional brasileiro tem trágicas passagens para recordar.
Uma delas completa sete anos em outubro, quando 111 presos foram
mortos na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo, no dia
2. A justificativa da polícia: conter um motim. Mas mesmo se episódios
como este nunca tivessem acontecido, as penitenciárias não teriam,
de modo geral, muito o que comemorar. O mais recente relatório
da Human Rights Watch, entidade que investiga os direitos humanos
em mais de 70 países, classificou de “assustadoras” as condições
carcerárias encontradas no país. Esse relatório foi um dos documentos
usados pelo deputado federal Marcos Rolim (PT-RS) para escrever
as “Garantias e regras mínimas para a vida prisional”, que pretende
ser uma salvaguarda dos direitos dos presos e fixar normas para
a vida na cadeia. O trabalho foi entregue em junho passado ao
governo estadual e está sendo debatido entre os administradores
das prisões. A Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe)
fará um encontro em setembro para ouvir dos delegados regionais
as críticas ao projeto original. Todos os estabelecimentos penais
receberam uma cópia do texto em agosto, para que ele fosse debatido
exaustivamente. “O deputado sistematizou um conjunto de propostas
que o governo já tinha”, observou o superintendente de serviços
penitenciários, Airton Michels.
O parlamentar
redigiu 93 artigos para normatizar a vida na cadeia. Algumas regras,
como admite Rolim, vão
gerar resistências. Uma delas deverá ser a retirada das armas
dos presídios. De acordo com a proposta, as armas não poderão
ser portadas nem armazenadas no interior da penitenciária. Seu
uso está condicionado à autorização da Vara de Execuções Criminais.
“É um excesso de repressão e além disso aumenta a insegurança,
pois num motim os presos podem tirar as armas dos agentes”, avalia
a diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, Regina
Vargas. Dispensável dizer que ela é favorável à idéia. Regina
acrescenta que em países europeus esta medida já está em vigor.
A Anistia considera o projeto “um grande avanço” na reforma do
sistema prisional brasileiro.
Além dessa,
outras sugestões também prometem gerar polêmica. Uma delas é
a escolha de representantes dos presos, numa espécie de eleição
interna. Os eleitos terão mandato de um ano e ficarão encarregados
de falar em nome dos internos com autoridades, negociar a manutenção
das garantias e acompanhar as revistas nas celas. O sistema tinha
sido implantado durante o governo Alceu Collares (1991/ 1994),
mas foi cancelado na administração Antônio Britto (1995/1998).
“Aidéia é boa, mas temos que discutir os critérios dessa escolha”,
comenta Michels, que vê na proposta o risco de produzir uma
“falsa democracia”.
Muitas propostas
descritas por Rolim já são realidade. Uma delas é o sigilo da
correspondência, que foi garantido pelo governo estadual em junho
deste ano. Desde então, se uma encomenda é considerada suspeita
ela é aberta na presença do destinatário. Outras “garantias”,
contudo, seguem sendo desrespeitadas, embora sejam consensuais.
A revista íntima, que obriga os visitantes a tirar a roupa e
exibir seus órgãos genitais, continua existinCena de um presídio
no estado: discussão do. A Susepe promete para breve uma solução.
Em sua proposta, Rolim determina que os presídios devem submeter
todos os visitantes a detetores de metal e, em casos excepcionais,
admite a revista íntima feita por profissional da saúde. O visitante
pode se negar a passar por ela, mas não poderá entrar na prisão
nesse dia.
Especialistas
em direitos humanos afirmam que não são necessários investimentos
pesados para dar condições dignas aos presos. A Human Rights
Watch fez várias sugestões em seu relatório “O Brasil atrás das
grades”, que foi divulgado no primeiro semestre. A entidade propõe
o controle da brutalidade dos agentes penitenciários e policiais,
combate à superlotação e melhora nas condições gerais dos presídios,
entre outros itens. A organização lembra que o Brasil não tem
um único, mas vários sistemas prisionais com características bem
distintas. Asoma deles forma um dos dez maiores complexos penais
do mundo, com 170 mil detentos para uma capacidade instalada
(em 1997) de 96.010 vagas.
Em outro trabalho
que analisa as prisões brasileiras, a Anistia Internacional
recolheu impressões parecidas com as da Human Rights Watch. Divulgado
em 23 de junho, o estudo intitulado “Brasil: Aqui ninguém dorme
sossegado” afirma que a tortura e os maus-tratos são práticas
generalizadas nas delegacias de polícia e prisões.
Na maioria
dos estados as delegacias abrigam presos condenados - quando
deveriam servir para reclusão temporária. Esta é uma característica
que coloca o Rio Grande do Sul em vantagem em relação a outros
estados, pois não há detentos nas delegacias. Mas como observa
o “Relatório Azul”, feito pela Comissão de Cidadania e Direitos
Humanos da Assembléia em 1997, esta qualidade não pode mascarar
os problemas locais. O próprio relatório cita diversos casos
de desrespeito aos direitos humanos no sistema carcerário estadual,
onde há 13 mil presos e uma capacidade para 10.060 vagas, conforme
a Susepe.
Os dados do
sistema prisional gaúcho não são comparáveis aos brasileiros
por causa de diferença metodológica. O censo penitenciário nacional
traz itens que não são utilizados aqui e vice-versa. O perfil
dos presos gaúchos, atualizado periodicamente, está sendo armazenado
em um computador da assessoria de planejamento da Susepe (veja
quadro), que consegue monitorar as mudanças da população carcerária
ao longo do tempo.
Entre 1990
e 1998, por exemplo, este contingente cresceu em média 64,93%,
na comparação dos meses de novembro emdezembro, sempre cai um
pouco devido aos indultos. Há 87 estabelecimentos penais no Estado,
sendo que o Presídio Central de Porto Alegre vive a pior situação.
No relatório da Human Rights Watch ele é um dos três que devem
ser renovados ou demolidos, segundo recomenda a organização.
As novas penitenciárias
não têm a dimensão das casas construídas há algumas décadas.
A Anistia menciona em seu documento que o governo federal reconheceu
a dificuldade de controlar
cadeias de grandes proporções. As novas estão sendo erguidas
de acordo com padrões sugeridos pela ONU (Organização das Nações
Unidas), com tamanho adequado para cerca de 600 presos. O número
está bem distante de estabelecimentos como o complexo penitenciário
do Carandiru, onde há 7 mil detentos. Pelo menos nesse aspecto,
o país já demonstrou sensibilidade às recomendações da ONU. O
próximo passo talvez seja garantir os direitos humanos dos presos.
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Propostas
para uma vida mais digna
- Eleger
reprseentantes
-
Ter televisão, rádio, ventilação
e instrumento musical em sua cela
-
Receber, consumir e guardar alimentos em sua cela
-
Ter contatos íntimos com parceira (o) estável
(termo definido no projeto, sem especificar sexo)
-
Receber por escrito informações precisas sobre
sua situação jurídica
-
Tomar banho uma vez por dia
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Quem
são os presos gaúchos?
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Raça
|
%
|
|
Brancos
|
66,7
|
|
Negros
|
13,5
|
|
Mistos
|
14,6
|
|
Outros
|
4
|
|
Escolaridade
|
%
|
|
1º
Grau Incompleto
|
44
|
|
1º
Grau Completo
|
17,4
|
|
2º
Grau
|
2,8
|
|
Superior
|
0,8
|
|
Os
crimes cometidos no estado
|
|
Tipo
|
%
|
|
Roubo
|
28,7
|
|
Homícidio
|
17,4
|
|
Furto
|
14,2
|
|
Crimes
sexuais
|
10,4
|
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