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O Mercador
de Veneza e o lucro dos bancos
Eduardo
Capellari *
Um dos momentos
mais belos da literatura clássica ocidental encontra-se
na comédia O Mercador de Veneza de William Shakespeare,
escrita em 1574, onde, além dos amores de Bassânio
e Pórcia, Graciano e Nerissa, Lourenço e Jessica,
encontra-se o conflito entre o banqueiro Shylock e o mercador
Antônio em relação à um empréstimo
cuja letra vencida estipulava como multa uma libra de carne junto
ao coração do mercador.
O núcleo central da comédia, que desenvolve-se perante
o Tribunal de Veneza, expressa a profunda discordância entre
a visão de mundo do mercador, entre cujas virtudes encontra-se
a de emprestar dinheiro sem cobrar juros, e a do banqueiro que
aumenta sua riqueza com a prática da usura.
Shakespeare provavelmente não trataria desse tema em uma
comédia se estivesse a produzir sua obra em fins do século
XX, e muito menos ainda se acompanhasse os crepúsculos
do milênio no Brasil.
O Brasil, esse gigante latino-americano que tem sido capaz de
provar que as fronteiras do impossível estão muito
aquém da nossa vã imaginação, produziu
no primeiro semestre de 1999 mais uma aberração
graças ao "talento" de nosso governo federal:
com a desvalorização cambial e a elevação
dos juros o lucro acumulado dos 15 bancos que divulgaram os balanços
deste período passou de R$ 94,45 milhões (1º
semestre de 1998) para R$ 2,56 bilhões (lº semestre
de
1999), com uma evolução de 1217%.
Somente o Itaú lucrou R$ 1,09 bilhões e o Bradesco
R$ 460,6 milhões, faltando ainda a divulgação
de importantes bancos estrangeiros que atuam no Brasil.
Segundo Erivelto Rodrigues da Consultoria Austin Assis tal fenômeno
financeiro pode ser visto com uma grande transferência de
riqueza, pois muito do que o governo pagou a mais nos títulos
da dívida pública, que estavam atrelados ao dólar,
foram parar no cofre dos bancos.
Essa, porquê não dizer, brutal transferência
de riquezas, tem sido possível graças ao "contrato"
entre a oligarquia dos coronéis e o baronato financeiro
que produziu Femando Henrique Cardoso, que no intuito de levar
o Brasil ao "mundo moderno" tem sido capaz de sacrificar
seu sistema produtivo pela ausência de política industrial
e agrícola em privilégio de um modelo que coloca
o país de joelhos em relação à "bondade"
do sistema financeiro mundial, concentrando renda, desempregando
e condenando as gerações de brasileiros a vagarem
pela imensidão da exclusão social.
A tragédia dessa realidade está no fato de não
termos nenhuma Pórcia, travestida de doutor em Direito,
para afirmar a necessidade de regras, regras que estabeleçam
limites éticos à cobiça e à ganância.
Estará para sempre na comédia de shakespeare a grande
sentença, quando nas palavras de Pórcia, na iminência
de Shylock cortar a libra de carne do peito de Antônio,
profere: um momentinho, apenas. Há mais alguma coisa. Pela
letra, a sangue jus não tens; nem uma gota. São
palavras expressas: "Uma libra de carne". Mas se acaso
derramares, no instante de o cortares, uma gota que seja, só,
de sangue, teus bens e tuas terras todas, pela lei de Veneza,
para o
Estado passarão por direito.
O que falar diante das gerações de brasileiros que
perderam e perdem seu sangue diante da ganância financeira?
*Eduardo
Capellari é mestrando em Direito pela Universidade Federal
de Santa Catarina, em Florianópolis - SC.
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