|
Aviõezinhos
O
mercado tem a sua moral, e ela não tem nada a ver com o certo
e com o errado. No mundo dos espetáculos, que é desde ontem o
mundo preferencial deste Governo, a única moral é a dos níveis
de audiência. Assim os baixos índices do Governo nas pesquisas
de opinião conseguiram o que cinco anos de imagens terríveis de
miséria crescente e descaso não tinham conseguido: mudaram o Governo.
Não mudaram o modelo, a política ou a mentalidade - mudou o marquetchim.
É
difícil dizer o que foi mais ofensivo no lançamento da nova linha,
agora com muito mais social, do mesmo Governo, ontem: se o oportunismo
político disfarçado e informalizado como show publicitário ou
a idéia que eles fazem da idade mental do público. Estão confiando
demais no fato de que ninguém pode mudar de Governo como muda
de programa na TV, com um clic saneador.
Fiquei
pensando em como passam a vida tentando nos fazer acreditar em
metamorfoses mágicas, como a de Éfe Agá, finalmente - pelo menos
nos gráficos - num social-democrata de verdade, depois de cinco
anos. Começa com a nossa mãe, a nossa própria mãe, querendo nos
convencer que aquela colher com a papinha é, na verdade, um
aviãozinho. Na época eu não tinha como apelar para a lógica e
argumentar que, mesmo que um aviãozinho tivesse, por alguma
razão inexplicável, entrado na nossa casa, ele dificilmente estaria
ocupado transportando papinha do prato para a minha boca resolutamente
fechada, inclusive arriscando- se a levar um tapa. E lá vinha
ele, em sucessivas tentativas fazendo até barulho de aviãozinho.
Atribua-se ao marquetchim do Governo o mesmo mérito que merecia
o aviãozinho: boa tentativa. Eles também fazem para o nosso bem.
Mas eu consegui dissuadir a minha mãe de tentar me enganar, mesmo
porque desde então ninguém mais precisou me convencer a comer.
Façam seu trabalho, rapazes, mas por favor: aviãozinho não.
*******************
Muitas
pessoas sem grande sofisticação política mas razoavelmente bem
informadas, sem agenda ideológica mas sensatas -enfim, brasileiros
médios de boa cabeça -devem ter pensado um dia: este país só toma
jeito quando alguém como o Fernando Henrique Cardoso for presidente.
Um cara de esquerda mas sem barba ou erros de concordância, um
intelectual respeitado mas que não se negava a ir para o pau ou
pelo menos falar em porta de fábrica, um professor e sociólogo
que sabia como ninguém quais eram os males do Brasil e qual seria
a cura. E, além de tudo, poliglota e simpático. Com todo o caráter
acidental da presidência Éfe Agá - não esqueçamos que ele acabou
ministro da Fazenda do Itamar por uma indiscrição do seu antecessor
Eliseu Rezende, que se não fosse isso seria o pai do Plano Real
- havia aquela sensação de que, não o Fernando Henrique Cardoso
sonhado mas um fac-símile razoável tinha finalmente chegado
ao poder, e que agora a coisa ia. Uma sensação paralela, mais
intuída do que sentida, era que o melhor de uma classe e de uma
geração estava tendo a sua chance de resolver o Brasil, e que
seria a última chance, por assim dizer, sem barba.
Cinco
anos depois da posse de Éfe Agá a concentração de renda se agravou,
os índices sociais pioraram, a violência e a desesperança aumentaram
e a sensação dominante no Brasil é de descrença não num homem
que foi menor do que sua promessa, mas em toda a retórica e pantomima
que há anos cria esses enganos. A sensação é de fim de paciência,
fim de saco, fim de tolerância com uma elite que, mesmo na sua
forma mais bem articulada e bem intencionada, fracassa como em
todas as suas outras formas, mais ou menos primitivas, através
da História. O que está acabando não é o equívoco Éfe Agá, é
a ilusão que uma oligarquia pode produzir alguma coisa melhor
do que ela mesma. A reação brasileira se movimenta para mudar
de cara de novo, promete outra política econômica, prepara outro
Fernando para dizer que agora a coisa vai, mas duvido que da próxima
vez consiga enganar tantos com tanta facilidade. Ou talvez consiga.
Ninguém que apostou na falta de memória do povo brasileiro se
deu mal até hoje.
|