SEC e MEC juntos contra os cursos caça-níqueis de pós-graduação
No dia 26 de março, a vinda do Ministro da Educação
Tarso Genro serviu para sedimentar ainda mais a ação
conjunta entre Secretaria de Estado da Educação e
Ministério da Educação para coibir o avanço
de cursos de pós-graduação lato sensu, chamados “caça-níqueis”.
A visita se deu oficialmente para o lançamento do Fórum
Internacional de Educação, na mesma data, mas gerou
uma reunião extra-oficial em que o chefe de gabinete do
MEC, Jairo Jorge, garantiu ao Secretário de Estado da Educação
José Fortunati o empenho do ministério em ações
mais enérgicas no sentido de impedir a oferta de cursos
irregulares e de qualidade duvidosa. Até o final de abril,
a SEC encaminhará um dossiê listando os cursos oferecidos
por 17 instituições de fora do Rio Grande do Sul
e que foram investigados pela SEC a partir de denúncias.
Conforme o secretário Fortunati, também serão
anexados ao dossiê exemplares da reportagem investigativa
feita pelo Extra Classe em setembro de 2002, denunciando o esquema
de funcionamento desses cursos. A mesma reportagem serviu de subsídio
ao Conselho Estadual de Educação (CEED) na elaboração
da Indicação 38, de 29 de janeiro de 2004, que orienta
professores e SEC sobre critérios para reconhecimento dos
cursos.
César Fraga e
acordo com o Secretário
da Educação José
Fortunati, o MEC solicitou mais informações sobre as denúncias
ocorridas no Rio Grande do Sul. “Um dossiê será encaminhado
pela SEC ao MEC no início de abril e apontará o nome de pelo menos
17 instituições, a maioria proveniente do estado de São
Paulo, que oferecem cursos de pós-graduação em finais de
semana e não cumprem a carga horária exigida, além de outras
irregularidades. São verdadeiros caça-níqueis, pois esses
cursos não possuem a observância de critérios mínimos
para a formação dos professores que buscam aprimoramento, e que
acabam sendo vítimas”, diz Fortunati.
Ele diz que é preciso ter critérios nacionais claros da parte do
MEC e do Conselho Nacional de Educação, pois desde a Resolução
nº 1 do CNE, de 3 de abril de 2001, – passou-se a tratar do assunto
de forma genérica e superficial, o que deixou verdadeiras lacunas que
permitiram a proliferação desse tipo de pós-graduação.
O artigo sexto diz que os cursos de pós-graduação oferecidos
por instituições de ensino superior, independem de autorização,
reconhecimento ou renovação de reconhecimento do MEC.
Em 2003, a SEC proibiu a divulgação desses cursos nas Coordenadorias
Regionais de Educação e nas escolas estaduais, mas foi a Indicação
de número 38, do Conselho Estadual de Educação (CEED), que,
a partir de uma série de denúncias, sugeriu critérios à SEC
para a aceitação de pedidos na progressão no plano de carreira
do magistério. Assim que foi anunciada pela Secretaria a adoção
de critérios seguindo a orientação do CEED, mais de mil
professores estaduais ingressaram com seus pedidos de progressão de nível,
segundo a Secretaria, a grande maioria com certificados das instituições
listadas no dossiê. Desde o dia 29 de janeiro somente são reconhecidos
para esta finalidade os cursos que estiverem cadastrados na Secretaria. Como
o cadastramento ainda não está concluído, estão suspensas
temporariamente as progressões.
Reportagem do EC compõe dossiê que
aponta possíveis
irregularidades
No dossiê que será encaminhado ao MEC será anexada cópia
da reportagem feita pelo Extra Classe em setembro de 2002 intitulada O fast food
da pós graduação em que foi feita pela primeira vez na imprensa
gaúcha denúncia de cursos irregulares atuando no Rio Grande do
Sul. Nosso repórter esteve sob disfarce em uma reunião realizada
em Torres, na qual, uma promotora de matrículas apresenta o detalhamento
dos cursos aos futuros alunos. O público preferencial: professores estaduais
com aspiração à progressão de nível (3 para
6), que ambicionavam melhorar entre 20 e 25% o valor de seus salários
básicos. Uma única instituição, naquele ano, chegou
a atender cerca de 880 alunos por semestre, segundo dados da própria instituição.
Já os pedidos de progressão de nível ficaram na média
de 2 mil. Na época, a grande maioria dos professores que protocolaram
seus pedidos havia feito seus cursos de pós-graduação pelas
Faculdades Integradas de Amparo, que é um dos 17 estabelecimentos apontados
no dossiê da SEC. Essa mesma Faculdade colecionou conceitos C e D nos Exames
Nacionais de Cursos realizados nos últimos anos, e justamente nas especialidades
em que oferece os cursos. Dentre outras irregularidades, a instituição
também nunca possuiu credenciamento para realização de cursos
fora de sua sede, além de utilizar em sua listagem de doutores e mestres
professores pertencentes ao quadro da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ).
Um dos absurdos flagrados por nossa reportagem, na época, foi a promotora
de matrículas das faculdades Integradas de Amparo, Maysa Anastasiadis,
sugerir que já no primeiro dia de aula os alunos já levassem em
seus trabalhos de conclusão ou monografia concluídos antes mesmo
do início das aulas. “Como vocês sabem, não temos bibliotecas
disponíveis no local das aulas, portanto seria interessante que vocês
fossem adiantando essa parte para não sofrerem dificuldades”, disse
na presença de nosso repórter. Depois arrematou: “Bem, vocês
ficarão vários dias longe das famílias, mas não devem
esquecer que têm direito a 25% de faltas. Só combinem com os professores
para não utilizá-las nos dias de avaliação”.
Ela incentivava claramente os futuros alunos a não cumprirem a carga horária
mínima, a qual depois constatou-se também não seria cumprida.
Os cursos seriam finalizados em apenas três finais de semana, com aulas
em três turnos (uma noite e duas manhãs), conforme a promotora.
De acordo com a grade de aulas apresentada, em um cálculo otimista chegava-se
ao máximo de 290 horas/aula e não nas 360 obrigatórias conforme
exigência do MEC e anunciado nos materiais publicitários divulgados
aos professores. Outro detalhe que evidencia a irregularidade é a resolução
nº 3 de 5 de outubro de 1999, que fixa as condições de validade
dos certificados dos cursos presenciais de especialização. O documento
resolve que os cursos fora de sede devem evidenciar, entre outros requisitos,
biblioteca especializada e material de apoio, incluindo os recursos disponíveis
na área da informática e laboratórios. Nenhuma dessas condições
era oferecida aos alunos e, ao que se sabe, continuaram não sendo. As
aulas eram realizadas em escolas de Ensino Fundamental em Torres e Caxias do
Sul com salas de aula locadas para esta finalidade ou em hotéis.
COMUNG – O MEC, desde agosto de 2002, já estava ciente dessas irregularidades,
pois vários casos similares a esse foram denunciados pelo Conselho das
Universidades Comunitárias do RS (Comung). O presidente do Comung, Luis
Augusto Campis, fez um pedido de informações e de providências
junto ao MEC/CNE sobre as Faculdades Integradas de Palmas, Faculdades Integradas
do Vale da Ribeira e de Faculdades Integradas de Amparo. Na época, várias
instituições de educação superior do estado procuraram
também o CEED para que este definisse normas e padrões de qualidade.
Como a regulamentação e normatização é tarefa
da Conselho Nacional de Educação, coube ao CEED discutir e por
fim aprovar, no início deste ano, uma indicação que propõe
normas de qualidade. A Indicação nº 38/2004 orienta os profissionais
de educação e a própria SEC quanto à oferta de cursos
de pós-graduação lato sensu.
CEED – Todas as denúncias foram apuradas ao longo dos últimos
dois anos. A relatora da Indicação, a conselheira do CEED Cecília
Bujes – que representa o Sinpro/RS no Conselho –, considera o acatamento
dessa orientação pela SEC um grande avanço para a qualificação
dos cursos de atualização de professores no estado.
Conforme o documento, alguns critérios devem ser observados para que se
considere a validade dos cursos. O primeiro deles diz respeito à oferta
do curso ser na mesma área em que a instituição possui graduação
reconhecida. Outro critério é que exista infra-estrutura com biblioteca
e recursos pertinentes no local proposto para a realização do curso;
além disso, os docentes que ministrarão as aulas devem ter formação
na área e, no mínimo, grau de especialista. Quanto à carga
horária, as especializações precisam possuir pelo menos
um ano de duração e uma carga horária mínima de 360
horas.
As
instituições de fora do RS investigadas pela SEC
que
constam
no dossiê que será enviado ao MEC em abril
• Faculdade
de São Francisco de Barreira (Bahia) – cursos: Especialização
em Psicomotricidade – atuação: Vacaria
•
Faculdades Integradas e Católicas de Palmas -
Facipal (Paraná) – cursos:
Psicologia Gestora, Psicopedagogia, Educação Física,
Metodologia do Ensino de Línguas, Educação
Especial, Educação Ambiental, Interdisciplinaridade,
Ciências Sociais, Turismo, Pedagogia Empresarial – atuação:
Ronda Alta, Encruzilhada do Sul, São Luiz Gonzaga, São
Paulo das Missões, Santo Cristo, Santa Rosa, Giruá e
Três de Maio.
•
Faculdades Integradas de Lages - Univest (Santa
Catarina) – cursos:
Práticas Pedagógicas Interdisciplinares, Gestão
com ênfase em Adm. Supervisão e Orientação
Educacional – atuação: Carazinho, Canguçu,
Pelotas, Santana da Boa Vista, Passo Fundo e Fontoura Xavier.
•
Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão
de Curitiba (Paraná) – cursos: Psicopedagogia Clínica
Institucional I – atuação: Sarandi
•
Universidade Norte do Paraná - Unopar (Paraná) – cursos:
Gestão e Organização da Escola, Educação
Infantil, Administração Hospitalar, Treinamento Desportivo,
Gestão de Negócios – atuação:
São Luiz Gonzaga, Santa Cruz do Sul e Passo Fundo.
•
Faculdades Integradas de Amparo (São Paulo) – cursos:
Administração e Supervisão Escolar, Orientação
Educacional, Metodologia do Ensino, Psicopedagogia, Arte e Educação – atuação:
Candelária, Pelotas e Passo Fundo.
•
Fundação Getúlio Vargas – FGV (Rio
de Janeiro) – cursos: Gestão Empresarial, Marketing,
Logística, Comércio Exterior e Negócios Internacionais – atuação:
Caxias do Sul e Porto Alegre.
•
Universidade Castelo Branco – UCB (Rio de
Janeiro) – cursos:
Psicopedagogia, Gestão Escolar, Educação Infantil – atuação:
Arroio Grande, Pelotas, Vacaria, Porto Alegre (Curso Mauá),
Santa Maria e Santiago.
•
Faculdade de Educação de Joinville (Santa
Catarina) – cursos:
Psicopedagogia e Pedagogia Gestora – atuação:
Jaguarão e Pedro Osório
•
Faculdades de Ciências Sociais Aplicadas - FACISA (Santa
Catarina) – cursos: Psicopedagogia Institucional, Metodologia
Interdisciplinar – atuação: São Lourenço
do Sul.
•
Universidade da Região de Joinville - Univille (Santa
Catarina) – cursos:
Interdisciplinariedade, Psicopedagogia, Desenvolvimento Urbano – Gestão
Ambiental, Vitivinicultura, Administração de Recursos
Humanos, Gestão de Competências – atuação:
São Lourenço do Sul, Flores da Cunha, Bento Gonçalves,
Tucunduva, Três de Maio, Tuparendi e Santo Ângelo.
•
Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão
da Faculdade Internacional de Curitiba - Ibpex (Paraná) – cursos:
Psicopedagogia, EJA, Saúde Pública, Gestão
em Finanças, Educação Infantil, Educação
Ambiental. Obs.: São no total, 38 cursos – atuação:
Santa Maria e Três Passos
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