EVO MORALES AYMA
O novo mito das esquerdas
Há quem diga que Evo Morales Ayma, deputado e líder
cocaleiro de origem indígena na Bolívia, não
saiu vitorioso no segundo turno das últimas eleições
presidenciais em seu país por se tratar de pleito indireto. É o
herdeiro natural do posto de “queridinho” das esquerdas
européias e sul-americanas, principalmente depois da queda
de popularidade do subcomandante Marcos, do México, e de
Lula, no Brasil. Começou na política boliviana em
1988 quando foi aprovada a Lei Antinarcóticos, ainda vigente,
que penaliza diversas substâncias, dentre elas a folha da
coca. A partir daí, foi eleito secretário executivo
das Seis Federações do Trópico de Cochabamba,
a organização máxima dos cocaleros (produtores
de coca). Graças a suas atividades nesta entidade, ganhou
fama nacional, liderando bloqueios de estradas, greves, marchas
e atos de protesto.
Mesmo sendo conhecido por assumir posições bastante
radicais e polêmicas e de ser acusado por seus opositores
não só de ter ligações com o narcotráfico,
como de defender os interesses do setor. Evo Morales tem uma aparência
cordial, amistosa. Para se ter uma idéia do perfil deste
que pode vir a ser o próximo presidente boliviano: ele foi
trompetista de um grupo musical de certa projeção
nacional, maratonista e quase se tornou jogador de futebol profissional.
É
notório desafeto da embaixada norte-americana na Bolívia
e literalmente detestado pela oligarquia de origem européia
que ainda controla a política do país. Nos últimos
anos, Morales converteu-se num símbolo da resistência
indígena e popular diante das pressões dos Estados
Unidos para dominar a política e a economia bolivianas.
Seu partido, o MAS (Movimento ao Socialismo) obteve mais de meio
milhão de votos nas últimas eleições
(2002), e ele mesmo se perfila como um firme candidato a presidente
no próximo pleito que se realizará daqui a três
anos. Se conseguirá ou não dependerá, também,
do apoio que receber da Europa. Aliás, o principal objetivo
de sua recente visita ao continente europeu visa justamente a angariar
apoio externo.
A entrevista a seguir foi concedida em sua passagem recente pela
Espanha durante um intervalo das viagens que fez a Madri, Barcelona
e Amsterdã, nas quais apresentou seu ideário político,
com a intenção de afastar a imagem de líder
conflitivo e tosco que lhe é normalmente atribuída.
Josep
Maria Deop, especial da Espanha*
Extra Classe – Acusam-lhe de querer impor uma ditadura
narcoterrorista. Isso procede?
Evo Morales – Sim, claro, mas quem o faz? Quando se faz uma
acusação deste tipo há que se ter em conta
quem a lança. Me acusaram de tudo: de receber dinheiro das
FARC colombianas, da Líbia..., só lhes falta me acusarem
de esconder as armas químicas de Saddam Husseim..., porém
nunca apresentam provas. Além do mais, sempre falam de mim
como o “líder cocaleiro”, sem se recordarem
de que sou deputado, represento mais de meio milhão de bolivianos
e de que, se as eleições fossem hoje, ganharíamos
com mais de 50% dos votos. Querem me anular, mas não entendem
que minha força provém, na realidade, do povo. É o
povo quem delibera, e eu quem obedece.
EC – Mesmo com a força do povo, as forças políticas
a que o senhor se opõe não facilitarão sua
vida na oposição. Que tipo de dificuldade o senhor
prospecta que enfrentará na hipótese de se tornar
presidente?
Morales – Com certeza, são muitos os obstáculos
que vamos encontrando. Por exemplo, é necessário
que nos preparemos para resistir a um golpe de Estado. Tenho convicção
de que há uma parte da sociedade, muito pequena, mas muito
influente, que não aceitará nosso triunfo nas eleições
municipais de dezembro, e muito menos nas eleições
presidenciais. Se as ganharmos, temo que possa haver um golpe de
Estado impulsionado desde os Estados Unidos. Se isso chegar a acontecer,
a sociedade tem que dar uma resposta nas ruas para que não
paire dúvidas a respeito do nosso compromisso com a democracia.
EC – Falamos de confrontos com o exército?
Morales – Falamos de defender a democracia. Além do
mais, a imensa maioria dos soldados e suboficiais são quechuas
e aymarás (de origem indígena)* que estariam ao nosso
lado. Sim, existe o risco de aparecerem grupos paramilitares...
Há, evidentemente, uma vontade de “colombianizar” a
Bolívia com o intuito de justificar um golpe de Estado.
Um alto oficial me comentava outro dia que “desapareceram” 60
metralhadoras do seu quartel... Isso é muito preocupante.
EC – A fuga do Presidente Sánchez de Lozada para Miami,
causada pela “Guerra do Gás”, colocou em destaque
toda uma série de novas forças sociais e políticas
que até aquele momento haviam permanecido marginalizadas.
Falo do Movimento Indígena Pachakuti (MIP), de Felipe Quispe;
da Central Boliviana de Trabalho (COB), de Jaime Solares ou de
vocês mesmos. Que relações vocês mantêm
com essas outras forças que ameaçam o velho sistema
político e social?
Morales – É evidente que compartilhamos muitos aspectos
de nossa luta com a COB e o MIP, sobretudo no que diz respeito à recuperação
dos recursos naturais, da relação com a terra, da
rejeição aos privilégios das multinacionais...
Mas também creio que cada um tem que desenhar sua própria
estratégia. Às vezes se age precipitadamente. As
greves, por exemplo, não podem ser preparadas de um dia
para o outro (referindo-se a última convocação
de greve geral da COB, que contou com o apoio do MIP, mas não
do MAS)*. Não podem ser anunciadas só para assustar.
Faz falta planificar tudo muito bem e discutir com os colegas.
EC – Há quem diga que falta vigor de vocês
com o governo.
Morales – Falta vigor? Que incrível! O que acontece é que
nós somos conscientes de que o Presidente não pode
mudar todo o sistema em três ou quatro meses. Então,
o que queremos é que nos ofereça sinais claros de
que está disposto a fazê-lo. Queremos uma mudança
de modelo econômico e de sistema político. A economia
está nas mãos do presidente e de seu gabinete, enquanto
a política está nas mãos do Parlamento. É isso
que estamos discutindo, tentando que a Assembléia Constituinte
incorpore à reforma da constituição por nós
proposta. Sem essa reforma, dificilmente conseguiremos grandes
vitórias. Os movimentos socias têm que pressionar
para conseguí-la.
EC – Apesar das diferenças que possam existir entre
o Senhor e Felipe Quispe, líder do MIP, parece evidente
que a derrota do velho sistema político só pode chegar
através de uma aliança entre as suas forças.
Vocês contemplam esta possibilidade, de imediato, nas próximas
eleições gerais?
Morales – Se não chegarmos a nos entender como dirigentes,
seguramente nossos povos nos unirão. Creio que são
os povos que devem nos dizer o que fazer. Sempre apoiei o companheiro
Felipe Quispe para que pudéssemos caminhar juntos, apesar
de ele haver dito algumas barbaridades sobre mim. Mas creio que,
antes ou depois, o sangue nos chamará à unidade.
Uma aliança agora? A necessidade de nos unirmos existe,
mas é o tempo quem dirá. Nossas bases caminham e
se manifestam unidas, só faltaria que esta unidade das bases
se traduzisse numa unidade dos representantes. De minha parte,
não tenho nenhum afã de liderança ou de protagonismo...
farei o que a minha gente disser.
EC – O ex-presidente Sánchez de Lozada se encontra
escondido nos Estados Unidos... Em outubro, mais de 80 pessoas
morreram nas mãos do exército que chegou a disparar
rajadas de metralhadora em direção às colinas
que rodeiam La Paz. Que possibilidades reais há de extraditar
Sánchez de Lozada e submetê-lo a um julgamento na
Bolívia
Morales – Creio que dependerá muito da mobilização
popular. Porém a situação é complicada,
porque este senhor tem ao seu lado uma máquina burocrática
desenhada para lhe proteger... Caso o julgamento na Bolívia
não seja possível, já impulsionamos uma solicitação
para o Alto Comissionado para os Direitos Humanos das Nações
Unidas, pedindo o apoio do Parlamento Europeu... Estamos estudando
uma demanda internacional, para os casos de genocídio, perante
o Tribunal de Haya. São crimes que não podem ficar
impunes e trataremos de esgotar todas as vias.
O que acontece é
que nós somos
conscientes de que o
Presidente não pode
mudar todo o
sistema em três
ou quatro meses. |
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EC – O que mudou na Bolívia para que os senhores
tenham passado de quatro deputados para 27 em somente quatro anos?
Morales – É que a nossa é uma carreira de longo
caminho percorrido, mas nos últimos anos acabamos ganhando
um grande impulso. Nós viemos de um país dominado
por uma estrutura colonial e há aqueles que ainda não
se acostumaram a nos ver no Parlamento, a nós, os índios,
os “selvagens”... Haviam nos transformado em mendigos
na nossa própria terra. E não é que não
tivéssemos lutado contra. A nossa é a história
da luta constante pela dignidade. Mas sempre nos esmagaram ou nos
traíram... Como podíamos dizê-lo? Até hoje
nós, os índios, fomos bons depondo presidentes, mas
sempre nos equivocamos no momento de eleger os substitutos... Agora
seremos nós mesmos que nos governaremos.
EC – É correto observar no discurso um forte
componente de resgate de identidade?
Morales – Sim, sim. A revolução de 1952, que
outorgou o voto aos índios e conseguiu alguns êxitos,
foi protagonizada, sobretudo, por mineiros. Agora, ao contrário,
os atores principais são índios. Inclusive agora
os mineiros começam a recuperar sua própria identidade,
a se sentir indígenas para dizer: “nós somos
os senhores absolutos desta nobre terra...”. Antes os mineiros
lutavam sobretudo pelo salário; a luta dos povos indígenas,
ao contrário, é pelo território. Não
podemos perder mais tempo brigando pelas migalhas do salário...
Esta é a grande diferença no que diz respeito aos
movimentos anteriores. Os trabalhadores acreditavam que eram os
arquitetos da revolução e que nós éramos
os pedreiros. Agora, podemos dizer que o “omelete” virou.
Esta é a grande força da nossa luta. Temos que divulgar
que não surgimos do nada, que faz muitos anos que lutamos.
EC – O senhor se converteu num símbolo da luta contra
o pensamento único, apesar de, publicamente, se mostrar
contrário ao protagonismo. Dentro do MAS, como fazem para
dar impulso a novas lideranças, sobretudo de mulheres?
Morales – Estamos trabalhando muito nesse terreno. Parte
do nosso salário de deputados se destina a estimular debates,
oficinas, cursos de formação. E muitas mulheres estão
começando a ocupar cargos de responsabilidade. Somos conscientes
de que ainda arrastamos um déficit..., mas queremos trabalhar
juntos, afinal de contas nós, homens e mulheres, enfrentamos
os mesmos problemas.
EC – Há um outro tema fundamental para que se entender
a identidade boliviana: o sentimento de frustração
pela perda do mar a partir da Guerra do Pacífico com o Chile,
no final do século XIX. O atual presidente, Carlos Mesa,
voltou a falar nesse assunto. O senhor não crê que
há uma utilização partidária para não
deixar que se enfrentem os verdadeiros problemas da Bolívia?
Morales – Pode ser que sim, mas é evidente que a Bolívia
tem que recuperar a soberania deste território. É uma
ferida histórica que temos que resolver logo. Nossa posição é conhecida
por toda a comunidade internacional. O Chile tem que nos devolver
o território usurpado e invadido. Esta é a posição
do MAS, de todo o povo boliviano e, é claro, de todos os
povos indígenas. Nós somos solidários com
os irmãos aymarás e mapuches do Chile; não
são eles que têm que responder por este problema,
e sim o Governo de Ricardo Lagos.
EC – O senhor se vê como presidente em 2007?
Morales – Bom, tudo pode acontecer. Se as eleições
fossem hoje mesmo, ganharíamos por maioria absoluta, com
mais de 50%... Mas Evo não depende de Evo. Evo depende do
povo. Se o povo me quiser como candidato, estarei ali, com ele.
Se há outro companheiro, também estarei com ele...
Não se trata de dizer: eu ou ninguém, nem de verdades
absolutas... Evo continuará estimulando o MAS como instrumento
político para transformar a sociedade.
* Tradução:
Adriana Pigatto Kabbas