Novo
rico todo mundo conhece. É o
cidadão que saiu do patamar da pobreza e, em razão
de seu novo status, adquiriu comportamentos peculiares:
compra muito e sem perguntar o preço, exibe jóias
ao máximo, obtém roupas de grife, dirige
carro importado. Mas a figura do novo pobre é diferente.
Fenômeno, pode-se dizer recente, cujo ápice
manifestou-se na era FHC. De acordo com o IBGE, o índice
de desempregados com alta escolaridade cresceu 263% nos últimos
10 anos entre pessoas de 25 e 39 anos. Esse desempregado, porém,
não freqüenta as agências de emprego que
se espalham pelo país e
estão sempre lotadas de |
René
Cabrales

|
pessoas sem uma qualificação
específica, justamente por ter uma profissão. Mais
do que isso, por ter vivido dela durante muitos anos, feito carreira
e conhecido o sucesso.
Marcia Camarano
A estatística do novo pobre
 novo pobre – não
com esse nome – é identificado na Síntese de Indicadores
Sociais
de 2002, com dados de 2001, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE).
O fenômeno atinge desempregados com elevado nível de escolaridade
(9 a 11 anos de estudo) e vem aumentando de modo alarmante. Com mais escolaridade,
aponta a pesquisa, a taxa de atividade cresce, mas isso não garante a
ocupação. Em 2001, o índice de desemprego para os sem-instrução
ou com até três anos de estudo ficou em 5,4%, enquanto entre os
com mais de oito anos de estudo foi de 6,4%. O desemprego é uma das faces
dessa moeda, causando fracasso, não só profissional, pois, em muitos
casos, acarreta também o desmoronamento da vida pessoal e afetiva. Quem
nunca teve nada não se importa de mostrar o rosto em busca de qualquer
emprego. Mas quem já conheceu a glória e perdeu prefere o anonimato.
São pessoas que lotam não as salas de espera das agências
de emprego físicas, e sim as salas virtuais, via internet, em busca de
um trabalho que lhes garanta sobrevivência. “Quem vem até a
empresa é o pessoal menos qualificado, os profissionais mais habilitados
usam a internet”, constata Valdecir de Lima, gerente da agência Employer
no Rio Grande do Sul. Muitos candidatos sequer dão o nome, preferem usar
a senha “confidencial”. (segue)
Poucos
se arriscam a mostrar o rosto e a assumir sua condição,
como Newton Teixeira, que aos 55 anos vive a fase
que considera a mais amarga de sua vida. Quando
olha para trás, recorda a juventude bem-vivida
em boas escolas. Tinha autoconfiança, conseguia
os empregos que buscava. Freqüentava clubes
de prestígio em Porto Alegre, possuía
amigos influentes e não faltavam namoradas. “Trabalhei
em banco por quase 30 anos e fiz de tudo, fui desde
escriturário até gerente, sempre
lidando com dinheiro, com valores”, lembra.
Por força do meio, estudou administração
e contabilidade. Ele foi gerente de instituições
financeiras, como Mercantil de São Paulo,
Fin-Hab, Sibisa, Bancesa, Banco de Fortaleza.
Newton, entretanto, foi vítima do enxugamento
do setor. Com 47 anos, viu-se na rua, sem perspectiva
de um novo emprego. Decidiu abrir um negócio
com um amigo, uma empresa de facttoring, que durou
três anos e deixou um prejuízo de mais
de R$ 40 mil. Sem trabalho e endividado, ele ficou
sem alternativas. A dificuldade profissional atingiu
a vida pessoal: separou-se da mulher após
12 anos de casamento, com quem teve uma filha. “Sempre
tive uma vida legal nesses 30 anos, tinha carro desde
os 21 anos.”, conta. Por fim, seu último
veículo, um Kadet, teve de ser vendido para
poder comer. “Estou há cinco anos sem
carro, sem apartamento, sem dinheiro. Para mim, nesses últimos
cinco anos, foi como estar em um navio em alto mar
no meio da tormenta.”.
O ex-bancário não esconde a revolta
diante dos amigos e conhecidos, alguns deles deputados,
vereadores, donos e diretores de empresas que sempre
o rodearam e, na dificuldade, o abandonaram. “Eu
era o Fulano de Tal, que chegava nos lugares e todo
mundo vinha no meu colo e, de repente, estou sem
amigos, sem trabalho, sem mulher, sem guarida.” O
emprego que ele tanto buscou só veio depois
de um ano de luta e desespero, por meio dos classificados
de um jornal, em uma imobiliária, por um salário
de R$ 280,00. “Nunca tinha trabalhado nessa área,
mas tive de aprender, aceitei, porque tinha de comer.”
Newton voltou a morar com a mãe, de 83 anos,
continua trabalhando na imobiliária, como
comissionado (ganha uma porcentagem em cima do que
vende). “Tenho de ir à luta, correr
atrás. Sou um cara que sempre teve bons salários,
amigos influentes, mas isso não foi o elixir
da felicidade. Considero-me um náufrago, estou
vivo, tentando melhorar, porque eu sou útil.”
|
|
A desigualdade é a marca da sociedade
brasileira
A análise do IBGE revela que a metade dos trabalhadores
brasileiros ganha de meio a dois salários mínimos.
Além disso, indica que a camada da população
considerada mais rica – 10% – ganham 18 vezes mais
do que os 40% mais pobres. “A síntese confirma que
o traço mais marcante da sociedade brasileira é a
desigualdade”, constata o documento.
Os dados do IBGE comprovam um estudo que vem sendo realizado
há algum tempo pelo professor de Economia e secretário
do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de
São Paulo, Marcio Pochmann. “Há uma novidade
importante na condição de pobreza do Brasil e que
diz respeito fundamentalmente aos grandes centros metropolitanos”,
constata. De acordo com Pochmann, antes o pobre brasileiro era
basicamente o migrante, vindo do interior, geralmente negro,
vivendo em uma família grande, com baixa escolaridade
e sem qualificação profissional.
O desemprego verificado a partir da década de 80, que
atinge tanto jovens quanto pessoas com mais de 40 anos, é a
chave para entender a mudança de perfil da pobreza no
país, explica o secretário. E, importante, aumentou
o índice de desemprego para pessoas com nível universitário.
O índice de desempregados com alta escolaridade cresceu
263% nos últimos 10 anos entre pessoas de 25 a 39 anos.
Pochmann sustenta que, na nova pobreza, o mercado de trabalho
não só reproduz como produz a pobreza, já que
o trabalhador, apesar de qualificado, não encontra postos
de qualidade nem salários adequados e acaba fazendo bicos
para sobreviver.
Para ele, somente para gerar cerca de 1,5 milhão de novas vagas que atendam
o contingente de brasileiros que ingressam no mercado de trabalho anualmente,
a economia nacional precisaria crescer acima de 5,5% ao ano. “Nos últimos
10 anos, entretanto, o Brasil teve uma média anual de crescimento abaixo
de 2%, e o resultado disso não poderia ser outro que não a forte
presença do desemprego, da pobreza e da má distribuição
de renda.”
A Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE), divulgada em
outubro de 2003, mostra que poucos postos de trabalho foram abertos em 2001 e
2002, e os que surgiram serviram apenas para sobrevivência precária.
Nesse período, 96,3% das ocupações foram não-remuneradas
ou com renda inferior a um salário mínimo. Além disso, a
renda ficou ainda mais concentrada. Em 2002, os 10% mais ricos possuíam
renda 58,7 vezes superior aos 10% mais pobres. Em 1995, era 47 vezes.
Segundo Pochmann, a nova pobreza é mais complexa e de mais difícil
enfrentamento. Mas para que esse problema comece a ser encarado, ensina, é preciso
que o país volte a crescer. Pochmann defende políticas amplas de
proteção social ao desempregado e que combatam a extrema concentração
da renda. À frente da Secretaria, ele vem desenvolvendo uma série
de projetos que visam à inserção das pessoas ao mundo do
trabalho. Entre eles, programas voltados para jovens e para trabalhadores com
mais e 40 anos.
Problema está na mira do governo
O problema parece estar na mira do governo federal. Recentemente, o Ministro
da Fazenda, Antônio Palocci, tido como linha-dura justamente por ser o
responsável pelo equilíbrio das contas do país, declarou
que o Brasil vai crescer 3,5% em 2004 e que o governo deve trabalhar com políticas
de renda para diminuir o desemprego. Ele disse que o governo está consciente
de que está abrindo agora uma oportunidade histórica para a Nação. “Se
tomarmos as medidas microeconômicas necessárias para organizar esse
processo, vamos crescer 3,5% este ano, 4% no próximo, e o Brasil vai ganhar
força para um crescimento sustentável de longo prazo”, informou.
O que se convencionou chamar de neoliberalismo é uma prática política
e econômica baseada nas idéias de pensadores monetaristas ingleses
e norte-americanos defensores de uma redução da ação
do Estado na economia – uma teoria que ganhou forma com a ascensão
de Margareth Thatcher ao cargo de primeira-ministra na Grã Bretanha em
1979 e com Ronald Reagan chegando à presidência dos Estados Unidos
em 1980. Aqui no Brasil, conforme escreve o professor associado do Departamento
de Ciência Política da Unicamp, Armando Boito Júnior, em
seu artigo “Neoliberalismo e Burguesia no Brasil”, a implantação
desse modelo alterou as relações de classe e de poder existentes: “O
neoliberalismo desmontou o protecionismo típico do período desenvolvimentista
e reduziu a já precária rede de direitos sociais herdados do populismo”.
Para ele, as principais políticas que corporificaram esse desmonte foram
a abertura comercial e financeira, a política de privatização,
a redução dos direitos sociais e a desregulamentação
do mercado de trabalho.
Há categorias profissionais que sofreram em cheio com a política
implementada nos últimos anos no país, como os bancários,
que na década de 1980 somavam 800 mil e hoje são menos de 400 mil. “Por
conta da reestruturação do sistema financeiro, da introdução
de novas tecnologias, principalmente da automação, e das privatizações,
houve demissão em massa”, informa o diretor de comunicação
do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, Ademir Wiederkehr. Com esse
brutal enxugamento, uma vez desempregado, é difícil o retorno.
Magda Susana Garcia entrou no Banespa por concurso público em 1985 e permaneceu
lá por 16 anos. Saiu em dezembro de 2001 por conta do Plano de Demissão
Voluntária (PDV), adotado após a privatização do
banco. “Eu não queria sair, minha perspectiva era de me aposentar
lá, mas me senti compelida a aceitar o PDV”, conta . Formada em
ciências contábeis, Magda, hoje com 41 anos, casada e mãe
de dois filhos, critica-se por “ter me acomodado”, quando poderia
ter procurado melhores opções de trabalho. A segurança daquele
emprego a impedia de ver o quanto a vida estava difícil fora, o que ela
só percebeu quando passou a procurar um novo posto de trabalho. “A
concorrência é muito grande.” Magda atualmente está estudando
para fazer concursos. “Faço todos os que aparecem.”
Qualificação não significa emprego
A vida também está dura para quem acabou de sair da faculdade.
A jornalista Letícia Saldanha, 24 anos, formada em 2001, enquadra-se nesse
perfil estudado pelo secretário Márcio Pochmann. Ela terminou o
curso cheia de sonhos, pensando em trabalhar na profissão que escolheu
e mais, em um segmento específico: a assessoria de imprensa. Porém
não encontrou nada. Letícia mora com os pais e nem pensa em abandonar
essa condição, já que não consegue emprego fixo. “Não
está fácil para ninguém, mas nunca pensei que fosse tão
difícil.” Ela, porém, pretende continuar investindo na carreira
e planeja o futuro. “Em 2004, quero começar um mestrado.”
O tipo de pensamento da jornalista Letícia Saldanha é aplaudido
pelo professor titular de Sociologia da UFRGS, Antonio David Cattani. Conforme
ele, a culpa pela falta de emprego não é dos indivíduos,
e sim da orientação econômica adotada pelo país nos últimos
anos. “Não se deve desestimular quem busca qualificação,
pelo contrário, é necessário que as pessoas se especializem
cada vez mais”, aconselha.
Segundo Cattani, com esse modelo econômico, foi criado o mito da empregabilidade,
que responsabiliza o indivíduo por não conseguir uma colocação,
quando o problema é falta de mercado. “A década de 1990 não
gerou empregos e não houve medidas de governo e do empresariado para gerar
mais postos de trabalho. O resultado hoje é a sobra de pessoas qualificadas.”
Ele considera hipócrita a individualização da culpa por
não alcançar o emprego: “Essa lógica faz com que a
pessoa se julgue fracassada por não obter trabalho, quando na verdade,
não são oferecidos postos”, e critica o comportamento dos
veículos de comunicação, que reforçam essa idéia. “Outro
dia, vi na televisão uma matéria sobre uma vaga de confeiteiro
que há tempos não era preenchida, dando a entender que há empregos,
mas as pessoas não são qualificadas. Partem de uma exceção
para mascarar a realidade.”
O professor acredita que a solução para o problema “é possível,
necessária e urgente”, mas não parte de iniciativas individuais. “É preciso
uma resolução econômica com ênfase na geração
de trabalho para que as pessoas possam sobreviver graças aos seus esforços,
e o retorno disso é mais efetivo e mais barato.” Do contrário,
acrescenta, “pode-se fazer a política mais repressiva possível,
mas se o jovem de hoje continuar desempregado, não haverá exército
que chegue”.
Aliado à criação de postos de trabalho, Cattani defende
que seja feita a redistribuição de renda, pois “sem isso, é impossível
desenvolver a economia; o salário mínimo é uma vergonha,
a concentração de renda nesse país é extremamente
desigual, onde poucos ganham muito e gastam em coisas como passar férias
em Cancún ou comprar carros importados, o que não rende riqueza
para o país”. Para ele, se a renda fosse mais bem distribuída,
os mais pobres teriam mais poder aquisitivo e condições de consumir
produtos nacionais, como chinelos Havainas, por exemplo, o que faz movimentar
o mercado brasileiro e, por conseqüência, aumentar postos de trabalho. “Salário
significa demanda e novas oportunidades para outros, multiplica serviços”,
argumenta.
Mas
quem são esses números?
|
Maria
Carmen dos Santos pode ser um exemplo de indivíduo
representado pelas estatísticas. Ela não é recém-formada,
tampouco começou seus estudos agora. Ela
se encontrou com o magistério ainda na década
de 1960, quando teve contato com uma congregação
religiosa no município de Barra do Ribeiro.
A convivência marcou sua vida em dois aspectos:
decidiu ser freira e cursar o magistério,
o que fez em Porto Alegre e Pelotas. Deixou a congregação
em 1979, mas continuou seu trabalho junto a ela
até 1995. Durante esse período, aprimorou
seus estudos. Carmen é pedagoga especializada
em supervisão escolar, possui especialização
em sociologia e didática e concluiu pós-graduação
em psicopedagogia e em psicomotricidade.
Seu currículo a levou a desempenhar funções
importantes em diversas escolas de Porto Alegre,
como supervisora escolar e diretora. “Ao todo,
são 34 anos de trabalho na área”,
contabiliza. Hoje, a única coisa que a mantém
ligada à profissão são as aulas
particulares esporádicas para crianças
que precisam de reforço escolar. Ela ainda
produz artesanato, que faz e vende por encomenda
ou oferece o trabalho acabado. Também já ensaiou
como vendedora. “Nunca fiz isso, meu produto
sempre foi a educação e isso eu vendi
muito bem”. Com 57 anos, Carmen considera-se
plenamente apta para o trabalho e continua entregando
currículos.
Com 45 anos, 30 deles dedicados à vida profissional,
João dos Santos Machado ainda não teve
a felicidade de conseguir um novo emprego. Em seu
pequeno apartamento, num condomínio popular,
onde vive com a mulher e o filho de 11 anos, ele
revela que não se cansa de enviar currículos
para ver se consegue um novo posto. Após seis
anos trabalhando em uma empresa petroquímica,
na qual foi responsável por toda a área
administrativa e de manutenção, ele
esporadicamente tem feito alguns “bicos”,
principalmente no setor de recursos humanos, que é sua
especialidade. “É muita procura e pouca
oferta de emprego”, reclama.
Se antes ele tinha um salário de R$ 2 mil,
hoje se contenta com bem menos, contanto que tenha
trabalho. Em função disso, as despesas
tiveram de diminuir bastante. “Antes eu podia
sair com a família, comer uma pizza, e agora
tenho de estabelecer prioridades para conseguir comer
o mês inteiro.” Quando olha para trás,
Machado entende que fez uma escala profissional. “Conheço
toda a área administrativa, mas, para o mercado,
estou velho, quando, na verdade, sinto que estou
na melhor forma.”
|
|
|