Cadê o acento?

Êpa. Ó xênte. Ação. “Ah!” Agora
sim. Não estava encontrando os acentos e as aspas. Troquei
minha velha carroça por um computador que parecia só escrever
em inglês, sem citações. Pelo jeito, faltava
era configurar o cérebro. Finalmente adentro o mundo dos
cês-cedilhas feitos com apenas um toque no teclado. Bacana.
Resta convencer os dedos de que tudo mudou para melhor, alguns
ainda se enroscam num nó cego, procurando o circunflexo
lá na tecla antiga.
Enfim, a hipermodernidade que se cuide, aí vou eu com meus
novos megahertz e megabytes, banda larga, DVD, CDRW e sei lá mais
o quê (ou SLMQ). Para quem passou uns anos zen-budistas,
sem sequer um aparelho de televisão em casa, é uma
transformação e tanto. Não pretendo me converter
a nenhuma Igreja da nova tecnologia, varando as madrugadas na internet,
mas achei que era hora de dar uma conferida no caminho que essas
virtualidades estão tomando, correndo os riscos inerentes
e evidentes.
Por exemplo, dado o custo dessa parafernália, estou planejando
alternar um ano pagando o cabo com outro pagando uma Unimed, o
que é uma questão delicada. Difícil pesar
a relação custo-benefício entre uma pedra
no rim e uma programação ruim. Sem um plano de saúde,
ninguém deveria expor-se ao teor de colesterol de certos
canais e programas. E há ainda os problemas de visão
que horas na frente das telinhas podem nos trazer. Isso, aliás,
quem literalmente me apontou, do alto dos seus quatorze meses de
vida, foi a futura herdeira desses cabos e chips.
O leitor supõe, certamente, que ao preparar a mamadeira
das seis e meia da manhã para a Maria Clara, este zeloso
e notívago pai o faz de olhos fechados. Verdade. Porém,
no ato de entregar o desjejum à reclamante esfomeada – e
debruçada na grade do berço feito torcedor da coréia –, é forçado
a abrir ao menos um deles para se certificar de que tudo corre
bem, antes de dar a missão por cumprida e voltar para a
cama. Imagine-se, então, que nesse exato momento à pimpolha
lhe ocorra estender o dedinho indicador à frente, em riste,
com a espessura e a firmeza de um palito do China in Box. Pode
muito bem acontecer de o dedo parar dentro do olho paterno. Donde
se depreenderia um certo traumatismo, donde um certo desleixo com
o assunto pode produzir um quadro inflamatório – donde
fui parar no Hospital Banco de Olhos, fila do SUS.
Não é nada tão grave, um colírio já está resolvendo.
Mas ficou a lição. Se com essa idade já estão
nos metendo o dedo na cara pra avisar, melhor entender logo que
não há banda larga que compense uma visão
estreita e caolha.
