A volta dos sindicatos
Marcio Pochmann*

ação
dos sindicatos no Brasil não tem sido evidenciada como um
dos pontos-chave para o entendimento da recente queda na desigualdade
da renda do trabalho no Brasil. No ambiente de inflação
relativamente baixa, os ganhos reais que os sindicatos conseguem
obter nas datas-base de cada categoria terminam contribuindo para
a recuperação gradual das perdas acumuladas anteriormente.
De acordo com as informações produzidas pelo Dieese,
tem sido cada vez maior a quantidade de sindicatos que conseguem
obter resultados positivos nas negociações coletivas
de trabalho. Ademais, parcela importante dos ganhos econômicos
tem se concentrado nos segmentos de menor remuneração,
geralmente apoiada pela própria elevação do
salário mínimo nacional, que tem sido historicamente
a bandeira do sindicalismo.
Nesse contexto menos desfavorável para atuação
sindical, não causa surpresa a identificação
a respeito da recuperação da taxa de sindicalização.
Somente no período de 1999 e 2004, a taxa geral de sindicalização
no Brasil registrou aumento acumulado de 11,8%. Mas essa recuperação
não se mostrou homogênea. Percebe-se que a sindicalização
cresceu mais para os trabalhadores rurais (40,1%), passando de
15,7%, em 1999, para 22%, em 2004, enquanto a sindicalização
dos trabalhadores urbanos aumentou 11,1%. Também entre homens
e mulheres houve distinção no comportamento da sindicalização,
uma vez que a taxa de sindicalização feminina aumentou
16,1%, e a masculina subiu 9,2%. De um lado, a maior variação
na sindicalização feminina vincula-se ao meio rural,
cuja taxa feminina cresceu 64,7% entre 1999 e 2004, e a masculina
somente 26,6%.
De outro, a sindicalização feminina também
pode estar relacionada ao crescimento mais intenso do emprego da
mulher, especialmente nas atividades terciárias. De cada
10 vagas abertas atualmente no Brasil, as mulheres ocupam 6, geralmente
com maior nível de escolaridade, porém nem sempre
com as mesmas condições de trabalho oferecidas aos
homens.
Em síntese, a volta dos sindicatos não representa
algo desprezível, tendo em vista os anos de chumbo que representou
a década de 1990. Entre 1989 e 1999, por exemplo, a taxa
de sindicalização caiu 42,5%. O crescimento do desemprego,
as novas formas de gestão da mão-de-obra pelas empresas,
o deslocamento geográfico de firmas, a perda de importância
relativa no emprego da indústria e o avanço da terceirização
contribuíram para a diminuição na taxa geral
de sindicalização urbana, enquanto a crise na agricultura
familiar comprometia o associativismo rural.
Tudo isso, como expressão das políticas neoliberais,
cuja principal convergência foram as medidas de natureza
anti-labor que atingiram fortemente o mundo do trabalho, especialmente
nas formas de representação dos seus interesses.
O reconhecimento da força sindical indica o quanto o enfrentamento
da desigualdade no Brasil requer atuação redobrada
por parte de todos que lutam por um país melhor do que se
tem atualmente.
* Professor do Instituto de Economia (IE) e pesquisador do
Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). São Paulo,
Brasil. (Tel.: (19) 3788.5802 – Endereço Eletrônico:
pochmann@eco.unicamp.br).