A literatura
conectada
| Foto:
Tânia Meinerz |
|
Leitura
da Arte & Arte da leitura é o tema
da
12ª Jornada. Acima,
debate no
Circo da Cultura em 2005 |
As conexões entre arte e literatura serão o centro
dos debates da 12ª Jornada Nacional de Literatura de Passo
Fundo, que acontece de 27 a 31 de agosto, no Circo da Cultura,
campus da UPF. Nesta edição, além do I Encontro
Estadual de Escritores, o evento ganhou um painel sobre o mercado
cultural do livro. Na abertura da Jornada, dia 27, serão
divulgados os vencedores do 5º Prêmio Passo Fundo de
Literatura e da 10ª edição do Concurso Nacional
de Contos Josué Guimarães, em homenagem ao jornalista
e escritor sul-rio-grandense que estimulou a criação
e expansão
das Jornadas. A 4ª Jornadinha Nacional de Literatura, o 6oSeminário
Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio, o 2º Encontro
da Academia Brasileira de Letras – Revisitando os Clássicos
II, além de vários cursos, completam a programação
do evento.
Por Gilson Camargo

o palco de debates, escritores brasileiros e estrangeiros analisam
os desdobramentos do tema Leitura da Arte & Arte da leitura.
No dia 28, José Castilho, Marcos Vilaça e o cubano
Reinaldo Montero são os convidados para debater com o público
Arte da leitura; Marina Colasanti, Nelson Motta e Ziraldo são
alguns dos debatedores de Arte e entretenimento. No dia 29, Elisa
Lucinda, André de Leones, Milton Hatoum e o polonês,
inédito em língua portuguesa, Miroslaw Bujko debatem
Arte e erotismo; e Affonso Romano de Sant’Anna, Lya Luft,
Lúcia Bettencourt, Mariana Ianelli e Mario Sabino, Arte
e transcendência. No dia 30, Arte, mídia e hipermídia
será analisado pelo norte-americano Gerard Jones e os brasileiros
Inimá Simões e Luiz Ruffato. A grande conferência
Arte e Política será apresentada pelo italiano Carlo
Ginzburg. Ferrez comparece no último dia de debates com
Arte de rua, com a participação de grafiteiros sob
a coordenação de Juliano Crivelo de Oliveira. Os
debates têm a coordenação dos escritores Alcione
Araújo, Ignácio de Loyola Brandão e Júlio
Diniz.
O projeto inicial das Jornadas representou o surgimento de um movimento
político-cultural de abrangência nacional. “Os
tempos do arbítrio mostravam exaustão e a sociedade
organizava-se na busca de uma nova alternativa de país,
amparada na democracia e na justiça social”. A proposta
era mudar essa realidade pela via da leitura e da formação
de leitores, retirando o livro dos círculos restritos da
intelectualidade e colocando-o nas mãos de milhares de leitores.
Mais do que o encontro entre leitores e escritores, a Jornada é a
celebração do livro, da leitura e da literatura. “Pelo
diálogo entre escritores, artistas, críticos e leitores,
a fruição artística será pauta para
reflexões que garantam às circunstâncias de
vida mais humanidade e, assim, mais justiça”, define
o escritor.
Ampliando o número de leitores
Tânia Rösing, professora de Literatura da UPF, criadora
e coordenadora da Jornada, ressalta a importância dos projetos
envolvendo o livro e a literatura e explica a dinâmica das
pré-jornadas, série de encontros que mobilizam educadores
e alunos em todo o estado antes do início da Jornada.
| Foto:
Tânia Meinerz |
 |
A
professora Tânia Rösing, idealizadora
e coordenadora das
Jornadas |
EC – Qual é o debate proposto pelo tema Leitura da
Arte & Arte da leitura?
Desde 1981, temos como objetivo formar leitores proficientes, apreciadores
de textos literários e entendedores das linguagens das diferentes
manifestações culturais. Vivemos a era dos sistemas
em rede e das áreas do conhecimento trabalhadas numa perspectiva
interdisciplinar. Ao mesmo tempo, estamos em contato com as diferentes
manifestações artísticas, o que pressupõe
a formação de intérpretes dessas linguagens
que, depois, se transformam em platéias qualificadas.
EC – Como se dá a relação
entre arte e literatura?
As ilustrações dos livros infantis e juvenis, por
exemplo, se constituem em complementos das narrativas. O que
está disponível no mercado editorial são
livros-arte. A publicidade usa em seus produtos uma mescla de
diferentes artes, inclusive textos literários. A moda
está empregando fragmentos de textos literários
em peças do vestuário.
Para os turistas, camisetas com reproduções de
pinturas, letras de poemas, de canções, de instrumentos
musicais, de fotografias, de maravilhas arquitetônicas.
Esse complexo deve ser compreendido e interpretado pelo leitor
crítico que é, também, em vista desses aspectos,
um leitor eclético.
EC – Que atividades relativas ao livro e à literatura
são proporcionadas pela Jornada?
A Jornada tem 26 anos de ações ininterruptas.
Nosso envolvimento é constante com alunos, professores,
bibliotecários, agentes culturais. A partir do Centro
de Referência de Literatura e Multimeios – Mundo
da Leitura –, desenvolvemos práticas leitoras
multimidiais, atendemos alunos de diferentes faixas etárias,
professores de escolas públicas e privadas, alunos do
Ensino Superior, promovendo vivências de leitura mul-timidiais.
Emprestamos 60 sacolas com 35 títulos em cada uma a
professores para usarem esse material em suas salas de aula.
Desenvolvemos vários projetos: Mundo da Leitura na Escola
(acompanhamento de alunos que visitam o Mundo da Leitura e,
posteriormente, vamos observar e propor ações
que realizam no contexto de suas escolas). Produzimos um programa
para a televisão – Mundo da Leitura na TV – cujo âncora é o
Gato Gali-Leu, que é apresentado quatro vezes por semana,
no Canal Futura. Produzimos também um quadro para o
Jornal do Canal Futura das sextas-feiras, o Boa Leitura. É uma
dica de um livro novo colocado à disposição
do público no mercado editorial. Temos um grupo de contadores
de histórias que atua nas práticas leitoras multimidiais,
em escolas e eventos para os quais são convidados. Desenvolvemos
oficinas em feiras do livro, em seminários em diferentes
cidades da região e no oeste catarinense.
EC – Que
aspectos diferenciam a Jornada de eventos como a Flip, por
exemplo?
A Festa Literária Internacional de Parati é um
evento anual sem envolvimento com escolas, alunos, professores
de forma sistematizada. Tem apenas cinco anos. Destina-se a
leitores já experientes. É uma grande festa direcionada
a um público predominantemente de classes abastadas.
A sua organização – venda de ingressos
para as conferências – não garante a quem
se desloca a essa bela cidade a participação
em uma conferência específica. Há interesse
especial por autores internacionais. É um evento sem
o envolvimento permanente com escolas. Parati, por ser uma
cidade diferente, de uma beleza ímpar, atrai mais turistas
que desejam curtir a cidade, e não tantos leitores.
EC – Como se desenvolvem as pré-jornadas?
Nossa metodologia é a mesma desde 1981. Uma equipe de
professores visita escolas em diferentes cidades e estados
no semestre anterior à realização da Jornada,
com o objetivo de divulgar as obras dos autores convidados
que virão, propondo ações e práticas
leitoras. Este ano, a preparação dos leitores
teve mais uma modalidade: foi criado um Fórum on-line.
Os livros estão expostos na tela e os participantes,
após realizarem suas leituras, postam mensagens revelando
seus posicionamentos críticos sobre as mesmas. Há um
professor mediador das mensagens de cada livro em análise.
Quanto ao trabalho dos professores, os seminários foram
substituídos pela realização de práticas
leitoras com os livros selecionados, aplicando-as não
apenas em escolas, mas também em bibliotecas, salões
paroquiais, centros culturais, centros comunitários.
EC – De
que forma a Jornada vai debater o mercado cultural do livro?
É
necessário preparar os profissionais envolvidos com
a cadeia produtiva do livro com reflexões sobre as formas
inovadoras de vendas no varejo, no atacado, o que tem modificado
o comércio. Essas inovações precisam ser
assimiladas, inclusive, pelas livrarias, que não devem
vender apenas livros, mas materiais multimidiais de leitura
que complementem o ato de ler. Acreditamos na continuidade
do livro mesmo diante de tanta tecnologia. O que precisa ser
feito é agregar valor ao processo de leitura e, conseqüentemente,
ao livro. O lucro deve se concentrar na venda em quantidade,
diminuindo o preço para que mais pessoas tenham acesso
ao livro e a seus complementos.
| Foto:
Lucas Oliveira Bicudo/Divulgação |
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Pré-jornada
qualifica o público leitor para o evento |
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