Entre
o caos e o oportunismo

acidente
no vôo 3054 da TAM, o mais triste e lamentável episódio
da história da aviação brasileira pelo número
de vítimas que dele resultou, acabou se transformando de
forma ainda mais nauseante em show midiático e palco político
para os oportunistas de plantão. Nas primeiras horas da
cobertura de imprensa, já se apontavam culpados e reduzia-se
a tragédia das famílias à mera moeda a ser
usada a serviço de interesses, que certamente nada ou pouco
tinham a ver com o que naquele fatídico momento acontecia.
Só não se tocava na questão central do chamado
caos aéreo e suas razões, se é que a crise
aérea realmente pode ser responsabilizada sozinha pelo acidente,
como o velho e nem tão bom jornalismo brasileiro cravou
em suas manchetes de forma afoita minutos depois da colisão
do avião da TAM com o prédio da própria empresa.
Mas o importante naquele momento era encontrar culpados, como se
apenas um fator fosse determinante à queda de um avião.
Era nitidamente constrangedora a fisionomia contrariada de jornalistas,
quando eram desmentidos ou tinham suas teses relativizadas por
especialistas em aviação, que diziam que acidentes
como esses estavam dentro das margens de risco aceitas ou que diversos
fatores contribuem para a queda de um avião. E a tal questão
deixada de lado pode ser chamada de ganância do mercado.
A tese, que era óbvia, só começou a ventilar
na imprensa dias depois, afinal já não dava para
omitir a co-responsabilidade dos anunciantes – as empresas
aéreas. As novas companhias que passaram a atuar no mercado
brasileiro nas últimas décadas e até mesmo
em anos recentes, muito endeuzadas pelo seu arrojo nos negócios,
sempre priorizaram o lucro fácil às custas de itens
de conforto, escassez de funcionários (turnos mais longos),
o que fez despencar os custos e aumentar a venda de passagens acima
do que nossa estrutura aeroportuária suporta. E aí sim
entra a omissão do governo, que não regula nem fiscaliza
direito esse grande negócio, além de submeter-se
aos interesses das companhias, que optam por trabalhar no limite
das margens de risco. Mas lembremos que muitas das vozes da mídia
que agora acusam essa omissão sempre defenderam que o governo
deve deixar o mercado regular-se a si mesmo. Como se o mercado
priorizasse as vidas às cifras. A verdade é que o
mercado vê possíveis acidentes como estatísticas
aceitáveis e perfeitamente dentro das chamadas margens de
risco já citadas. Vivemos pelas regras do mercado e como
sociedade devemos assumir essa opção.
E como diz o observador da imprensa, o experiente jornalista Alberto
Dines, encontrar os culpados pelo acidente não vai ressuscitar
os mortos, assim como criticar o sensacionalismo da mídia
não resolverá o colapso do transporte aéreo,
constatado inclusive pelo próprio governo.
Enquanto isso, um número proporcionalmente muito maior de
pessoas continua morrendo nas estradas sem que ninguém se
comova. Isso sem falar no exército de jovens que se matam
no trânsito ou nas guerrilhas urbanas. Estes últimos,
nem são de classe média, menos comoção
ainda, mas isso já é outra história.
Mas uma coisa é certa, entre o caos e o oportunismo é preciso
tomar cuidado para não cair na tentação de
promover de forma irresponsável a histeria coletiva e a
volta do autoritarismo. Boa leitura.